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A Igreja subjetiva

Jeffrey Bruno

James V. Schall, S.J. - publicado em 02/10/14

O pensamento contemporâneo se esforça para rejeitar os conceitos objetivos de certo e errado

I. Em certa época passada, a famosa frase "Pelos seus frutos os conhecereis", do evangelho de Mateus, 7,16, parecia óbvia o suficiente para todos. Ela significava que os atos e as palavras de uma pessoa manifestavam o seu caráter. Todo mundo sabia que os nossos atos externos eram produto dos nossos entendimentos internos e das nossas escolhas. As leis eram externas a nós, no sentido de que não impúnhamos o seu conteúdo a nós mesmos; obedecer a elas ou rejeitá-las era uma decisão interna. Publicanos e pecadores apresentavam certa posição visível, assim como os hipócritas. Eram eles os que obedeciam à letra externa da lei, mas não as internalizavam.

A própria Igreja, ao se identificar com o corpo de Cristo, apresentava certas manifestações externas. Ela não era uma Igreja invisível, só dos salvos. Ela se manifestava através de elementos visíveis como hierarquia, sacramentos, edifícios, leis e palavras. Era retratada como construída sobre a rocha. Os movimentos que queriam interiorizar a Igreja para que ela não tivesse nenhuma presença visível foram declarados heréticos. Os inimigos da Igreja trabalharam para lhe negar qualquer lugar no fórum público, qualquer verdadeira liberdade de ação para se fazer presente no meio dos homens.

O mais difícil dos ensinamentos cristãos não era, assim, a existência de Deus, mas a Encarnação do Filho de Deus. O ateísmo é um problema relativamente pequeno em comparação com a Encarnação. Este fato significava que, não sendo visível para nós, o Pai poderia tornar-se visível através do Seu Filho, o Verbo feito carne, o que é uma frase gráfica. "Quem vê a mim vê o Pai" (João 14,9). O Verbo "habitou entre nós" é outra frase gráfica. A noção de Deus entrando em nossa história como homem parecia, para muitos, uma rejeição da alteridade absoluta de Deus, quando, na verdade, era uma confirmação dela.

Mas desde que o papa Francisco pronunciou o seu famoso "Quem sou eu para julgar?" e que os bispos escolheram um jeito menos claro de lidar com quem se diz católico, mas não concorda com a posição da Igreja em muitas questões, tornou-se digna de nota uma mudança de critérios que passou da objetividade para a subjetividade. Se nem o papa nem os bispos querem "julgar", temos uma Igreja da qual não podemos realmente dizer quem é membro e quem não é. Podemos dizer que qualquer um que foi batizado é católico ou cristão. Mas nunca sabemos o que há no interior de alguém ou como Deus julga o lado interno ou subjetivo da vida. A distinção entre santo e pecador se torna turva.

Agostinho já tinha salientado que a Cidade de Deus não podia ser identificada com a visível pertença à Igreja. Havia membros da Cidade dos Homens que acabariam sendo salvos, e membros da Igreja visível que se perderiam. Tomás de Aquino, por outro lado, considerava que é preciso obedecer à consciência mesmo que ela esteja objetivamente errada. Este princípio não queria dizer que não precisamos formar cuidadosamente a consciência, mas que não queríamos que alguém atuasse contra a sua consciência, mesmo ela sendo errônea. Essa posição implicava que alguém que fizesse algo objetivamente errado não seria culpado se acreditasse sinceramente estar certo.

Além disso, temos a admoestação do Antigo Testamento: "Meus caminhos não são os teus caminhos" (Isaías 55,8). A Igreja sempre nos ensinou que não conhecemos o julgamento final de Deus sobre o estado eterno de alguém. Canonizamos santos, mas nunca sem algum sinal final de santidade. Hesitamos em dizer se Judas, Ivan, o Terrível, os homens-bomba muçulmanos, Hitler, Stalin e outros assassinos famosos da história estão eternamente perdidos ou não. E não são poucas as pessoas que negam a possibilidade de qualquer vida após a morte, para não terem que encarar essa questão.

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Tags:
FilosofiaIgrejaMalteologia
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