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A Igreja subjetiva

Jeffrey Bruno

James V. Schall, S.J. - publicado em 02/10/14

Sempre ressurgem, é claro, aquelas histórias do homem santo enterrado vivo: ele poderia ter se desesperado no último instante. Também temos as histórias de terríveis pecadores e assassinos que se arrependeram no trajeto para a forca; os bons ladrões da história. "Só quem persevera até o fim será salvo" (Mateus 24,13). Sabemos que a misericórdia divina pode salvar "quem quer que seja salvo", como João Paulo II colocou.

II. Neste contexto, permitam-me uma palavra sobre os terroristas suicidas muçulmanos, como eles são chamados. Incluo nessa consideração, também, os católicos que atuam na vida pública e que não concordam "em consciência" com os ensinamentos da Igreja, agindo divergentemente como se tudo estivesse certo. Na teologia muçulmana, um homem-bomba é um mártir. Ao matar infiéis junto consigo, ele está oferecendo a sua vida à causa de Deus. As pessoas que os terroristas matam não são muçulmanas. São pessoas que, por definição, estão em guerra com o islã. Além disso, elas nasceram muçulmanas, assim como todas as pessoas, mas foram corrompidas. Sua situação é a de inimigos do islã. Portanto, matá-las é um ato de virtude.

Uma doutrina dessas, sem dúvida, é difícil de engolir. E, mesmo assim, segundo os princípios católicos, devemos dizer que, se a consciência tem certeza de que esta é a coisa certa a se fazer, então é um ato de virtude. Quando aceitamos esta posição, toda a ordem objetiva do certo e do errado fica obscurecida. Podemos nos interrogar se existe mesmo uma consciência tão errônea a ponto de aceitar estas consequências. Mas, superficialmente, parece possível.

Os políticos católicos que dizem que a sua consciência os leva a apoiar uma legislação objetivamente má porque esta seria a coisa certa a se fazer estão na mesma situação do muçulmano. Se não é excomungado, esse político pode entender que ainda está em situação normal dentro da Igreja. Os bispos silenciam ou não lhe proíbem explicitamente os sacramentos. O homem pode concluir que deve haver algo de válido na sua posição. Do contrário, ele seria excomungado. Mais uma vez, temos o subjetivo se tornando a realidade, e não o objetivo da regra ou da lei.

A mesma situação existe no caso do homem visto como bom. A parábola do publicano e do pecador (Lucas 18,13) destaca graficamente que a piedade externa não é suficiente. Da mesma forma, foi o pecador quem realmente mostrou o amor de Deus. Nenhuma dessas considerações se destina a sugerir que a ordem objetiva não é importante. Ela continua a ser o padrão. Além disso, não podemos saber se alguém, como o homem-bomba ou o político, não estão, conscientemente, tentando enganar a si mesmos. Esta situação também seria invisível para nós.

Podemos tirar alguma conclusão dessas reflexões? Certamente, aplica-se aqui o velho adágio aristotélico: "Não chame ninguém de feliz até que ele esteja morto". Fica bastante claro, nas escrituras, que Deus reserva para Si o julgamento final. Assim, das almas dos sete bilhões de habitantes deste planeta, podemos ter certeza de que não sabemos como cada uma se encontra diante de Deus. E este fato, certamente, é uma bênção para nós. Mas é também um aviso.

Uma das coisas mais impressionantes do pensamento contemporâneo, exceto no caso dos muçulmanos que seguem outros pensares, é a relutância a julgar qualquer coisa em termos de certo e errado. O que há por trás dessa recusa? Ela nos permite fazer o que bem quisermos, mesmo que seja o mal. Se convencemos a nós mesmos de que não precisaremos prestar contas no final, podemos então ter certeza de que tudo o que fazemos é indiferente. Num mundo em que tudo é relativo, nada faz diferença. Este ponto de vista pode ser uma justificativa para a consciência errônea, de modo que qualquer um que tenha essa visão seja salvo? Em teoria, parece possível, mas, na prática, eu duvido.

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Tags:
FilosofiaIgrejaMalteologia
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