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É Cristo o verdadeiro médico

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Gilberto Borghi - publicado em 03/10/14

Poucos se lembram que o sujeito da frase inicial da Lumen Gentium não é a Igreja, mas Cristo

Até mesmo os jornalistas leigos estão interessados pelo tema da liberação da comunhão para os divorciados que se casaram novamente. É um risco que o Sínodo seja sugado por esse aspecto e perca todo o peso e a importância de uma série de questões que o trabalho preparatório trouxe à luz. Trabalho feito também através das consultas livres dentro da Igreja.

Os casais que permanecem juntos, mas têm o coração endurecido, estão certos? Os jovens que querem se casar, mas não compreendem como discernir dentro de si, encontram ajuda suficiente na Igreja? As famílias que não têm estabilidade econômica e por isso correm o risco de perder sua dignidade também no plano ético, precisam ficar em silêncio? Os casais e famílias que se sentem tranquilos em sua fé, um pouco burgueses, mas que não evangelizam mais, nós continuaremos a mantê-los como exemplo? 

Todas estas situações estão ligadas à metáfora que o Papa Francisco ressaltou há alguns dias sobre a Igreja como um hospital de guerra. Ou seja, a Igreja como um lugar para cuidar e não para julgar, antes de tudo. Mas como se cuida em um hospital de guerra? O ferido precisa entrar em contato com quem? Com os enfermeiros, os organizadores da guerra, ou com o “Médico”? Fora da metáfora. Os bons cristãos, os bispos, os padres, são os médicos? Às vezes tenho a impressão de que pensamos que somos nós os médicos. E que poucos se lembram que o sujeito da frase inicial da Lumen Gentium, do Vaticano II, não é a Igreja, mas Cristo. É Cristo a luz das pessoas. É inútil negá-lo, perdemos isso. Centrados em olhar o “umbigo eclesial”, perdemos a centralidade de Cristo na nossa comunidade. 

E agora, o que se pode fazer? Talvez seja preciso uma conversão pastoral que aplique um princípio inevitável: voltar atrás. Com isso quero dizer que seja a possibilidade da Igreja em reconhecer e aceitar que o Espírito trabalha também antes e fora dos seus confins visíveis e que ela não tem a exclusividade para fazer existir a fé em Cristo na Terra. Que o seu papel é ser verdadeiramente o sacramento universal de salvação, o sinal eficaz de Deus que salva em Cristo.

Voltar atrás significa parar com a Igreja que “vela” Cristo escondendo-O no seu seio quase querendo-O proteger do mundo, passar a deixar que o mundo possa ver e tocar diretamente o tesouro de graça que ela contém. Uma Igreja se abre pelo seu bem, que a funda e dá sentido, sem o medo de se perder, porque é apoiada na segurança de Cristo.

Colocar-se à parte pode se tornar um “isolante”, não permitindo mais que duas partes consigam entrar em contato. Isso, sobre todos as três dimensões onde tradicionalmente a pastoral se estrutura. Por isso, menos catequeses e mais leitura direta da Bíblia; menos celebrações formais e mais contato direto com Ele; menos organização institucional da caridade e mais contato direto com os pobres.

Se queremos que o ferido e Cristo se encontrem, é-nos pedido que voltemos a pensar que o pecado é uma ausência de bem. Até mesmo a ação pecaminosa, para além da sua desordem que continua, pode trazer consigo os sinais de amor. Porque nada pode existir se Deus não o fizesse existir. No quanto seja vil e inqualificável, o pecado é sempre um amor enlouquecido, um amor que se separou da raiz fundamental do amor, Deus, e que quer se tornar Deus. 

Para repará-lo não funciona distanciar de si mesmo. Deus não redime o pecador tirando dele o seu pecado, mas faz a ação contrária. Ele carrega o pecador. Desta forma assume o pecado e o consuma em um ato de amor total que é capaz de recuperar até mesmo o efeito mais radical do próprio pecado, ou seja, a morte. Se estivéssemos verdadeiramente convencidos disso, teríamos de refazer toda uma antropologia e recuperar uma espiritualidade antiga que perdemos. Isso, porque muitos fiéis hoje permanecem bloqueados dentro do sentimento de culpa, por isso não são capazes de tirar o pecado de si. Desta forma, o ferido é colocado em espera na maca e é preciso buscar a cura por si mesmo. 

Tags:
CasamentoCristãosDeusFamíliaIgrejaJesusmedicina
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