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Os jovens franceses que optam pela jihad

<p>(30 set) Fouad, irmão de Nora, conversa com um advogado em Avignon</p>

AFP - publicado em 08/10/14

Quem são essas pessoas? Marginalizados, jovens de subúrbios pobres sem referências?

"Vocês me abandonaram": a frase, pronunciada por Nora, adolescente que partiu para se juntar à jihad na Síria sem que sua família soubesse, e que agora não pode retornar, tornou-se uma obsessão para Fouad, seu irmão mais velho, de 37 anos.

A França, que tem a maior comunidade muçulmana da Europa, é também é o país de origem do maior contingente de jihadistas ocidentais. Quase mil viajaram para Síria e Iraque através das redes de recrutamento.

Quem são essas pessoas? Marginalizados, jovens de subúrbios pobres sem referências?

"Não se trata apenas de Aicha e Brahim, mas também de Jacqueline e Michel", destaca Hassen Chalghoumi, imã da região parisiense conhecido por suas críticas ao extremismo.

Todas as regiões da França e todos os meios sociais estão envolvidos: rurais, urbanos, jovens, nem tão jovens, muçulmanos, convertidos (21%, segundo o Ministério do Interior), famílias, profissionais liberais.

Desde 23 de janeiro, data da viagem clandestina de Nora, então com 15 anos, Fouad e sua família vivem um inferno e não conseguem entender como a aluna do ensino secundário de Avignon, uma boa estudante que sonhava em ser médica, abandonou tudo.

Fouad descobriu que sua irmã tinha uma "vida dupla", dois estilos de figurino e duas contas no Facebook: em uma registrava a vida de uma adolescente comum, na outra afirmava que desejava "viajar a Aleppo para ajudar os irmãos sírios", referindo-se à cidade do norte da Síria.

"Se não fizer nada, terei que prestar contas a Alá", escreveu.

Em abril, Fouad conseguiu encontrar a irmã na Síria, por meia hora na presença de seu emir, Omar Omsen, um franco-senegalês.

No Twitter, corações e fuzis kalashnikov

"Eu a encontrei em péssimo estado, com o rosto inchado", disse.

Mas foi impossível convencer o emir a permitir que ela fosse embora. Em uma conversa por telefone antes do encontro, Nora disse ao irmão que desejava voltar para casa.

"Estou no meio de hipócritas e de covardes que aterrorizam os sírios", havia dito a jovem.

Até meados de março, Nora dizia que era "feliz, longe dos ímpios e dos estupradores".

Mas há dez dias, entre lágrimas, afirmou: "Sinto falta de vocês…vocês me abandonaram".

"Hoje é uma refém, vítima de uma seita", afirma o advogado de Fouad, Guy Guénoun.

Dounia Bouzar, diretora do centro de Prevenção contra Seitas Ligadas ao Islã, se declara preocupada com o número crescente dos que viajam para combater na jihad.

Eles passaram horas no YouTube e nas redes sociais, assistindo a imagens impactantes e mensagens que convocavam para viagens à Sham (Grande Síria) do grupo Estado Islâmico (EI) ou da Frente Al-Nosra, ligada à Al-Qaeda.

Os jovens não frequentavam as mesquitas e se isolaram de suas famílias e amigos.

"É a geração web", resume David Thomson, jornalista da Rádio França Internacional (RFI) e autor do livro "Les Français jihadistes" (Os franceses jihadistas, em tradução livre).

"Eles não têm uma cultura particular do Islã", afirma o advogado Martin Pradel, defensor de vários jihadistas detidos quando retornaram para a França, citando o caso de um executivo na casa dos 30 anos, com bom nível de vida e nada em comum com os adolescentes em situação de fracasso escolar dos subúrbios pobres.

O advogado ressalta a rapidez da radicalização de alguns, "em um mês" no caso de um cliente.

"Estamos descobrindo a ponta do iceberg", afirma Guénoun, que destaca as "redes" dedicadas às viagens para a Síria dos candidatos à jihad, e ativas em toda a França.

Apesar da adesão às ideias, alguns não tomam a decisão de partir. Este é o caso de uma jovem estudante de Direito de 20 anos que declarou à AFP que aqueles que não podem viajar, "fazem a jihad onde estão".

Ela disse acreditar que atentados serão cometidos na França, mas garante que não participará deles.

A jovem mantém contato pelas redes sociais com amigos na Síria e afirma que eles são muito felizes.

Ao ser perguntada sobre as decapitações de reféns, responde: "É triste, mas é a guerra".

Em sua conta no Twitter, a jovem comenta as fotos dos jihadistas que aparecem com fuzis kalashnikov e junto com um gato de estimação. Seus comentários são acompanhados de vários corações.

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