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Comunidades católicas virtuais? Não é melhor “cairmos na real”?

Ben-Seese-CC

Robert McTeigue, SJ - publicado em 10/10/14

As amizades virtuais nunca vão substituir as conversas de coração a coração com pessoas de carne e osso

Quando foi a última vez que você sentiu aquela vontade quase incontrolável de dar um pulo da cadeira, levantar a voz e proclamar: "Espere aí! Isso não é verdade!"? Aconteceu comigo faz algumas semanas. Eu estava ouvindo um colega falar das mídias sociais como o “pivô da Nova Evangelização”. Ouvi de mente aberta. Ele começou a exaltar os méritos da internet, em especial dos elementos de áudio e vídeo, que, para ele, estavam muito acima dos méritos da palavra impressa.

Ele declarou que "o texto é chato. Só pode ser usado para transmitir informação. O texto não sacode a imaginação nem agita as emoções. O texto não pode ser usado para formar comunidades. Com o surgimento da internet e das redes sociais, nós podemos começar a mover os corações e a formar comunidades no mundo virtual de um jeito que as palavras impressas jamais conseguiriam".

Foi aí que eu senti aquela vontade quase incontrolável de dar um pulo da cadeira, levantar a voz e proclamar: "Espere aí! Isso não é verdade"!

Aparentemente, ele não ouviu falar (e muito menos leu) a Regra de São Bento ou os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, textos que, literalmente, formaram comunidades durante séculos. Eu duvido que ele conheça a Divina Comédia, de Dante, que, sem dúvida alguma, “sacudiu a imaginação”. Será que ele nunca leu nenhum poeta? A poesia é capaz de provocar turbilhões emocionais! Será que ele não leu "O Senhor dos Anéis"? "Nárnia"? Esses textos não “sacodem a imaginação”?

Desanima um pouco, mas não surpreende, encontrar jovens entusiasmados que “se atiram de cabeça” nas mídias sociais, mas que não dão quase nenhuma evidência de terem hábitos sérios de leitura. O que me alarma, no entanto, é o possível desconhecimento dos efeitos prejudiciais, para a vida católica, dessa acrítica exaltação da ideia de que "a internet e as mídias sociais vão nos salvar".
Quero dar alguns exemplos.

Em "Why Johnny Can’t Preach: The Media Have Shaped the Messengers" ["Por que Johnny não sabe pregar: como a mídia condicionou os mensageiros"], o autor T. David Gordon escreveu que uma das razões de Johnny não conseguir pregar não é tanto o que foi ensinado a ele no seminário (que pode ser muito bom), mas certas coisas que Johnny trouxe consigo para o seminário: uma capacidade de atenção e de imaginação moral atrofiada por uma “dieta” baseada em televisão e internet/mídias sociais. Neil Postman é visto hoje como um profeta por ter feito soar o alarme da influência avassaladora da televisão em 1987 com o clássico "Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business". Os dois autores deixam claro que uma confiança acrítica na mídia eletrônica pode prejudicar a capacidade das pessoas de receber o evangelho em vez de expandi-la. Quem duvida disso não passou os últimos vinte anos lendo ensaios de estudantes e tentando envolver os alunos em conversas, como eu passei.

O que eu acho especialmente alarmante em relação aos defensores acríticos das "comunidades virtuais" é que eles parecem não saber que as comunidades "virtuais" não são comunidades reais: elas podem ser apenas distrações, ou, pior ainda, substitutos da real vida de comunidade. As comunidades virtuais podem ser “ligadas” ou “desligadas” à vontade; elas não exigem a nossa presença pessoal, não implicam uma exigência moral do nosso tempo e da nossa atenção. Mas as pessoas reais e as comunidades reais exigem. E é por isso que eu acho que algumas pessoas fogem para o “éter do virtual”: porque é muito trabalhoso lidar de verdade com a pessoa real do outro lado da mesa do café-da-manhã. No mundo online, sempre existe algum outro lugar para onde correr quando a comunidade virtual demanda muito esforço, intimidade ou compromisso. As pessoas reais, em casa, na paróquia, no trabalho, estão bem ali na nossa frente e têm o “mau hábito” de conhecer os nossos defeitos e as nossas promessas não cumpridas. É muito mais fácil abrir uma nova aba no navegador, seguir outra conta do Twitter ou encontrar um novo grupo de "amigos" no Facebook. Usadas com entusiasmo demais e com prudência de menos, essas várias mídias sociais comprimem a nossa imaginação, se opõem à contemplação, sacrificam o silêncio e nos distanciam das pessoas reais que precisam de nós. Pessoas, por sinal, que são feitas à imagem e semelhança de Deus.

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