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Relatório inicial do sínodo sobre a família gera onda de histeria

Synod on Evangelization – pt

Catholic Church England and Wales-CC

Susan E. Wills - publicado em 15/10/14

Mas o céu não está desabando... pelo menos, não ainda

Divulgado nesta segunda-feira, 13 de outubro, o primeiro relatório parcial do sínodo dos bispos sobre a família foi recebido por muita gente com uma retórica do tipo “o céu está desabando”, “isso foi uma traição”, “um terremoto” e “este sínodo está trilhando a estrada da morte”.

Há motivo para tanto?

Vamos começar com o fato de que o objetivo desse primeiro relatório é apenas "destacar as principais questões abordadas ao longo da primeira semana do sínodo", conforme foi explicado pela Rádio Vaticano. Portanto, não se trata de nenhum pronunciamento do Magistério, nem de qualquer afirmação doutrinária, nem de recomendações finais de um processo deliberativo. É uma espécie de ata das livres manifestações iniciais dos participantes do sínodo até o momento.

Seria o caso de entrarmos em pânico se o sínodo extraordinário e, especialmente, o sínodo de outubro de 2015 sobre a família concordasse com recomendações que diluam, deturpem ou abandonem os ensinamentos imutáveis ​​de Jesus e da Igreja que Ele fundou.

Embora nada esteja “decidido” só porque tenha aparecido no relatório inicial, é possível “compreender” a angústia manifestada por alguns e fundamentada exclusivamente nas intervenções desta semana, conforme resumidas pela assessoria de imprensa do Vaticano. Parece que foi gasto muito tempo em discussões sobre o quanto deveríamos tornar “mais palatáveis” os ​​nossos exigentes ensinamentos sobre a indissolubilidade do casamento, a proibição da contracepção, a coabitação e a homossexualidade. Seguir esses ensinamentos exige maturidade, amor sacrificial, humildade, autocontrole e fé, entre outras virtudes, assim como a graça dos sacramentos. Por que fingir que não? Por que criar a impressão de que, na intimidade sexual, existem as categorias de bom, melhor e ótimo?

O que faltou no relatório inicial, e que muitos esperam ver no relatório final, é, como observou Mary Shivanandan, professora emérita de teologia do Instituto João Paulo II de Estudos sobre Matrimônio e Família, uma "visão do matrimônio e da família sólida o suficiente para atrair as pessoas à conversão, mesmo que gradualmente, ou para encorajar aqueles que estão em dificuldades a fim de permanecerem no caminho certo. Esta visão foi proporcionada pelo papa João Paulo II na Familiaris Consortio, na sua catequese sobre a Teologia do Corpo e na Carta às Famílias. Vamos dar a ela uma chance!".

O relatório inicial levantou duas grandes preocupações.

Em primeiro lugar, parece que o princípio da "gradualidade" está sendo proposto de novo no tocante à forma como a Igreja trata os indivíduos que não estão vivendo de acordo com a doutrina católica. Exemplos disto seriam a permissão da comunhão eucarística para os casais que recorrem à contracepção e que se recusam a ficar abertos à vinda de filhos ou para os divorciados recasados ​​que não pretendem viver como irmão e irmã. Em seu artigo recém-publicado, "O que o sínodo quer dizer com ‘gradualidade’?", a auditora norte-americana Alice Heinzen explica que os padres sinodais estão usando esse termo tal como definido na Familiaris Consortio, nº 34. O entendimento dela é coerente com a explicação oferecida pelo padre dominicano Dominic Legge. Não se pode voltar à prática dos sacramentos apenas com o compromisso de abandonar gradualmente uma prática gravemente pecaminosa; deve-se, isto sim, fazer uma renúncia definitiva do pecado, seguida pelo caminho normal da vida cristã: uma ascese gradual (com recuos ocasionais, talvez) em direção à perfeição a que somos chamados.

A segunda grande preocupação vem da linguagem do relatório inicial: ele é simplesmente repleto de ambiguidades. Uma leitura “caridosa” nos permitiria conciliar a maior parte do texto com a doutrina estabelecida; já se fizéssemos a pior interpretação possível de cada frase ambígua, poderíamos ter uma grande dor de cabeça.

A confusão começa a ficar evidente na Parte II, "O discernimento dos valores presentes nas famílias feridas e em situação irregular", quando é feita esta pergunta: "Quais são as possibilidades oferecidas aos casais que experimentam o fracasso do seu casamento, ou melhor, como é possível oferecer a eles a ajuda de Cristo através do ministério da Igreja?". Será que isto é um apelo velado para que se permita a eles o recebimento da Eucaristia? Esta pode ser uma das leituras, embora não seja a única.

Também pode haver confusão na menção à "doutrina dos níveis de comunhão, formulada pelo Concílio Vaticano II", que reconhece que "elementos de santificação e verdade" podem ser encontrados em denominações e credos externos à estrutura da Igreja católica, sugerindo-se a aplicação desta doutrina às situações de "coabitação, casamentos civis e pessoas divorciadas e recasadas", por meio de "mais apreciação dos valores positivos que elas contêm do que das suas limitações e deficiências". Mas para quê, exatamente?

Nós apreciamos o bem que encontramos em outras comunidades de fé, mas não as admitimos na Santa Comunhão. Devemos mostrar o nosso apreço pelos valores positivos das pessoas que vivem em coabitação, em casamentos civis etc., mediante a sua não condenação? Mas isso é caridade cristã básica. Então qual é a necessidade de se destacar este ponto?

Sob o título "A verdade e a beleza da família e da misericórdia", o relatório nos informa que "uma nova dimensão da pastoral familiar de hoje consiste em aceitar a realidade do casamento civil e da coabitação, levando em conta as devidas diferenças". A frase-chave, é claro, é "aceitar a realidade". Qual seria, afinal, o significado exato da palavra "aceitar"? É evidente que todos nós temos que enxergar que existem estas realidades, mas “aceitar” significa “concordar”, “ratificar”, “reconhecer” como dignos de alguma ação por parte da Igreja que não seja a vontade de explicar respeitosamente a essas pessoas a doutrina católica, com caridade e encorajamento? E onde é que está a preocupação com os filhos de pais que moram juntos sem estar casados (ou, muitas vezes, com os filhos de um dos pais que coabita com outro adulto que não tem vínculo algum com a criança)? O dano físico, emocional, psicológico e espiritual que essas crianças sofrem deve ter precedência sobre o desejo dos adultos de se sentirem aceitos.

Na Parte III, "Aspectos positivos das uniões civis e da coabitação", o relatório afirma que as situações irregulares "devem ser tratadas de forma construtiva, procurando-se transformá-las em oportunidades de caminhar rumo à plenitude do matrimônio e da família (…) Eles precisam ser acolhidos e acompanhados com paciência e delicadeza".

Ninguém discutiria esta declaração, que é apenas boa prática pastoral. Mas a discussão que se segue sobre os “Cuidados a tomar com as famílias feridas” (de pessoas separadas, de divorciados que não voltaram a se casar, de divorciados que voltaram a se casar) cita uma passagem da Evangelii Gaudium (nº 169) em que o papa Francisco pede que todos sejam iniciados "nesta ‘arte do acompanhamento’, que nos ensina a tirar as sandálias no solo sagrado do outro". Mais uma vez, trata-se da boa prática pastoral de conduzir suavemente os adultos cujos casamentos fracassaram para mais perto da plenitude da fé, mas é novidade, para dizer o mínimo, referir-se à situação dos adultos divorciados e recasados ​​como se estivessem vivendo “em solo sagrado”.

Fomos informados, ainda, de que "vários padres sublinharam a necessidade de tornar o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial mais acessível e flexível". Essas opiniões não levaram em conta a justiça devida ao cônjuge abandonado e aos filhos inocentes, mas apenas o ponto de vista de quem quer continuar a sua vida com um novo cônjuge. Como documentou o Dr. Fitzgibbons em dois artigos recentes, os casamentos podem ser salvos e é preciso dar muito mais atenção ao fortalecimento do casamento do que à racionalização dos processos de anulação.

A recepção da comunhão por indivíduos divorciados e recasados ​​é mencionada no relatório inicial como um tópico aberto à discussão (um ponto que merece um tratamento muito mais amplo do que este espaço, aliás).

Foram os dois tópicos finais que geraram a maior parte da confusão e das controvérsias: "o acolhimento das pessoas homossexuais" e a contracepção.

A decência exige que respeitemos o bem inerente a cada pessoa, incluídas aquelas que sentem atração pelo mesmo sexo. O pe. Paul Check, diretor executivo da Courage International, escreveu em artigo da semana passada: “Amar as pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo é amá-las pela sua dignidade dada por Deus e remida por Cristo. Elas não são inferiores a nenhum outro filho do Pai. Como todo mundo, elas merecem mais do que sentimentalismo. Merecem compaixão (…) fundada na verdade da sua humanidade”.

E ele explicou: “Acolher as pessoas na Igreja, em nossas casas, em nossas conversas, aceitá-las de modo autenticamente cristão, não deve jamais envolver um comprometimento da verdade. Ao mesmo tempo, só podemos compartilhar a verdade se primeiro compartilharmos um relacionamento com alguém, o que exige tempo e confiança”.

Se é isto o que o sínodo quer dizer no parágrafo citado logo adiante, tudo bem. Mas perguntar se as nossas comunidades são capazes de "valorizar a sua orientação sexual" parece exigir um nível bem diferente de aceitação. O relatório afirma e nos pergunta: “Os homossexuais têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã: somos capazes de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço fraterno em nossas comunidades? Nossas comunidades são capazes de aceitar e valorizar a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?”.

Ele afirma que "a Igreja presta especial atenção às crianças que vivem com casais do mesmo sexo, destacando que as necessidades e os direitos dos pequenos devem ser sempre uma prioridade", mas as ciências sociais são claras ao dizer que ninguém está dando prioridade aos direitos das crianças que são criadas por parceiros do mesmo sexo.

Quando discute a característica essencial da abertura à vida dentro do casamento e afirma os ensinamentos da Humanae Vitae, o relatório inicial parece se contradizer ao mencionar "a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de controle de natalidade". Sem dúvida, o casal tem a responsabilidade, em sã consciência e por motivos graves, de adiar ou limitar o número de filhos que tem condições de criar, mediante a abstinência periódica. Mas a frase "avaliação moral dos métodos de controle de natalidade" sugere algo totalmente diferente, uma capitulação diante da mentalidade contraceptiva.

Por enquanto, podemos apenas esperar que o relatório final nos ofereça mais clareza e apresente maior adesão às verdades da nossa fé.

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