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O cristianismo é mesmo para os fracassados

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David Mills - publicado em 15/11/14

Mas a arrogância pode nos levar a enxergá-lo como a religião dos bem-sucedidos

"Eu jamais iria à igreja com o meu encanador". Esta frase veio da boca de um homem elegantemente vestido de terno escuro, em uma paróquia episcopaliana tradicionalista de Long Island, onde a renda é bastante superior à média do resto dos Estados Unidos e do mundo. Eu ri, entendendo que a declaração fizesse parte de uma piada, mas logo vi que ele estava falando sério. Foi um momento constrangedor.

Eu entendo o esnobismo. Todo mundo o comete, porque quase todo mundo é esnobe a respeito de alguma coisa. O que eu não entendo é que as pessoas declarem isso em voz alta. Um cristão até pode “se sentir” esnobe, em especial os que foram criados em ambientes sociais nos quais boa parte dos trabalhadores, mesmo qualificados, é vista como inferior aos banqueiros e investidores, mas quem se sente assim precisa entender qual é a impressão que provoca quando se declara assim.

Jesus morreu pelo encanador. E se Jesus morreu por ele, você pode se sentar ao lado dele e se sentir feliz com isto. A mesma coisa, aliás, se aplica ao caso de nos sentarmos ao lado daquele homem de terno escuro elegante. Jesus morreu por ele também.

Há uma quantidade bastante relevante de cristãos, nos níveis sociais ditos mais altos, que acreditam que viver virtuosamente e seguir determinadas orientações “passo-a-passo” é algo simples e que sempre dá bons resultados. Assim, é fácil esquecer que o fracasso também é bastante “simples”. Quando se pensa dessa forma, tende-se a esquecer, ainda, que o cristianismo é uma religião para os fracassados. E isso é muito bom!

As classes mais abastadas, especialmente aqui nos Estados Unidos, acham “engraçado” o elitismo de certos meios de comunicação, como o The New York Times, por exemplo: impecavelmente liberal e “esquerdista” em suas posições editoriais, ele é repleto, ao mesmo tempo, de anúncios de apartamentos, roupas e objetos que só os ricos conseguem pagar, além de relatos contínuos sobre o estilo de vida da mais alta sociedade. Os editores não estão muito mais interessados no encanador do que aquele rico episcopaliano, embora, em contraste, eles ao menos apresentem interesse no salário justo e na moradia digna do encanador.

Já na hora de avaliar criticamente a própria suposição de que o cristianismo é uma religião para os bem-sucedidos, esses cristãos “de classe superior” não acham mais que a coisa seja tão engraçada assim. Vivendo num país tão rico como os Estados Unidos, temos dificuldade em pensar de outra forma. Somos uma sociedade pelagiana.

Esta suposição pode ser identificada na preferência que é dada, em nossa vida eclesial, àqueles que são ricos de família. Ela também aparece, com mais sutileza, quando os católicos conservadores esperam contar com alguma leniência na própria anulação matrimonial, alegando, por exemplo, o bem-estar dos filhos do segundo casamento, mas se veem desconsolados quando o relatório do Sínodo Extraordinário diz que também os filhos de parceiros homossexuais precisam e merecem receber cuidados pastorais.

Essa presunção de que o cristianismo é para gente bem-sucedida socialmente também se manifesta na facilidade e na rapidez com que aceitamos censuras às falhas das outras pessoas. Aquele homem solteiro "não se assentou quando teve a chance"; aquela mulher solteira "tem sido exigente demais". Os desempregados "deveriam se esforçar mais para arrumar trabalho" ou "aceitar o que aparece para eles". Espera-se, nestes ambientes, que os “estranhos” vivam à margem porque, de alguma forma, eles devem ter escolhido ser “estranhos”.

Estas pressuposições aparecem também nos julgamentos morais que fazemos até mesmo sobre os bem-sucedidos. “Aquele esnobe do terno deveria saber que é um idiota”, pensamos nós. “O fracasso dele no mais básico da humanidade só pode ser culpa dele mesmo”.

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