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Você sabia que o Muro de Berlim caiu graças ao Concílio Vaticano II e a João Paulo II?

AP Photo/Steffi Loos

George Weigel - publicado em 20/11/14

50 anos após a Lumen Gentium e 25 anos depois da revolução de 1989, podemos ver com mais clareza que o concílio teve muito a ver com o colapso comunista

A história, às vezes, revela a feliz habilidade de organizar os aniversários de modo que um lance luz sobre o outro.

Em 21 de novembro de 1964, o papa Paulo VI promulgou solenemente a constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Igreja, cujo texto começa proclamando Jesus Cristo como a "Luz das nações", ou seja, como “Lumen Gentium”.

Vinte e cinco anos depois, na noite de 9 para 10 de novembro de 1989, o Muro de Berlim veio abaixo e o projeto comunista na Europa desmoronou com ele, reduzido a escombros tal como a aberração de alvenaria que tinha dividido a Alemanha durante décadas. Cinquenta anos após a Lumen Gentium e vinte e cinco anos depois da revolução de 1989, podemos ver com mais clareza que o concílio teve muito a ver com o colapso comunista.

Mas não da maneira que os diplomatas do Vaticano imaginavam. Na euforia do pós-Concílio, pensava-se que a "abertura" do Vaticano II ajudaria a facilitar uma "convergência" entre o Oriente e o Ocidente, de tal forma que o muro, e a divisão na Europa do pós-guerra, acabaria ruindo. O que realmente aconteceu foi muito mais dramático e ilustra como a história da salvação, que opera dentro do fluxo de acontecimentos que o mundo chama de "história", pôde guiar essa mesma história em um sentido mais humano.

A Lumen Gentium descreveu a Igreja como dotada de um caráter sacramental: a Igreja é "um sinal ou instrumento de comunhão com Deus e de unidade entre todos os homens". Esse anseio de "unidade entre todos os homens" só é possível através da "comunhão com Deus". Essa unidade não pode ser criada pela modernidade ultramundana e hipersecular. Como colocou certa vez o grande teólogo conciliar Henri de Lubac, os seres humanos sem Deus só podem organizar o mundo uns contra os outros.

Mas, enquanto muitos no Ocidente entendiam o apelo do concílio ao diálogo e à abertura como um convite a modificar a crítica feita pela Igreja católica contra o comunismo, a Igreja polonesa, liderada por dois gigantes, o cardeal Stefan Wyszynski e o jovem arcebispo de Cracóvia Karol Wojtyla, entendia a Lumen Gentium, assim como a totalidade do Vaticano II, como um convite a pressionar com força em favor da liberdade religiosa e de outros direitos humanos básicos, a fim de que a Igreja pudesse ser o motor unificador e libertador que o comunismo polonês manifestamente não podia ser.

Wojtyla trouxe consigo esta convicção para Roma quando foi eleito papa em outubro de 1978. Depois, na sua primeira peregrinação pastoral à própria terra natal polonesa, João Paulo II entrelaçou habilmente alguns temas da história cristã da Polônia com o apelo do Concílio Vaticano II a uma reenergizada tentativa do catolicismo de converter o mundo; em nove dias, ele inspirou uma revolução de consciência enraizada em Cristo, a “Luz das nações”: Cristo, de quem aprendemos a verdade sobre o Pai misericordioso e a verdade sobre a nossa humanidade; Cristo, que é o verdadeiro libertador porque é, como João Paulo denominou em sua primeira encíclica, o “Redemptor Hominis”, o "Redentor do homem".

A revolução da consciência promovida por João Paulo II inflamou a estopa que vinha sendo juntada na Europa Central e Oriental ao longo de anos, e, dez anos depois, em novembro de 1989, o muro caiu, demolido pelas consciências despertadas de homens e mulheres que ousaram assumir o risco da liberdade e que se atreveram a viver na verdade.

O comunismo teria acabado colapsando por sua própria implausibilidade e incompetência. Mas não teria colapsado em 1989 sem revolução da consciência promovida por João Paulo II. E o papado de João Paulo tornou-se possível, por sua vez, graças ao Concílio Vaticano II: não pelo que o papa Bento XVI chamou de "concílio da mídia", que parecia desconstruir o catolicismo, mas pelo verdadeiro concílio, pelo concílio que chamou a Igreja a proclamar a Cristo como "Luz das nações" e a converter o mundo através de todos os instrumentos que compõem a sinfonia católica da verdade.

Assim sendo: sem o Vaticano II, não haveria a Lumen Gentium; sem a Lumen Gentium e sem o Vaticano II, não haveria João Paulo II; e sem João Paulo II, não teria havido a revolução de 1989.

O que o mundo conhece como "história" é apenas a superfície das coisas. Debaixo desta superfície, o que vai agindo é a história da salvação, a providência libertadora de Deus; muitas vezes de formas ocultas, outras vezes com mais clareza.

Dois desses momentos de clareza aconteceram há cinquenta e há vinte e cinco anos. Devemos ser capazes de reconhecer e celebrar este fato hoje.

Tags:
comunismoJoao Paulo II

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