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Família Cristã

Família Cristã - publicado em 24/12/14

Milagre da vida

A FAMÍLIA CRISTÃ acompanhou uma família na gestação do terceiro filho, no momento do parto e nos dias que se seguiram. Uma viagem ao admirável mundo novo de um ser humano que se começou a formar nove meses antes de ver a mãe, o pai e os irmãos. O milagre da vida aconteceu diante dos nossos olhos. Registámos o momento na retina. No coração. Na memória da câmara fotográfica e na eternidade da escrita.

«O meu Menino Jesus já nasceu!» O Natal já chegou à vida de Ana – a mãe, cheia de graça – e de Rafael – não o anjo, mas o pai. O bebé acaba de sair das entranhas da mãe. O milagre acontece. Ouve-se o choro de vida. O médico deita-o junto do peito da mãe. É magia. O João Maria acalma e, imediatamente, deixa de chorar. Reconhece os batimentos cardíacos da mãe e sossega. É o mundo que ele sabe de cor e do qual parece não se querer separar. Lá fora existe um outro mundo, mas nada mais interessa naquele instante. Nada é tão importante como o momento em que mãe e filho se reconhecem depois de um tempo de esperanças em que apenas se podem imaginar um ao outro. O pai acaricia com uma mão a pele fina do bebé e com a outra faz festas no rosto da mãe. O instante pertence-lhes. É só deles. Sagrado momento. Sagrada família.

Não é apenas mais um bebé que vem ao mundo. Quem o puxou para o lado de cá desta vida está emocionado. Cada parto é sempre único. E um médico também chora. Vítor Neto, obstetra do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa, confessa: «A melhor coisa do mundo é colocar o filho que acaba de nascer em cima da mãe. Não há palavras para descrever esse momento…»

Um excerto do poema O Milagre da Vida de Albert Einstein talvez complete as palavras que falham ao médico. «Há duas formas para viver a sua vida: Uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.»

Ouvir chorar o filho pela primeira vez arrebata o coração da mãe que nem sabe muito bem o que dizer. Pouco importam as palavras aqui, só o sentimento e a certeza do compromisso que se assume ali para sempre com um filho é que contam. O pai lá deixa escorregar umas palavras interrompidas pelas emoções legítimas que vieram ao de cima: «Há um sentimento de gratidão… Um agradecimento a Deus Nosso Senhor por este momento, por ele vir bem e tudo ter corrido da melhor forma… É mais um filho que Deus nos confia à nossa guarda. Apesar do sentido de responsabilidade pesar ainda mais, é um sentimento de alegria extasiante difícil de explicar… Eu que sou bastante comunicativo, este é um dos poucos momentos em que é difícil comunicar.» A comunicação não se faz só de palavras. O brilho no olhar revela tudo. Respira fundo. Precisa de retomar o fôlego para enviar SMS à família e amigos para informar que o bebé nasceu com três quilos e que mãe e filho estão bem. Mas antes disso há um telefonema urgente a fazer. As Monjas Concepcionistas Franciscanas do Mosteiro do Viso, em Viseu, amigas do casal, estavam a interceder para que tudo corresse pelo melhor.

Horas antes de o bebé nascer, o Rafael tinha nas mãos um terço e a Ana uma dezena. Ambos rezavam à Nossa Senhora do Bom Parto e do Leite. As contas do rosário que passavam pelos seus dedos foram feitas com sementes que as religiosas cultivam no jardim. «É bom saber que alguém está a rezar por nós», dizia a Ana a meio da tarde, já deitada na cama do hospital, enquanto se ouvia o bater do coração do filho através do CTG.

«Famílias cristãs não são perfeitas»

De manhã, antes de chegarem ao hospital, passaram pela igreja onde estava o Santíssimo Sacramento exposto para adoração. Entregaram-se e entregaram o filho que ainda estava no ventre Àquele que tinha dado a vida por todos. Estava uma nova vida a caminho. Antes de começar a noite, já tinha nascido o João Maria, o segundo filho do casal e o terceiro de Rafael. Esta não é uma família convencional. Não porque agora passam a ser uma família numerosa com mais uma criança lá em casa, mas por ter havido uma conversão de vida. O Rafael foi pai muito cedo. Quando foi proposto no hospital o aborto a dois adolescentes, um e outro recusaram. Porém, cada um seguiu o seu caminho. Rafael, o jovem certinho que era acólito, tinha cometido um «devaneio na juventude» mas queria mostrar que era homem para assumir os seus atos. Entretanto, a amizade com a Ana foi crescendo e nasceu um amor comprometido. Veio o primeiro filho do casal e casaram, assim por esta ordem. Amadureceram a fé, graças ao pároco e às Equipas de Nossa Senhora, que os acolheram de braços abertos. E é nessa fé que querem educar os filhos. Olhando para o passado e para o presente, dizem que nas histórias das suas vidas aconteceu o que tinha de acontecer e que «as famílias cristãs não são perfeitas».

Afirmam sentir agora uma força semelhante à da família de Nazaré, que também fugiu dos cânones da época. Quando são olhados de soslaio, tentam não se esquecer que «Deus não escolhe os mais capazes, capacita os escolhidos». Uma lema de vida que os tem acompanhado em diferentes momentos. Dias antes de o João Maria nascer, enquanto passeavam pela praia com os outros dois meninos, o Pedro e o Tomé, sentiram os olhares quase reprovadores dos que não compreendem a opção de se ter mais filhos: «Quando saio sozinha com o meu marido, as pessoas olham deliciadas para nós por estar grávida. Mas quando saímos com os nossos filhos, olham-nos com um olhar quase de pânico. Infelizmente, nota-se logo a diferença no olhar das pessoas», contava a Ana à FAMÍLIA CRISTÃ uma semana antes do nascimento do bebé.

Ser uma família numerosa é encarado por muitos como uma loucura nos tempos que correm. Para este casal católico, a loucura faz parte da identidade cristã: «Todo o cristão tem um pouco de insanidade mental. Todos os que seguiram Nosso Senhor eram provocados e tentados um pouco na sua loucura.» Estão confiantes de que, haja o que houver, «Deus cuida».

Há já algum tempo que este casal preparava a vinda de mais um filho. Mas o desemprego de um e de outro em momentos diferentes adiava a vinda de mais um ser. Quando ambos recomeçaram a trabalhar sentiram que aquele era o momento ideal. Adeptos dos métodos naturais, planearam a maternidade e paternidades responsáveis.

A gravidez não foi um mar de rosas. As dores ciáticas e uma ameaça de parto prematuro obrigaram a Ana a retirar-se do trabalho. As contrações eram frequentes e foi internada uma vez. Ficou em repouso absoluto. Numa das vezes em que Rafael se viu à nora, enquanto tentava dar conta do recado de cuidar da mulher grávida, de dois filhos ainda pequenos e das lides domésticas, disse à Ana: «Tu que não estás a fazer nada, vê lá se começas a fazer qualquer coisa.» A mulher ripostou: «Eu estou a fazer qualquer coisa; sou portadora de vida neste momento.» O Rafael calou e guardou as palavras no coração. O que conservou também na memória foram os apetites fora de horas da mulher. Ana desejou comer pastéis de nata acabados de fazer. Para os comer ainda quentinhos, Rafael foi buscá-los à noite. Só um desejo ficou por cumprir: deliciar-se com azevias de batata-doce. O Rafael encontrou azevias de feijão – mas não eram a mesma coisa para as papilas gustativas de Ana.

Um hino à vida

A vida nem sempre é pera doce. Há coisas que não acontecem como gostaríamos e outras há que estão ao nosso alcance e podemos controlar. Quando mais um filho vem a caminho, todas as contas têm de ser feitas. Ainda a gravidez da Ana ia a meio e já o casal aproveitava todas as promoções de fraldas. «Um euro não gasto é um euro ganho», dizem. As roupas do João Maria também já foram usadas pelos irmãos e pelos filhos de casais amigos. Algumas já vêm em quinta mão. Só o babygrow que vestiu no dia em que nasceu era a estrear.

A gestão doméstica não é fácil, mas este casal quer manter-se aberto à vida. Com consciência e responsabilidade. Os filhos já pediram «mais manos para fazerem uma equipa de futebol e uma mana para ser a árbitra». O Pedro e o Tomé contam que se sentem preparados para ajudar a cuidar, para já, do João Maria. E dos outros que vierem. Começaram até a dar banho um ao outro para aprenderem a lavar o bebé. A mãe está preocupada com tanto entusiasmo. «Como é que lhes vou pôr travão?»

Uma semana depois de o mano chegar a casa, os irmãos mais velhos, apesar de terem muita vontade de ajudar a mudar as fraldas e dar banho, já se aperceberam da fragilidade do João Maria e são uma espécie de assistentes do pai e da mãe. Não estão no comando das operações da higiene do bebé, mas dão a toalha ou entregam a fralda ao pai que, por norma, se encarrega dessa parte.

Durante a noite começam a habituar-se ao choro do mano quando tem fome. A dica que lhes foi transmitida pelo pai é virarem-se para o lado e ignorarem porque «amanhã é dia de escola». Nem sempre é fácil e o Tomé já chegou a tapar a cabeça com o edredom só para não ouvir os choros noturnos. Da mesma maneira como têm de se habituar ao choro do mano à noite, o João Maria também tem de se acostumar ao barulho que o Pedro e o Tomé fazem em casa quando chegam da escola. A mãe está satisfeita por trazerem sempre muitos trabalhos de casa, porque assim ficam mais tempo sossegados. Mas sossego é coisa que existe por pouco tempo numa família com crianças pequenas. Todos ao molho e fé em Deus é uma frase que se aplica a esta família que canta em uníssono um cântico de agradecimento por tudo o que tem: «Louvado sejas, Senhor, por este irmão que nos dás.» Com notas mais ou menos desafinadas, letras mais ou menos adaptadas, tal como é vida, o tom da canção é alegre e confiante. Assim se canta um hino à vida.

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