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A única resolução de ano novo que vale a pena

Jean Matthieu GAUTIER/CIRIC

Catherine Ruth Pakaluk - publicado em 31/12/14

Por que nos comportamos melhor fora do que dentro de casa com a família?

A vida nos condomínios fechados tem muitas peculiaridades e uma das que mais me chamam a atenção é que dificilmente alguém vê os seus moradores “lavando a roupa suja”. As casas não costumam deixar à vista aquilo que acontece em seu interior, o que se aplica também às posturas que se distanciam da harmonia cristã. Em geral, ninguém ouve as gritarias. Ninguém vê os gestos bruscos. Ninguém percebe as discussões com os filhos.

Isso pode parecer uma coisa boa, já que esse tipo de privacidade certamente tem a sua importância. Afinal, passamos grande parte da juventude sonhando com um lugar próprio, no qual ninguém nos diga que fomos dormir muito tarde ou que fizemos tal coisa do jeito errado.

Mas eu não tenho tanta certeza de que esse tipo de privacidade doméstica seja algo totalmente bom para nós. O fato triste é o seguinte: raramente fazemos o nosso melhor quando não há ninguém nos olhando.

Se formos honestos, reconheceremos que isto provavelmente vale também para a nossa vida familiar. Nós conseguimos suavizar os nossos piores hábitos no trabalho, na igreja, em muitos outros lugares públicos, diante de pessoas que, no fundo, mal conhecemos ou nem sequer conhecemos.

Mas e em casa? Será que achamos que a nossa família tem algum tipo de obrigação especial de testemunhar aquilo que disfarçamos diante dos outros, como a nossa preguiça, grosseria, insensibilidade? Por que a nossa família teria que encarar essa “tarefa especial”? Será que a nossa família não merece de nós uma postura ainda mais carinhosa, respeitosa e generosa do que a postura que tentamos manter diante de estranhos?

Que interessante, nessa perspectiva, é o fato de que a Igreja nos convoque a meditar sobre a Sagrada Família justamente agora, no final do ano, como se quisesse nos dizer: “A sua vida familiar é o verdadeiro critério que mede o quanto você foi bom ao longo do ano”. Esta ideia entra em contraste gritante com as resoluções egocêntricas que a cultura atual nos sugere fazer neste período: sugestões que, na maioria dos casos, pretendem pintar uma fachada mais bonita e mais fabulosa de nós mesmos.

Mas o que é que a Igreja nos propõe ao nos lembrar da Sagrada Família em meio a esse contexto de “revisão do ano velho” e “propósitos de ano novo”?

Eu gostaria de destacar duas ideias valiosas do tesouro da Igreja que têm a ver com o “endireitamento” das coisas que o mundo “entorta”.

A primeira coisa se refere ao nosso jeito de tentar mudar. As resoluções de ano novo se tornaram uma espécie de piada, porque quase ninguém consegue cumpri-las. A Igreja nos propõe algo diferente: ela diz que, sozinhos, somos impotentes para mudar a nós mesmos, mas, para Deus, tudo é possível. Isto não é um delírio pietista. É realismo sadio; é a mais pura verdade sobre nós e sobre Deus. No próximo ano, nós podemos andar sobre as águas. No próximo ano, nós podemos mover montanhas. No próximo ano, não existe nenhum propósito impossível. Não porque Deus seja um método infalível e radical de autoajuda, mas porque a única resolução que vale a pena fazer é buscar a Deus. É desta resolução, afinal, que dependem todas as outras.

A segunda ideia se baseia na primeira e nos ajuda a pensar mais criticamente sobre a natureza e a finalidade da vida privada e doméstica. Se a única resolução que vale a pena é buscar a Deus, Jesus nos disse como realizá-la: "Quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai que está no céu; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6, 6).

Podemos pensar em nosso "quarto" em dois sentidos. Primeiro, temos o nosso "quarto" entendido como o espaço privado em que habitamos: o nosso quarto de dormir ou a nossa casa como um todo. Mas também há o "quarto" do nosso castelo interior. Raoul Plus, um grande escritor jesuíta de espiritualidade, nos diz: "Isto é o recolhimento: habitar onde Deus habita. E como Ele habita dentro de nós, o recolhimento é questão de entrarmos em nós mesmos. Estamos às portas da catedral. Aliás, não existe porta: temos apenas que erguer o véu da nossa lânguida inércia".

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FamíliaNatalVirtudes
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