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Em defesa dos nossos irmãos “descartáveis”

Flickr-CC

George Weigel - publicado em 03/01/15

A nossa rendição indolente na guerra cultural é uma traição ao Evangelho e à missão evangélica da Igreja

O Dr. Jonathan Gruber, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, pela sigla em inglês), se tornou conhecido por causa de uma palestra imprudente em que sugeriu que o projeto de lei impulsionado pelo presidente Barack Obama para reformar a saúde pública nos Estados Unidos (projeto este do qual ele próprio foi um dos arquitetos intelectuais) é deliberadamente complexo para que o “povo americano estúpido” não consiga compreendê-lo.

A palestra de Gruber colocou em evidência a arrogância dos profetas do laicismo: aqueles membros esclarecidos da elite acadêmica que sabem mais do que todo o mundo e que, “por questão de dever”, darão ao coitado do povo aquilo que é melhor para ele. No entanto, muita gente que se arrepiou com essa fala do Dr. Gruber ficou ainda mais chocada com um texto que ele escreveu em 1997, submetido a escrutínio durante uma recente audiência da qual o professor do MIT participou como testemunha.

O tal texto não apresentava uma linguagem cadenciada – coisa que os economistas raramente apresentam –, mas o seu significado era bastante claro e as suas implicações eram mesmo de dar calafrios. Eis o que o Dr. Gruber escreveu, falando da sua pesquisa sobre os efeitos econômicos da aprovação do aborto imposta nos Estados Unidos por decisão da Suprema Corte em 1973:

"Em 1993, todos os [norte-americanos] menores de 18 anos já tinham nascido sob a legislação que aprovou o aborto [nos Estados Unidos]. Estimamos que houve uma poupança de 1,6 bilhão de dólares ao ano, por parte do Estado, graças à seleção positiva [dos nascimentos]".

Traduzindo com mais clareza: o aborto legalizado teria poupado 1,6 bilhão de dólares por ano aos contribuintes norte-americanos porque os bebês eliminados antes de nascer pertenceriam a classes sociais com maior probabilidade de depender de programas sociais do governo.

Traduzindo com mais clareza ainda: a eliminação de todas aquelas pobres crianças antes de nascerem foi um triunfo para o país, na opinião de Gruber.

O artigo de Gruber nos serve como um lembrete de que a eugenia é o segredinho sujo dos progressistas laicos. O que o Dr. Gruber chamou de "seleção positiva" é simplesmente um eufemismo para a eugenia: a eliminação deliberada das parcelas da população mais propensas a sofrer dificuldades para viver em nossa sociedade pós-industrial e voltada à informação. O fato de que grande parte dos progressistas laicos são apoiadores ferozes do aborto livre por serem eugenistas no fundo de seu coração não deve nos surpreender. Uma das ministras atuais do Supremo Tribunal Federal dos Estados Unidos, Ruth Bader Ginsburg, teve o seu “momento Gruber” alguns anos atrás quando admitiu, durante uma entrevista, que os ativistas que promoveram a legalização do aborto antes de 1973 o fizeram em boa medida porque achavam necessário reduzir o "crescimento de populações que não queríamos que crescessem".

Mesmo que você ainda fique surpreso com estas confissões, tenham elas sido feitas sem querer ou não, o fato é que o gene do eugenismo é inconfundível no DNA do progressismo laico do século XXI. E esse impulso eugenista é uma expressão mais que perfeita daquilo a que o papa Francisco se refere quando condena a "cultura do descarte", que trata os seres humanos mais fracos e vulneráveis, incluindo os nascituros e os idosos, como "descartáveis".

Isto nos traz, neste final do ano, de volta à questão da Igreja e da guerra cultural.

Nas raízes da guerra cultural, cujas batalhas envolvem, por exemplo, o aborto, a eutanásia e o conceito de casamento, há ideias irreconciliáveis sobre a pessoa humana. Somos pessoas dotadas de inteligência, livre arbítrio e vontade, capazes de conhecer o bem, escolhê-lo voluntariamente e encontrar a felicidade na bondade objetiva? Ou somos mera poeira das estrelas e feixes de desejos para quem a gratificação instantânea é o bem supremo?

As mentes determinadas a impor a segunda opção a todo o resto da humanidade é que constituem o verdadeiro agressor na guerra cultural do século XXI, e não a Igreja. A guerra cultural foi declarada contra nós. E, embora possamos escolher as armas com que vamos combater, não temos a opção de não lutar. A nossa rendição indolente aos agressores na guerra cultural, incluídos os eugenistas, é uma traição ao Evangelho e uma traição à missão evangélica da Igreja.

É uma traição porque nosso Senhor nos ensinou que cuidar dos menores dos seus irmãos é cuidar dele próprio. Os menores dentre nós são hoje descritos – e tratados – como descartáveis. Defender a sua dignidade humana é um imperativo evangélico.

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