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Uma nova Igreja tradicionalista: é hora de promover o equilíbrio entre o passado e o presente

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Pe. Charles Pope - publicado em 06/01/15

Algumas coisas, talvez, tenham tido que ir "para o sótão" durante um tempo para poderem ser depois resgatadas e reapreciadas. Quaisquer que tenham sido as razões para a iconoclastia, principalmente na década de 1960, eu sinto que agora estamos recuperando um pouco de equilíbrio: um equilíbrio que não rejeita o que é novo, mas que ainda aprecia o que é antigo; um equilíbrio que acena para uma hermenêutica da continuidade, da qual fala o papa Francisco, em vez de optar pela ruptura e pela descontinuidade radical do passado; um equilíbrio sobre o qual Jesus nos diz: “Todo escriba que se tornou discípulo do reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52).

Muita gente olha para trás e se admira com a grande ruptura e com o tsunami cultural que estamos sofrendo no Ocidente. Gostaríamos de saber como e por que tamanha perda de tradições. Há, é claro, inúmeras razões, mas eu gostaria de destacar apenas uma: o esquecimento.

As tradições são estabelecidas e mantidas por algum motivo. Fundamentalmente, elas simplificam a nossa vida ao nos darem estrutura, limites e expectativas. As pessoas conseguem navegar mais facilmente pelos mares da tradição. No entanto, um sinal de que a tradição representa um perigo é quando as pessoas se esquecem do seu objetivo; quando as pessoas se esquecem da origem da tradição e do porquê da sua observância; quando as pessoas se esquecem do que ela significa ou simboliza.

Imagine o que aconteceria se eu entrasse em uma máquina do tempo e voltasse para 1940, nesta mesma paróquia, e fizesse às pessoas algumas perguntas: Por que as mulheres usam véu e os homens não cobrem a cabeça? Por que as pessoas se ajoelham para receber a comunhão? Por que a missa é rezada em latim? Por que o sacerdote fica voltado para o altar? Por que todas essas coisas são feitas desse jeito? Eu suspeito que ouviria respostas como "Eu não sei, mas é assim que nós fazemos. Por que você não pergunta ao padre?".

Eu me pergunto se a primeira fase da perda de uma tradição é esse momento em que ela não faz mais sentido consciente para as pessoas; quando não é mais claro para as pessoas o porquê de fazermos o que fazemos; quando tudo o que podemos dizer sobre ela é simplesmente que "é assim que nós fazemos".

Quando o assunto são as tradições, corremos o risco, em certo momento, de que elas se petrifiquem, se mecanizem, virem cinzas de uma fogueira que já se apagou. Se não mantivermos acesos os dons do amor de Deus (cf. 2 Tim 1, 6), a nossa apreciação desses dons acaba esfriando e a sua beleza acaba se esfumaçando. Assim, quando alguém nos pergunta “O que é isso?”, devolvemos a pergunta indagando “Isso o quê, essa coisa velha?”. E, ao recebermos em retorno a sugestão de “jogar isso fora”, damos um aceno superficial e concordamos: “Boa ideia, vamos nos livrar disso”.

Todo o processo começa com o esquecimento. O esquecimento leva a uma falta de compreensão, que, por sua vez, abre o caminho para a falta de apreço. Tudo isso culmina num desdém pelas coisas antigas e pelas agora apagadas tradições, muito embora elas já tenham sustentado e emoldurado a nossa vida.

É claro que algumas coisas precisam ser deixadas de lado. Talvez haja um tempo e um lugar para “aposentar” certas coisas durante certo tempo, a fim de redescobri-las mais adiante. Mas o que temos vivido nos últimos sessenta anos tem ido além desse processo natural: tem sido uma ruptura, uma descontinuidade radical, que abalou muitos dos nossos alicerces, em especial a Igreja e a família.

Por isso, fazemos muito bem ao “recordar” muitas das nossas tradições. A palavra “recordar” sugere um processo de “recolocar no coração”, fazendo com que aquilo que já foi precioso volte a fazer parte do corpo, da Igreja, da família. Recordar muitas das nossas tradições perdidas, inclusive quando criamos novas tradições, é uma forma importante de assegurar a continuidade da nossa herança e o nosso vínculo com o corpo todo.

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Tags:
DoutrinaLiturgia
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