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Uma tarde na mesquita

stratman2 CC
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A diversidade religiosa é um desafio, não uma ameaça

Passei algumas horas em uma mesquita, de pés descalços, do jeito que Alá mandou. Foi na mesquita que provavelmente é a maior da minha cidade natal, Barcelona: ela ocupa os andares inferiores de um edifício inusitado, dentro do Centro Cultural Islâmico Catalão. Tecnicamente, é um oratório, porque as mesquitas são edifícios separados e específicos.

Enquanto eu bebia chá com hortelã e comia deliciosos doces árabes recém-assados, perguntava um pouco e ouvia muito. Eles falavam comigo em catalão e em espanhol e eu os ouvia falar em árabe entre si.

Fiquei surpresa ao ver que eles acolhem cristãos sírios refugiados. Crianças cristãs estão tendo aulas de árabe dentro de um centro islâmico. Mulheres paquistanesas, muçulmanas, também levam os seus filhos até lá para receberem reforço escolar. O diretor do centro veio de Argel e se chama Salim. Ele é um homem simpático e acolhedor, que quer apenas ser compreendido.

Conheci muçulmanos da minha própria cidade e, mais importante do que isso, comecei e espero dar continuidade a um diálogo com eles. O islã muitas vezes nos assusta, mas… o que é, de verdade, o islã, em si e por si? Mais ainda: nós não dialogamos com o islã propriamente dito, e sim com pessoas muçulmanas, começando por aquelas que vivem bem perto de nós.

Ouvi o chamado para a oração e vi algumas telas modernas que especificavam os horários exatos dos cinco momentos diários de oração muçulmana, conforme a posição do sol. Ao longo da minha vida, eu tive o privilégio de viver ao lado de uma grande variedade de pessoas, incluindo pessoas de diferentes religiões. Em alguns casos, nos tornamos amigos por causa da empatia compartilhada, ou por causa de interesses e situações semelhantes, ou, às vezes, simplesmente porque ficávamos fascinados com as nossas próprias diferenças.

É difícil, para nós, manter uma conexão mental com o islã; não é uma conexão automática, nem é uma coisa fácil de digerir. O papa afirmou que o alcorão é um livro de paz. Com paz ou sem paz, o caso é que muita gente acha que o islã é um problema.

Salim citou o alcorão com bastante frequência durante o tempo que eu passei na mesquita. E ele sorria. Eu realmente não tenho ideia de quantas vezes ele mencionou a família dele ou a família em geral, mas foram muitas.

Ele explicou também que, em algumas cidades muçulmanas, quando a morte se aproxima e leva alguém embora, a família da pessoa falecida não precisa se preocupar com nenhum dos procedimentos práticos; os vizinhos é que cuidam de tudo durante os dias seguintes. Eu pensei automaticamente nas nossas grandes cidades, nas nossas metrópoles em que tal solidariedade é quase impensável. Quando os nossos próprios vizinhos morrem, é comum que nós nem sequer nos demos conta.

A minha tarde na mesquita não roubou nem um pouco da minha identidade católica. Pelo contrário: essa experiência me tornou mais consciente de quem eu sou e da imensa diversidade em que todos nós estamos imersos. Eu percebi que a diversidade religiosa é um desafio e não uma ameaça.

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