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Sobreviventes relatam matanças e execuções do Boko Haram

<p>Sobrevivente de ataques do Boko Haram observa um lago no Chade</p>

AFP - publicado em 28/01/15

Musa Zira mostra o impacto da bala disparada contra sua coxa na noite em que os islamitas radicais do grupo Boko Haram exterminaram 12 pessoas de seu povoado, no nordeste da Nigéria, no início de janeiro.

Gravemente ferido, se fez passar por morto antes de fugir para o vizinho Chade, para o acampamento de refugiados de Baga Sola, na outra margem do lago que separa os países.

"O Boko Haram chegou às quatro horas da manhã. Eles entraram de casa em casa, procurando pelos homens. Mandaram que saíssemos e os seguissem dizendo que depois explicariam por quê", conta Zira.

Os islamistas levaram 14 homens, um de cada casa, para os arredores da cidade de Baga.

"Deixaram que um velho fosse embora. Depois caminhamos até um campo e nos mandaram deitar com a cara virada para o chão".

"Depois de disparar uma vez para o ar, começaram a disparar contra a gente, à queima-roupa", prosseguiu.

Naquele momento, Zira achou que havia chegado ao fim. "Mas depois percebi que a bala não tinha atingido a cabeça, e sim a coxa. Ao meu redor, todos estavam mortos".

Escondido entre cadáveres

Para que o Boko Haram não o descobrisse vivo e tentasse matá-lo de novo, Zira ficou entre os corpos de seus vizinhos por horas, e depois se escondeu no mato alto, antes de conseguir carona com um motorista que o ajudou a fugir.

O pastor Yacubu Musa, de 43 anos, é um dos poucos cristãos sobreviventes do ataque do Boko Haram contra Baga. Quando os islamitas chegaram na noite de 3 de janeiro, ele dormia em sua igreja.

"Começaram a disparar contra todos, sem distinção. Homens, mulheres, crianças, velhos", recorda.

"Pareciam milhares, e havia corpos por todas as partes nas ruas", contou ainda, acrescentando estar admirado de como conseguiu fugir ao massacre.

Dois dias mais tarde, Yacubu Musa tentou voltar para recolher alguns pertences. Viu toda a destruição e corpos flutuando nas águas do lago. "O cheiro era tão insuportável que já dava para sentir de muito longe".

Da cidade, só restaram as cinzas. "Queimaram tudo. Nossas casas, nossas lojas, nossos veículos".

Um bebê chamado Idris Deby

Desde o início de janeiro, mais de 14.000 pessoas atravessaram a fronteira para fugir dos sangrentos ataques do Boko Haram em torno de Baga, segundo Mamadu Dian Balde, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) no Chade.

"Ouvimos histórias muito dolorosas. Outro dia, um homem nos procurou e não conseguia parar de chorar. O Boko Haram jogou uma granada em sua casa e sua mulheres e seus três filhos morreram", conta Idris Dezeh, da Comissão Nacional de Acolhimento de Refugiados.

Poucos têm a sorte de chegar a um campo de refugiados com sua família toda.

Sentada diante de uma barraca, Aisha Aladji Garb dá de mamar a um recém-nascido. Faz duas semanas que o filho nasceu, enquanto ela fugia do inferno.

Ao cruzar a fronteira com o Chade, encontrou uma patrulha militar local. "Eles cuidaram de mim, me botaram no caminhão e me levaram diretamente para o acampamento de refugiados, onde recebi ajuda".

"Graças a eles, meu bebê está vivo", afirma ainda, com um grande sorriso, explicando que o filho se chama Idris Deby, o nome do presidente do Chade.

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