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São Pedro, João Paulo II, Bento XVI e Francisco: papas “decepcionantemente humanos”

© Antoine Mekary / Aleteia

Aleteia Brasil - publicado em 22/02/15

Quando o papa “falha” perante as expectativas do mundo

Diversas vezes, nos últimos meses, o papa Francisco defendeu explicitamente a doutrina da Igreja que rejeita a contracepção artificial. Muitos liberais se disseram “decepcionados”, porque esperavam que Francisco fosse mais “progressista”.

Também recentemente, o mesmo papa Francisco defendeu o controle natural e responsável da natalidade, afirmando: “Alguns acham que, para ser bons católicos, precisam ser como coelhos. Não! Paternidade responsável!”. Neste caso, foram os conservadores que se escandalizaram, porque esperavam que Francisco fosse mais “tradicionalista”.

Francisco não falou absolutamente nada que já não fosse bem claro na doutrina da Igreja.

Afinal, para a Igreja, o planejamento familiar pode e deve ser usado para manter o tamanho da família dentro das reais possibilidades dos pais de oferecerem boas condições de vida e formação aos filhos; e esse planejamento deve se basear em métodos naturais e não artificiais de controle da natalidade, para manter o casamento e a intimidade sexual dos cônjuges sempre abertos à vida, sem dissociar o prazer da capacidade pessoal e conjugal de autodomínio e sem antepor a paixão ao amor maduro, integral e sublime, capaz de transcender a corporeidade.

Se os católicos (e os não católicos) depositam as suas expectativas “ideológicas” no papa, eles o fazem por sua própria conta e risco, porque não é para satisfazer preferências humanas que um papa é papa.

De qualquer forma, é compreensível que o tom informal usado por Francisco em sua declaração sobre os “coelhos” tenha magoado os católicos que têm famílias numerosas.

Acontece que este fato pode ser uma excelente oportunidade de amadurecimento para os católicos!

Francisco mesmo já declarou que se sente desconfortável com a visão idealizada que muita gente criou a respeito dele. O papa, disse o próprio, não é uma espécie de super-homem ou de astro pop. “O papa é um homem que ri, que chora, que dorme serenamente e que tem amigos, como todo mundo. Uma pessoa normal”.

E, como toda pessoa normal, o papa é naturalmente sujeito a cometer deslizes tipicamente humanos na sua forma de ser e de comunicar-se, o que em nada afeta o conteúdo e a verdade do seu magistério que, para os crentes católicos, é iluminado pelo Espírito Santo (se é que os católicos que se dizem crentes acreditam mesmo naquilo que dizem).

Não se trata de novidade alguma. O primeiro papa, assim como os demais apóstolos escolhidos por Jesus, não era um homem particularmente “impressionante” aos olhos do mundo. Pedro era um pescador rude, grosso, ignorante, impulsivo, inconstante, com arroubos de medo e de covardia. Nada disso, porém, era um obstáculo para a graça de Deus, que já tinha chamado um Moisés gago e conflituoso, um Jonas assustadiço, um Davi mulherengo e mentiroso, um Noé que se embriagava e tantas outras pessoas que, por si mesmas, não tinham grandes condições de guiar um povo e, muito menos, de “salvar o mundo”. É que não são esses eleitos que guiam o povo de Deus. É o Espírito Santo através deles. Não são esses eleitos que salvam o mundo. É Deus, e Deus parece escolher reiteradamente homens e mulheres normais, cheios de virtudes e defeitos, para agir através deles e apesar deles.

João Paulo II, em seus últimos anos de pontificado, era tratado pela mídia como um idoso fraco, inchado, curvado, que babava e sofria para balbuciar as palavras. E tudo isso era verdade. Mas era também uma maneira de dizer: “Eu não sou um super-homem. A minha imagem não é planejada por uma equipe de marqueteiros. Eu sou apenas um instrumento frágil da graça de Deus”.

Bento XVI teve a coragem de se expor a um bombardeio de críticas quando reconheceu a sua fragilidade física diante das exigências de guiar o rebanho católico e renunciou ao papado. Para quem tivesse a boa vontade e a humanidade de entender os seus motivos sem quatro pedras na mão, porém, ele transmitiu a mesma mensagem de João Batista: “É necessário que Ele cresça e eu diminua”.

No fim das contas, estes seres humanos são tão expostos quanto quaisquer outros às fraquezas próprias da nossa condição e deixam ainda mais claro que é Deus quem age através deles. Eles encarnam, na sua fragilidade, uma prova de fé para os que se dizem crentes: “Creio realmente que, por trás deste homem, existe um desígnio divino que a razão não explica?”.

A fragilidade desses escolhidos por Deus para missões muito maiores do que eles mesmos torna ainda mais inspiradora a sua fidelidade a Deus apesar de tudo. O inconstante Pedro se tornou forte a ponto de sofrer o martírio na cruz. O atlético João Paulo II aceitou perseverante a humilhação de definhar ao vivo, diante de um mundo incapaz de aceitar o envelhecimento, a doença e a dependência dos cuidados do próximo. O poderoso Bento XVI não fraquejou ao ceder o trono a outro pontífice, perante um mundo obcecado por poder e ego, status e vaidade. O singelo Francisco não deixa a sua simplicidade se amoldar aos julgamentos mundanos de uma sociedade que não sabe lidar com a autenticidade e com a própria condição de humanidade imperfeita.

São oportunidades adicionais para percebermos que a genuína proposta cristã não é apenas mais espiritual e transcendente que as ofertas do mundo. A genuína proposta cristã é mais humana, também. Ou não é genuína.

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Bento XVIIdeologiaJoao Paulo IIPapaPapa FranciscoSantos
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