Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Quarta-feira 27 Outubro |
Aleteia logo
home iconReligião
line break icon

Por que temos tanto medo dos filmes de terror?

O Exorcista - reprodução

Padre Paulo Ricardo - publicado em 03/03/15

O risco de pecar, perder a própria alma e ser condenado ao fogo do inferno é um drama muito mais terrível – e real – que qualquer conto de terror

Os "filmes de terror" dividem opiniões. Muitos não gostam, porque, depois que assistem, não conseguem dormir à noite. Alguns, impulsionados por uma curiosidade malsã, lançam-se de cabeça nas tramas cinematográficas, chegando a entrar no abismo sem fundo do ocultismo. Entre os dois extremos, há quem simplesmente assista às histórias, prevenido por um sadio ceticismo – não dando crédito a qualquer coisa que veja – e por uma dose de "senso comum" – sem preconceitos ou dogmas materialistas. Afinal, como escrevia Chesterton, "quando se trata de testemunho humano, há uma sufocante enxurrada de testemunhos em favor do sobrenatural" [1].

De fato, é inegável que os "filmes de terror" ajudam a colocar o homem diante de realidades espirituais. Gostos à parte, algumas produções do gênero têm o costume de abordar temas bastante caros à doutrina católica. O diretor do clássico "O Exorcista" ( The Exorcist, 1973) – única película de terror a ser indicada ao Oscar de melhor filme –, por exemplo, confessa ter feito o filme não para ser uma história "de terror", mas para retratar "o mistério da fé". Mesmo sendo agnóstico, William Friedkin explica que, na trama, "o objetivo do demônio não é a menina, mas o sacerdote que está perdendo a fé". O filme fez tanto sucesso nos Estados Unidos, que chegou mesmo a suscitar vocações para a vida sacerdotal.

Mais recentemente, "O Ritual" ( The Rite, 2011), estrelado por Anthony Hopkins, também está baseado na "crise vocacional" de um diácono que, depois de lidar com o ministério de um padre exorcista, acaba se tornando um católico devoto e fiel. A sua emocionante profissão de fé ao final da história ilustra como o contato com o mal pode conduzir as almas a um encontro com Cristo. Não se trata de dar primazia ou "importância excessiva" ao inimigo de Deus. É que, em um mundo materialista como o nosso, em que as realidades sobrenaturais são encaradas com desdém ou desprezo, tomar consciência da força efetiva do mundo espiritual – mesmo que em sua dimensão maligna – pode ser um primeiro passo para se aproximar de Nosso Senhor.

Algumas coisas, no entanto, ainda estão fora do lugar. O demônio existe, é verdade. As possessões, os rituais de exorcismo, o poder da água benta também são reais. Ao lado disso, porém, existem coisas como "tentação", "pecado" e "inferno" – e essas realidades não só estão vivas e ativas no mundo, como são muito mais graves e têm efeitos muito mais devastadores do que qualquer possessão diabólica. O problema é que ninguém fala sobre elas, nem nos cinemas, nem nos livros da moda e, tragicamente, nem nos púlpitos de nossas igrejas.

Alegações (fúteis) para não falar sobre o "pecado" ou o "inferno" são muitas. Alguns padres e teólogos, desejosos de agradarem o mundo, dizem que não se pode pregar certos conteúdos porque "causam medo" nas pessoas. A julgar pelo parecer deles, seria preciso censurar, talvez, o próprio Senhor, cujos discursos estão cheios dessas palavras "amedrontadoras": só nos Evangelhos Sinóticos, os termos "pecado", "inferno", "castigo eterno" e "fogo eterno" constam mais de 15 vezes; "Satanás" e "demônio", então, somam 42 referências. "Por isso hoje, quando se põe em dúvida a realidade demoníaca, é necessário fazer referência (…) à fé constante e universal da Igreja e à sua maior fonte: o ensinamento de Cristo", diz o documento Fé Cristiana y Demonología, da Congregação para a Doutrina da Fé. "Com efeito, a existência do mundo demoníaco se revela como um dado dogmático na doutrina do Evangelho e no coração da fé vivida."

Não é que todos os padres que deixam de falar sobre esses assuntos sejam descrentes, hereges ou apóstatas. Não se trata disso, absolutamente. Uma fé que se hiberna e não é alimentada por atos concretos, porém, que fim terá? Como crê em Deus, por exemplo, quem vive como se Ele não existisse, sem ter uma vida de oração e de intimidade com Ele? Como crê na presença real de Cristo na Eucaristia quem não se ajoelha diante do Santíssimo ou não é capaz de fazer uma simples genuflexão quando passa em frente a um sacrário? Do mesmo modo, como uma sociedade pode odiar o pecado, combater o demônio e evitar o inferno, se a sua existência é ignorada no dia a dia das pessoas e se quem deveria falar sobre eles está sempre evitando o assunto?

É verdade que a pregação sobre a morte, o juízo e o inferno causa temor nas pessoas, o que não é uma coisa necessariamente ruim. Santo Tomás de Aquino, quando fala sobre o temor, inclui-o na seção prima secundae da Suma Teológica, no tratado sobre as paixões (cf. I-II, q. 41-44). O medo é, pois, uma paixão – um "sentimento", na linguagem vulgar. Isso quer dizer que, em si, é uma realidade neutra, nem boa, nem má. Não é verdade, portanto, que as pessoas não devam sentir medo de nada. Se Deus colocou o temor no homem, isso tem algum sentido, alguma finalidade.

  • 1
  • 2
Tags:
EntretenimentoPecado
Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • Aleteia é publicada diariamente em sete idiomas: inglês, francês,  italiano, espanhol, português, polonês e esloveno
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Top 10
1
SANDRA SABATTINI
Francisco Vêneto
Primeira noiva em processo de canonização na história foi beatifi...
2
EUCHARIST
Reportagem local
O que fazer se a hóstia cair no chão durante a Missa?
3
Transplante de rins
Francisco Vêneto
Transplante de rim de porco em humanos: a Igreja tem alguma objeç...
4
Pe. Jonas Magno de Oliveira e sua mãe
Francisco Vêneto
Mãe de padre brasileiro se torna freira na mesma família religios...
5
Papa Francisco
Francisco Vêneto
Papa Francisco: “Tenho medo dos diabos educados”
6
As irmãs biológicas que se tornaram freiras no instituto Iesu Communio
Francisco Vêneto
As cinco irmãs biológicas que se tornaram freiras em apenas 2 ano...
7
Don José María Aicua Marín
Dolors Massot
Padre morre de ataque cardíaco enquanto celebrava funeral
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia