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Além do Império do Comendador: o “herói humano” e “forte” da novela que atrai milhões de brasileiros

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E os mais de 100 livros de um escritor que insiste em modelos bem diferentes de "heroísmo" e "força"

Faz várias décadas que a “novela das oito“, atualmente das nove, é o programa mais visto da televisão brasileira, superando o futebol, os humorísticos e os telejornais. Mesmo enfrentando queda na audiência ao longo dos últimos anos, as telenovelas que a Rede Globo veicula às 21h continuam muito à frente de qualquer outra atração televisiva no Brasil em termos de quantidade de telespectadores que assistem ao programa.

A atual produção, “Império“, tem um protagonista masculino que, em várias reportagens e artigos publicados por jornais e revistas não necessariamente “de entretenimento”, foi apontado como “um homem extremamente interessante”, “um protagonista forte”, “um herói humano”. O Comendador José Alfredo é um migrante nordestino que fez fortuna no Rio de Janeiro depois de seduzir e engravidar a esposa do próprio irmão, fugir deixando-a para trás, envolver-se com exploração clandestina de diamantes em Roraima, matar um homem, contrabandear as pedras para a Suíça, casar-se com uma requintada e falida jovem recém-separada e criar o “Império” de venda de joias que dá título à trama. Passados os anos, o “homem extremamente interessante” sustenta um casamento de fachada, mantém um relacionamento frio e tumultuado com os três filhos mimados e imaturos que teve com a esposa, renega a filha que teve com a cunhada e vive um romance erotizado com uma “ninfeta” duas ou três décadas mais jovem que ele, a quem o “protagonista forte” banca financeiramente desde que se envolveu com ela, quando a garota ainda era menor de idade e ele já era “um herói humano”.

Os chamados anti-heróis estão na moda no cinema e na televisão, representados por figuras como Christian Grey, que arrecada recordes de bilheteria ao explorar suas fantasias sexuais sádicas com uma jovem virgem no filme “Cinquenta Tons de Cinza”, e Walter White, o professor que abraça uma vida fora da lei para sustentar a família, na série “Breaking Bad”. Ambos os personagens, assim como o Comendador José Alfredo, contam com suas respectivas legiões de fãs e defensores, que ratificam o seu status de “heróis humanos”, “protagonistas fortes” e “homens extremamente interessantes” apesar dos seus atos moralmente condenáveis ou, no mínimo, inclusive em culturas relativistas como a nossa, bastante questionáveis.

Mas ainda existem outros modelos de heróis

Na contramão dessa preferência do público por personagens que supostamente pretendem “superar” o modelo do “mocinho chato, honesto e bobo”, Afonso de Santa Cruz lançou mais de 115 livros que narram a vida de santos e beatos católicos. Trata-se de um prolífico autor que, entretanto, é amplamente desconhecido pelos próprios católicos.

Seu primeiro título foi escrito quando Afonso tinha 18 anos de idade e era noviço da Companhia de Jesus. Nascido Afonso Gessinger, ele usa o pseudônimo Afonso de Santa Cruz em homenagem à sua cidade gaúcha natal, Santa Cruz do Sul. O sacerdote jesuíta foi ordenado em 1956 e, depois de passar uma temporada de estudos de espiritualidade na Alemanha e na Itália, trabalhou durante 40 anos em Curitiba, como reitor da Igreja do Rosário e professor no Colégio Medianeira.

Os “heróis humanos” que o escritor apresenta em seus livros chamam a atenção por manifestarem os efeitos da ação de Deus no meio da rotina e do cotidiano, mas também protagonizam uma vasta quantidade de episódios extraordinários, capazes de “rivalizar” com os capítulos mais eletrizantes das telenovelas, séries e filmes.

É o caso, por exemplo, do beato Miguel Pro, sacerdote mexicano que protagoniza uma história cheia de adrenalina ao desafiar governo e polícia durante a cruel perseguição “cristera” que o México sofreu nas primeiras décadas do século XX. As tensas aventuras do padre, cheias de lances cinematográficos, são narradas no livro “Despistou Mil Secretas“.

Já “A Santa Excomungada” relata a trajetória de Mary Ward, cuja grandeza espiritual se manifestava na inabalável fé que mantinha no papa como representante de Jesus na terra. Mary Ward, porém, era inocente demais diante de certos membros corruptos da Cúria Pontifícia, de cuja falsidade ela nem sequer desconfiava. E é exatamente na fragilidade dos seus membros que brilha a divindade da Igreja nesta obra de Afonso de Santa Cruz. Mary viveu numa época muito difícil, em que a influência do demônio dentro da hierarquia eclesiástica era intensa. Não faltavam, porém, santos de consciência limpa, que tinham a valentia de defender as vítimas das perseguições promovidas pela parcela mais obscura da Igreja institucional.

Em “A Gema do Paraíso“, Afonso de Santa Cruz conta a história de Gemma Galgani, jovem italiana que sofreu desde bem cedo a experiência da doença e da morte na família, perdendo mãe, irmão e pai antes dos 19 anos. Acolhida por uma piedosa senhora, é na casa dela que, toda quinta e sexta-feira, recolhida em oração, Gemma recebe os estigmas de Cristo, além de ser provada, frequentemente, por aparições demoníacas, de cuja autenticidade o seu diretor espiritual dá testemunho.

O Colecionador de Muletas” apresenta o perfil do religioso canadense Alfredo Bessette, que foi o instrumento humano de incontáveis milagres de cura de doenças tanto da alma quanto do corpo. Quando morreu, em 1937, aos 91 anos de idade, mais de um milhão e meio de fiéis visitaram o Santuário de São José, onde o corpo do Irmão André (seu nome religioso) estava sendo velado.

E há ainda “A Guerrilheira de Deus“, “O Gigante do Oriente” e mais de uma centena de outras trajetórias de “heróis e heroínas humanos” cujos valores contrastam fortemente com os do Comendador José Alfredo, com os de Christian Grey e com os de Walter White.

Para o público interessado em “superar a mesmice” dos atuais modelos de “heroísmo” da ideologia liberal, uma busca em sites de livros usados e sebos online pode apresentar um império de alternativas construtivas. Dá mais trabalho que ligar a televisão, é verdade. Mas vale o esforço.