Aleteia logoAleteia logoAleteia
Segunda-feira 23 Maio |
São Desidério
Aleteia logo
Religião
separateurCreated with Sketch.

«Há um genocídio que está a ser silenciado»

Líbano: criança refugiada

AIS Portugal

Ricardo Perna - Agência Ecclesia - publicado em 10/04/15

No caso do Iraque, e dos deslocados internos, a grande preocupação da Igreja cristã é encontrar um espaço que permita às famílias saírem dos contentores em que estão e passar para uma casa, um quarto, onde as famílias possam estar com a sua privacidade, ao contrário do que acontece agora. Apostar fortemente na educação das crianças que estão nos campos, pois a sua educação foi interrompida, assim como a de jovens que conheci e que estavam a terminas as suas licenciaturas. É preciso preparar estes jovens e crianças para que elas possam ajudar a desenvolver o país daqui a uns anos.

Conseguirão os cristãos no Iraque voltar a suas casas?

Pode ser necessário encontrar um novo espaço, porque os cristãos estavam predominantemente na planície de Nínive, onde está Mossul, Qaraqosh, mas neste momento há muitos cristãos na zona Norte, no Curdistão, em Ankawa. Há esta ideia e disponibilidade da Igreja no sentido de encontrar novas regiões e novos espaços onde os cristãos se possam estabelecer. O objetivo da Igreja é que o Cristianismo não desapareça do Médio Oriente.

E a zona onde os yazidis estão é de convivência pacífica?

É muito tranquila a relação. Eu estive com várias famílias yazidis que me disseram que, de geração em geração, vai passando o ensinamento que diz que "sempre que tiveres um problema dirige-te à igreja, que a Igreja ajuda-te, os cristãos ajudam-te", e o que eles fizeram agora foi ficar junto dos cristãos. Conheci um padre no Norte que estava a ajudar 55 famílias a sobreviver, que são famílias que sofreram muito com as perseguições do ISIS.

Ouvimos muito falar de um conflito com cariz religioso. Mas o facto de haver também tantos muçulmanos a serem perseguidos e expulsos das suas terras dá a entender que isto pode ser mais uma questão política encoberta por motivos religiosos?

Neste momento há grandes interesses económicos no Médio Oriente. Mesmo o ISIS, que se afirma como um estado religioso, eu tenho dúvidas que eles tenham alguma coisa a ver com religião, segundo o que ouvi no terreno. Eles usam a religião para justificarem determinadas posições, mas o que está em causa são questões económicas e há um conflito pela tomada de posições chave de forma a ficarem com as riquezas deste país.

Mas é uma conquista por razões religiosas, ou que procura dominar zonas estratégias economicamente?

São zonas economicamente vantajosas, muito férteis, muito produtivas. Depois têm esta ideia por trás de fazer esta limpeza étnica, porque todas as pessoas que não correspondem aos padrões que eles acham que são os melhores estão em perigo. Há um genocídio que está a ser silenciado na Europa que não é apenas de cristãos, mas sim de todas as minorias, pois eu falei com muçulmanos xiitas que neste momento também estão em risco porque não fazem parte dos sunitas e estão em risco.

A solução para uma situação destas passa por uma intervenção militar?

Todas as pessoas com quem falei no Líbano e no Iraque diziam que a solução militar não irá resultar, e que apenas uma solução política pode resolver o problema. A Europa tem de parar de fazer comércio de armas, de enviar jovens para estes países, e sentar as várias partes para encontrar uma solução política para este conflito.

Mas existirá a mínima disponibilidade do ISIS em se sentar a uma mesa para conversar?

Não sabemos. Há muitos grupos no Iraque e na Síria a combater. O que as pessoas nos relatam é que as pessoas do Estado Islâmico não são pessoas de confiança, não se pode chegar a um acordo porque o que é agora válido daqui a um minuto não é. Mas é preciso encontrar uma solução política para todos. Em Tikrit temos visto que a solução militar implica perder vidas civis, e se for assim a solução, muitos mais civis irão morrer, e já basta todos os mortos.

Que testemunhos ouviu?

Ouvíamos sobretudo relatos da fuga em agosto passado. Foram testemunhos impressionantes de pessoas que fugiram desesperados. Nos deslocados de Mossul havia muita mágoa porque quem os roubou e quem os obrigou a deixar tudo foram os vizinhos com quem eles vivam e conviviam há 30 ou 40 anos. Havia uma mágoa muito grande por terem sido os vizinhos e amigos, que partilharam alegrias e tristezas ao longo de uma vida, a expulsá-los de lá. Esses foram os testemunhos mais dolorosos que ouvi.

A comunidade cristã é uma comunidade bem preparada, com estudos ao nível superior, com negócios, com vidas bem organizadas, e de repente perderam tudo por causa deste Estado Islâmico que, de um dia para o outro, chegou e diz que não pode haver ninguém para lá da sua religião. Pessoas muito sofridas com a vida, mas também dizendo que, passados estes oito meses, já tinham perdoado a quem lhes tinha feito isto, que sabiam que Deus não os abandonava, que Deus esteve com eles quando fugiram de Qaraqosh depois dos peshmerga terem abandonado as suas posições. Muitos cristãos fugiram com seus pertences em carros, mas depois foram obrigados a deixá-los nos checkpoints, pois os peshmerga receavam que pudessem ser membros do ISIS, e o pouco que levavam deixaram-no ali. Milhares de pessoas sem água nem comida a fazer 60 kms a pé, que chegaram aos locais onde estão hoje no limite da sua condição humana. Mas todas dizem que Deus as acompanhou, as salvou e as conduziu até este lugar em que estão hoje. Dizem que Deus dá o que precisamos, e que não precisam mais do que isso.

Essa fé pode ser um pilar importante na construção de um novo Iraque cristão no Curdistão?

As várias pessoas com quem falei diziam que, se os cristãos desaparecerem do Médio Oriente, esta zona deixará de ser o que sempre conhecemos. Os cristãos habitam-na há 2 mil anos, estiveram presentes e são uma comunidade muito importante para o desenvolvimento da região, pois têm acesso, tantos as mulheres como os homens, à educação, a grande maioria tem cursos superiores e pode ajudar no desenvolvimento do país, sabem perdoar e querem viver em país. São valores que fazem falta ao Médio Oriente, e é impossível pensar, e a comunidade internacional tem esse papel, que os cristãos irão desaparecer dali.

Têm chegado muitos relatos de destruição de património da Humanidade, nomeadamente cristão. Pôde confirmar esses relatos no terreno, assim como as suspeitas de vendas no mercado negro?

Houve igrejas e conventos que confirmámos que foram destruídos. Mas outros não se sabe bem. Sabemos que as cruzes foram retiradas, os cemitérios destruídos mas os edifícios nem sempre o são. São usados como prisões, quarteis de apoio às operações militares, etc. Depois há património mais pequeno, como livros e documentos que vêm desde o tempo de Jesus Cristo e que chegaram até hoje e que, felizmente, muito foi retirado a tempo pelos religiosos que lá estavam e que estão seguros. O contacto com aquela zona é muito complicado, pelo que na verdade não se sabe o que aconteceu a estas relíquias.

Muito desse património pode estar a ser usado para financiar o ISIS?

Sim, essa é uma das formas de financiamento. Quando o Estado Islâmico chegou a Mossul, todo o dinheiro que estava nos bancos ficou para ele, e havia muito dinheiro. Mas neste momento diz-se que este financiamento está a acabar, e por isso há muitos sequestros, muita venda de mulheres, crianças, como forma de angariar dinheiro para manter estas operações.

Fala-se que estas vendas de artigos de valor incalculável estão a acontecer, e alguém está a ficar com estes objetos e a beneficiar com estas compras.

  • 1
  • 2
  • 3
Tags:
Estado IslâmicoMundoRefugiados
Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • Aleteia é publicada diariamente em sete idiomas: inglês, francês,  italiano, espanhol, português, polonês e esloveno
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

PT300x250.gif
Oração do dia
Festividade do dia





Envie suas intenções de oração à nossa rede de mosteiros


Top 10
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia