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Günter Grass em diálogo com dois papas

Günter Grass – pt

© Flickr/Christoph Müller-Girod/cmg.me/Creative Commons

Gelsomino Del Guercio - publicado em 15/04/15

O Prêmio Nobel, falecido nesta semana, conheceu o futuro Bento XVI em um campo de prisioneiros

O aplaudido escritor alemão Günter Grass morreu nesta segunda-feira em Lübeck, onde morava, aos 87 anos. Sua vida, na maior parte, foi um ícone da Alemanha positiva do pós-guerra: para começar, ele fundou o "Grupo de 47", o primeiro círculo de intelectuais alemão posterior à Segunda Guerra Mundial; depois, lançou o best-seller "O Tambor", em 1959; finalmente, em 1999, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Em diálogo com Joseph

O ganhador do Prêmio Nobel contou publicamente, em 2006, que tinha feito parte, quando jovem, de um departamento de excelência das SS de Adolf Hitler. Em 1945, ele passou um período em um campo de prisioneiros aliado, na localidade de Bad Aibling. Grass afirmou que, naquele campo, gostava muito de jogar dados e debater com Joseph Ratzinger, que também estava preso. “Eu me lembro das nossas conversas”, declarou Grass. “Ele era da Baviera, intensamente católico, quase ‘fanático’, e também era capaz, com seus 17 anos, de fazer citações latinas (…) Ele queria entrar na hierarquia eclesiástica; eu queria me tornar artista e famoso”.

Obstinado, tímido, delicado

Quando Ratzinger foi eleito papa e adotou o nome de Bento XVI, Grass se mostrou mais cauteloso sobre a identidade do Joseph que tinha conhecido no campo de prisioneiros. “Eu sabia, é claro, quem era o cardeal Ratzinger, conhecia a sua mentalidade conservadora, a sua posição conquistada com obstinação, pouco a pouco; sabia que ele tinha estado em Bad Aibling. Este Joseph me pareceu de repente conhecido, o modo de se comportar, aquela timidez, a obstinação, a delicadeza – posso apenas supor que aquele rapaz fosse ele”.

Müller e o “ar fresco”

Sobre o atual pontífice, o papa Francisco, Grass pronunciou palavras de elogio, dizendo que ele traz ar fresco para a Igreja. Esta visão positiva de Grass sobre Bergoglio foi objeto de uma pergunta feita ao cardeal Gerhard Ludwig Müller no começo da entrevista que o Prefeito da Congregação para a Fé concedeu ao site alemão rp-online.de (26 de março). “Eu sou contra metáforas fortes”, respondeu Müller, aludindo ao “ar fresco na Igreja”. Ele prosseguiu: “Francisco tem o seu próprio estilo. Ele fala de modo bem direto às pessoas. Não devemos projetar demais sobre o pontificado as nossas próprias concepções”.

A Terceira Guerra Mundial

Falando no dia 3 de novembro passado na Universidade de Hannover, o escritor alemão mencionou um conceito que o papa Francisco tinha denunciado alguns meses antes: “Entramos na Terceira Guerra Mundial, só que combatida por pedaços, por capítulos”, dissera o papa, referindo-se aos massacres no Oriente Médio. “Hoje estamos na Terceira Guerra Mundial, dito de modo extremo”, reforçou Grass. “Sem percebermos, multiplicam-se os cenários de guerra”. E sobre a democracia, o intelectual Prêmio Nobel avisou: “A democracia não é ameaçada pela direita radical ou pelo islã, mas sim pelos lobbies galopantes na União Europeia e aqui entre nós”.

Tags:
Literatura
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