Camille Paglia, em entrevista à Folha de S.Paulo, critica o feminismo "doente e neurótico"
Camille Paglia, em entrevista à Folha de S.Paulo, critica o feminismo “doente e neurótico”
A feminista norte-americana Camille Paglia é frequentemente atacada pelas próprias feministas radicais de hoje. Não surpreende: afinal, Camille denuncia que "o feminismo contemporâneo está fazendo as mulheres retrocederem", porque "a ideologia feminista do presente é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite que a mulher seja feliz".
Camille Paglia concedeu na semana passada uma entrevista extensa à jornalista Fernanda Mena, da Folha de S.Paulo. A matéria foi publicada no dia 24 de abril e conquistou destaque na página inicial do site da Folha como um dos artigos mais acessados nos dias seguintes.
Na conversa com o jornal, a ensaísta de 68 anos critica com veemência o que enxerga de doentio no feminismo e faz declarações sonoras como as seguintes:
É urgente que as mulheres parem de culpar os homens
A masculinidade precisa de espaço próprio
O feminismo errou ao desvalorizar a maternidade
A natureza tem papel irredutível na sexualidade: o gênero não é imposto pela sociedade
A maternidade exige sacrifícios na carreira
Transformar o corpo cirurgicamente é uma ilusão
É preciso respeitar a religião
Femen e Marcha das Vadias são incoerências do feminismo radical
As roupas são uma mensagem e é preciso reconhecer que elas têm consequências
É preciso aceitar o envelhecimento com maturidade
Estas observações de Camille Paglia refletem um grau importante de lucidez em comparação com as acusações relativistas e contraditórias do feminismo raivoso.
No entanto, a escritora também incorre em várias parcialidades, subjetivismos e reducionismos na sua visão do masculino:
Seria mais imparcial afirmar que não dá para cobrar perfeição de quem quer que seja no tocante à comunicação. Nem dos homens, nem das mulheres. A comunicação está sempre sujeita à imprecisão e é preciso que haja um esforço permanente de "sintonia bilateral" para que ela aconteça eficazmente. Mais do que capacidade ou incapacidade inata, a comunicação é um fruto possível do aprendizado e da prática, o que depende muito mais da força de vontade do que de generalizações deterministas. Ao afirmar que "os homens jamais serão capazes da arte da análise emocional", Camille absolutiza uma variável. Além disso, deixa a porta aberta para a interpretação (comum, aliás) de que, por contraste, todas as mulheres seriam "especialistas em comunicação e em sensibilidade emocional". A própria Camille, no entanto, afirma várias vezes ao longo da entrevista que as feministas e as mulheres em geral não entendem os homens e erram ao tentar impor a eles as suas próprias visões de mundo. A "arte da análise emocional", no caso, manda lembranças também às mulheres. Mais realista seria reconhecer que tanto os homens quanto as mulheres precisam aprender a comunicar-se melhor. E um bom primeiro passo seria deixar de lado as generalizações que ambos os sexos fazem um do outro.
Toda e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu da fecundação de um óvulo por um espermatozoide. Portanto, nasceu de um ato conjunto entre mulher e homem. É inegável que a relação de todo filho com a mãe que o nutriu no próprio útero durante nove meses é especialíssima, mas a visão que insiste em negligenciar o peso da paternidade na geração de um filho é parcial e danosa para todos: para os filhos, para as mulheres e para os homens. É incoerente esperar que os homens cresçam na consciência da própria importância como pais quando, ao mesmo tempo, se finge que a concepção não faz parte da maravilha que é a geração de um novo ser humano. Um filho é fruto de mãe e pai. Sempre.
Nem os homens nem as mulheres precisam que o sexo oposto "tenha pena" deles. Homens e mulheres precisam apenas que o sexo oposto os respeite e tenha o bom senso de enxergar e levar em conta as diferenças e semelhanças que os caracterizam. Toda pessoa, seja do sexo que for, tem fraquezas; e a maior delas, provavelmente, é a de sentir-se mais forte do que se é de fato. Sofrem dessa fraqueza tanto o machista quanto a femista que se acha (ou finge que é) mais forte com base em fatores biológicos ou psicológicos, quando tanto a biologia quanto a psicologia são dimensões de uma unidade humana muito mais complexa, na qual uma série de fraquezas coexiste com uma série de forças. A ótica míope de "poder" ou "empoderamento" não ajuda a desenvolver a supostamente procurada complementaridade entre os sexos, já que insiste na superficial e contraproducente oposição entre eles, como se um não precisasse do outro. As pessoas que têm sucesso na relação com as outras pessoas são as que entendem que todos temos fraquezas e forças e se dispõem a trabalhar na complementaridade que enriquece a ambos, e não as que presumem ter "poder" sobre o outro com base em critérios ideológicos que apenas alimentam a incompreensão recíproca.
Desafiadora a comunicação entre esses tais seres humanos, não?











