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Feminista reconhece: as mulheres devem parar de culpar os homens

Feminismo

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Aleteia Vaticano - publicado em 29/04/15

Camille Paglia, em entrevista à Folha de S.Paulo, critica o feminismo "doente e neurótico"

A feminista norte-americana Camille Paglia é frequentemente atacada pelas próprias feministas radicais de hoje. Não surpreende: afinal, Camille denuncia que "o feminismo contemporâneo está fazendo as mulheres retrocederem", porque "a ideologia feminista do presente é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite que a mulher seja feliz".

Camille Paglia concedeu na semana passada uma entrevista extensa à jornalista Fernanda Mena, da Folha de S.Paulo. A matéria foi publicada no dia 24 de abril e conquistou destaque na página inicial do site da Folha como um dos artigos mais acessados nos dias seguintes.

Na conversa com o jornal, a ensaísta de 68 anos critica com veemência o que enxerga de doentio no feminismo e faz declarações sonoras como as seguintes:


É urgente que as mulheres parem de culpar os homens

As mulheres emancipadas dos anos 20 e 30 "não atacavam os homens, não insultavam os homens e não apontavam os homens como fonte de todos os problemas das mulheres. O que elas pediam era igualdade de condições no âmbito da carreira e da política e queriam demonstrar que podiam obter as mesmas conquistas dos homens. Era como dizer: somos como os homens, admiramos os homens, amamos os homens. Hoje em dia, as feministas culpam os homens por tudo! (…) As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus problemas, que (…) não são fruto de uma conspiração masculina".


A masculinidade precisa de espaço próprio

"A epidemia de jihadismo no mundo é um chamado da masculinidade e está atraindo jovens homens do mundo inteiro (…) O Estado Islâmico usa vídeos para projetar esse sonho de que os jovens podem se lançar numa aventura masculina com risco de morte. Antes havia muitas oportunidades de aventuras para os homens jovens. Hoje, suas vidas são como as de prisioneiros nos escritórios, sem oportunidade para ação física e aventura. É difícil para a classe média entender o fascínio do risco e da morte, de fazer parte de uma irmandade. As elites não sabem responder a esse movimento. E parte disso é uma revolta dos homens e uma busca dos homens por sentido como homens".


O feminismo errou ao desvalorizar a maternidade

"O feminismo cometeu um grande erro ao difamar a maternidade. Gloria Steinem pregou a desvalorização da mulher como esposa e mãe (…) Toda pessoa emerge do corpo feminino, do útero, e o feminismo cometeu um erro ao tentar apagar a importância disso, tornando o nascimento um processo mecânico".


A natureza tem papel irredutível na sexualidade: o gênero não é imposto pela sociedade

"Os problemas entre os sexos (…) são uma consequência direta da biologia, que não tem sido considerada. Vemos hoje essas pessoas com ideias estúpidas, negando a existência dos gêneros [como vinculados à biologia]. Elas dizem que o gênero é uma coisa imposta pela sociedade, que não há base biológica para a ideia de gênero. Essas pessoas estão malucas?"


A maternidade exige sacrifícios na carreira

"Sem dúvida", a mulher tem de escolher entre carreira e maternidade. "O mecanismo da educação-treinamento será sacrificado, de alguma forma, para as mulheres que escolherem ter filhos. Elas provavelmente podem alcançar sucesso profissional mais tarde, mas há um grande valor em ter filhos mais cedo (…) A educação tem que se adaptar à realidade da biologia (…) As universidades se beneficiariam muito com a presença de estudantes casados e com filhos. Muitas besteiras que são ditas sobre gênero seriam debatidas melhor se houvesse jovens pais nas salas de aula (…) A maternidade é uma escolha e implica certa troca".




Transformar o corpo cirurgicamente é uma ilusão

"Dizem que a criança nasceu no corpo errado e já começam com hormônios até chegar à intervenção cirúrgica (…) Transformar o corpo cirurgicamente é uma ilusão (…) porque todas as células do seu corpo continuam sendo o que sempre foram. Simplesmente não é verdade que você mudou de gênero (…) A filha transgênero da atriz Cher precisa tomar uma injeção de hormônios todos os dias para ser o que é, um transgênero, nunca um homem. Cada célula daquele corpo continua sendo uma célula feminina".


É preciso respeitar a religião

"Eu sou ateia, mas acredito no poder da religião e da sua visão do universo. Vivemos essa transição da perspectiva religiosa para essa horrível perspectiva centrada no indivíduo, com o apoio da mídia (…) Tudo convergiu para a obsessão por gênero e orientação sexual. Isso virou uma loucura (…) Perante a lei, deve haver igualdade de gêneros e orientações sexuais. Mas deve haver mais respeito pela religião".


Femen e Marcha das Vadias são incoerências do feminismo radical

"[O grupo feminista radical] Femen não faz o menor sentido, é algo fabricado (…) É ridículo e demonstra o nível de insanidade do feminismo radical atual. Como protestar contra a indústria do sexo se o que você está fazendo é gerar excitação sexual? (…) A Marcha das Vadias é outra incoerência das meninas burguesas e universitárias de hoje".


As roupas são uma mensagem e é preciso reconhecer que elas têm consequências

"Só uma idiota acha que vai para as ruas com roupas provocativas sem correr o risco de ser atacada. Ninguém merece ser atacada (…) [mas] as roupas comunicam algo sobre você naquele momento. Roupas são uma linguagem (…) E não necessariamente se pode culpar os homens por entenderem uma mensagem que, talvez inconscientemente, as mulheres estão enviando".


É preciso aceitar o envelhecimento com maturidade

"As mulheres têm que superar [a aversão ao] envelhecimento. Não dá para dizer que o corpo de uma mulher de idade é tão bonito como o de uma jovem. Não é! (…) Precisamos aprender a mudar para o próximo estágio de vida (…) Quanto mais as mulheres lutarem contra [o envelhecimento], mais infelizes serão".



Estas observações de Camille Paglia refletem um grau importante de lucidez em comparação com as acusações relativistas e contraditórias do feminismo raivoso.

No entanto, a escritora também incorre em várias parcialidades, subjetivismos e reducionismos na sua visão do masculino:

"A mulher profissional casa com o homem profissional e espera que, ao chegar em casa de noite, ele se comunique com ela como suas amigas ou seus amigos gays. E os homens heterossexuais jamais serão capazes na arte da análise emocional. Não dá para cobrar perfeição dos homens como se estivéssemos no escritório".


Seria mais imparcial afirmar que não dá para cobrar perfeição de quem quer que seja no tocante à comunicação. Nem dos homens, nem das mulheres. A comunicação está sempre sujeita à imprecisão e é preciso que haja um esforço permanente de "sintonia bilateral" para que ela aconteça eficazmente. Mais do que capacidade ou incapacidade inata, a comunicação é um fruto possível do aprendizado e da prática, o que depende muito mais da força de vontade do que de generalizações deterministas. Ao afirmar que "os homens jamais serão capazes da arte da análise emocional", Camille absolutiza uma variável. Além disso, deixa a porta aberta para a interpretação (comum, aliás) de que, por contraste, todas as mulheres seriam "especialistas em comunicação e em sensibilidade emocional". A própria Camille, no entanto, afirma várias vezes ao longo da entrevista que as feministas e as mulheres em geral não entendem os homens e erram ao tentar impor a eles as suas próprias visões de mundo. A "arte da análise emocional", no caso, manda lembranças também às mulheres. Mais realista seria reconhecer que tanto os homens quanto as mulheres precisam aprender a comunicar-se melhor. E um bom primeiro passo seria deixar de lado as generalizações que ambos os sexos fazem um do outro.

"Elas [as feministas que combatem o valor da maternidade] não sabem que toda e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu do corpo feminino?"


Toda e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu da fecundação de um óvulo por um espermatozoide. Portanto, nasceu de um ato conjunto entre mulher e homem. É inegável que a relação de todo filho com a mãe que o nutriu no próprio útero durante nove meses é especialíssima, mas a visão que insiste em negligenciar o peso da paternidade na geração de um filho é parcial e danosa para todos: para os filhos, para as mulheres e para os homens. É incoerente esperar que os homens cresçam na consciência da própria importância como pais quando, ao mesmo tempo, se finge que a concepção não faz parte da maravilha que é a geração de um novo ser humano. Um filho é fruto de mãe e pai. Sempre.

"Quando as mulheres renunciaram ao poder da maternidade, elas perderam uma parte enorme do seu poder sobre os homens (…) As mulheres que têm sucesso com os homens são aquelas que mantêm certa qualidade maternal e entendem as fraquezas dos homens. E têm pena deles por isso. Elas tratam homens com humor e conseguem entender as necessidades dos homens e nutri-los de certa forma".


Nem os homens nem as mulheres precisam que o sexo oposto "tenha pena" deles. Homens e mulheres precisam apenas que o sexo oposto os respeite e tenha o bom senso de enxergar e levar em conta as diferenças e semelhanças que os caracterizam. Toda pessoa, seja do sexo que for, tem fraquezas; e a maior delas, provavelmente, é a de sentir-se mais forte do que se é de fato. Sofrem dessa fraqueza tanto o machista quanto a femista que se acha (ou finge que é) mais forte com base em fatores biológicos ou psicológicos, quando tanto a biologia quanto a psicologia são dimensões de uma unidade humana muito mais complexa, na qual uma série de fraquezas coexiste com uma série de forças. A ótica míope de "poder" ou "empoderamento" não ajuda a desenvolver a supostamente procurada complementaridade entre os sexos, já que insiste na superficial e contraproducente oposição entre eles, como se um não precisasse do outro. As pessoas que têm sucesso na relação com as outras pessoas são as que entendem que todos temos fraquezas e forças e se dispõem a trabalhar na complementaridade que enriquece a ambos, e não as que presumem ter "poder" sobre o outro com base em critérios ideológicos que apenas alimentam a incompreensão recíproca.

Desafiadora a comunicação entre esses tais seres humanos, não?

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feminismoIdeologia de GêneroMaternidadePaternidade
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