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A história da família, segundo Chesterton

© Ermolaev Alexander/SHUTTERSTOCK

G.K. Chesterton - publicado em 26/05/15

A família é a única instituição que surge por atração espontânea, baseada no amor e não no medo

A mais antiga das instituições humanas tem uma autoridade que pode parecer tão selvagem quanto a anarquia. Ela é a única, dentre todas estas instituições, a começar com uma atração espontânea, e a única da qual se pode dizer que é baseada no amor e não no medo. A tentativa de compará-la com as instituições coercitivas que vêm complicando a história recente levou a uma infinita falta de lógica nos últimos tempos.

Trata-se de algo tão único quanto universal. Não há nada, em nenhuma outra relação social, que seja sequer paralelo à atração mútua dos sexos, e é ao perder de vista este fato simples que o mundo moderno caiu em centenas de enganos.

A ideia de uma revolta geral das mulheres contra os homens foi proclamada com bandeiras e passeatas, como se fosse uma revolta de vassalos contra seus senhores, de negros contra negreiros, de poloneses contra prussianos ou de irlandeses contra ingleses; todos agiam como se acreditassem na nação fabulosa das amazonas. A ideia, igualmente filosófica, de uma revolta geral dos homens contra as mulheres foi proposta em forma de romance por Sir Walter Besant e, como livro de sociologia, pelo Sr. Belfort Bax.

Ao primeiro toque desta verdade de uma atração aborígene, contudo, todas estas comparações desabam e fica patente o quanto são cômicas. Um prussiano não sente, logo de cara, que só será feliz quando puder passar os dias e as noites ao lado de um polonês. Um inglês não acha que a casa parece vazia e triste sem que haja um irlandês lá dentro. Um escravagista não sonha, na sua juventude romântica, com a beleza perfeita de um africano. Um magnata das ferrovias raramente escreve poemas sobre o fascínio particular de um carregador de estação de trem.

Todas estas outras revoltas, contra todas estas outras relações, são razoáveis, para não dizer inevitáveis, por serem relações originalmente baseadas na força ou no interesse próprio. A força consegue abolir o que a força consegue estabelecer; o interesse próprio pode rescindir um contrato que foi ditado pelo interesse próprio. O amor de um homem e de uma mulher, contudo, não é uma instituição que posssa ser abolida ou um contrato que possa ser rescindido. É algo mais antigo que todas as instituições e contratos, algo que certamente irá continuar quando eles não mais existirem.

Todas as outras revoltas são reais, porque persiste a possibilidade de que as coisas possam ser destruídas, ou ao menos divididas. É possível abolir os capitalistas, mas não se podem abolir os homens. Os prussianos podem sair da Polônia, ou os negros voltar à África, mas um homem e uma mulher vão sempre permanecer juntos, de um jeito ou de outro, e devem aprender a tolerar-se mutuamente de alguma forma.

Trata-se de uma verdade muito simples, e, talvez por isso, hoje em dia, ela passe despercebida. A verdade que dela se depreende é igualmente óbvia. Não se discute por que a natureza criou esta atração; na verdade, seria mais inteligente perguntar-se por que Deus a criou, pois a natureza não teria propósito sem Deus por trás dela. Falar de um propósito na natureza é tentar, em vão, usar o feminismo para evitar o antropomorfismo. É crer numa deusa porque se é cético demais para acreditar num deus…

Esta controvérsia, contudo, pode ser deixada de lado nesta discussão, se nos contentarmos em dizer que o valor vital que se encontra, afinal, nesta atração é, evidentemente, a renovação da espécie humana.

A criança é uma explicação do pai e da mãe, e o fato de ela ser uma criança humana é uma explicação dos antigos laços humanos que ligam o pai e a mãe. Quanto mais humana – ou seja, menos bestial – for a criança, mais legítimos e duradouros serão estes laços. Assim, quaisquer progressos na cultura ou na ciência, longe de afrouxar estes laços, irão logicamente estreitá-los. Quanto mais houver para a criança aprender, mais tempo terá ela de passar na escola natural onde o aprende, e mais deve tardar a dissolução da parceria de seus mestres.

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FamíliaIdeologiaLaicismo
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