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As palavras nossas de cada dia

White letters isolated on white background © Andrea Crisante / Shutterstock

Prof. Felipe Aquino - publicado em 02/06/15

Nós não devemos ir atrás de reconhecimento e recompensa quando cumprimos o dever ou fazemos o bem, como ensina Jesus (cf. Mt 6,1). Mas o amor nos deve levar a agradecer todo bem que recebemos de Deus e dos outros. Jesus ficou triste quando percebeu que, dos dez leprosos que curou, só um tinha voltado para lhe dar graças (Lc 17, 17-18).

<<Obrigado – diz Chevrot – é uma pequena palavra alegre, é a palavra mágica que introduz no lar a delicadeza, a boa ordem e a serenidade>> (As pequenas virtudes do lar).

Palavras dignas

Às vezes, parece que a linguagem, nos diversos ambiente, está se deteriorando depressa, não só pela pobreza gramatical, mas sobretudo pela admissão massiva da grosseria e da fala chula. É como se muitos achassem bonito uma cultura de chiqueiro e lupanar.

Todos concordamos em que as palavras atenciosas e delicadas – sem artificio nem barroquismo – criam um clima amável e dão alegria ao convívio. Quando as palavras despencam na baixeza, também se deteriora o trato mútuo, e afunda o sentido moral e a fineza da consciência.

Negativas amáveis

Há pessoas que não sabem dizer não, e assim complicam a vida própria e a alheia. Porque às vezes é necessário dizer não. Além da negativa enérgica perante o que ofende a Deus e mancha a consciência, há outras negativas necessárias em relação a coisas boas em si mesmas, mas que – tendo em conta o tempo e as circunstâncias do momento – podem causar uma desordem, um abandono do dever ou um prejuízo a outros.

É o caso, por exemplo, de convites ou compromissos – mesmo relativos a matérias boas e até religiosas – que, se aceitos, impediriam de cumprir devidamente deveres familiares ou profissionais importantes. É expressivo um velho ditado hispânico: <<A mulher que pela Igreja deixa a panela queimar, tem a metade de anjo, do diabo a outra metade>>. É claro que isso não pode ser alegado como desculpa esfarrapada para fugir de tarefas apostólicas ou caritativas que, se tivéssemos mais ordem e espírito de sacrifício, seriam perfeitamente compatíveis com os demais deveres.

O importante é saber dizer não de modo amável. Lembro o caso daquele padre octogenário, meu amigo, que quando uma pessoa ia pedir-lhe confissão na hora exata em que já se encaminhava paramentado para o altar a fim de rezar a Missa, não respondia asperamente. Sorria e dizia, em tom afetuoso: “Claro! Com todo o prazer! Veja. Agorinha estou indo rezar a Missa, mas logo, logo, ao terminar, vou atender com todo prazer a senhora nesse confessionário do lado”.

Palavras que trazem Deus

São as mais “amáveis”, desde que não se trate de um “sermão” inoportuno. Serão boas e amáveis se brotarem de um afeto conhecido e sentido pela pessoa que ouve, se forem ditas na hora certa e não intempestivamente, e ainda se correspondem a um exemplo pessoal que cativa. Então, sim, é imensamente amável procurar despertar nos outros – em confidência, a sós – a sede de Deus, o desejo de conhecer a sua Palavra, o propósito de orar, de ler um livro de formação cristão, de participar da Santa Missa e de um grupo de espiritualidade, de procurar um orientador espiritual, etc.

Palavras sem voz

Não estou me referindo aos e-mails, WhatsApps, “torpedos” ou cartas, que afinal são palavras com voz escrita. Refiro-me a outro tipo de linguagem. Quantas coisas podem ser ditas com a expressão facial, com um olhar, um sorriso, um gesto!

Todas essas formas de comunicar-nos, muito vivas, são facas de dois gumes. Podem “dizer” coisas horríveis (de ódio, de desprezo, de nojo, de repúdio) ou coisas amáveis (de amor, de pena, de serenidade, etc.).

Vale a pena pensar numa dessas formas de linguagem sem palavras que, no dizer dos estrangeiros que nos visitam, é caracteristicamente brasileira, graças a Deus: o sorriso aberto. Peço a Deus que o nosso povo não o perca numa, apesar de que não faltam os que querem promover – ideológica e praticamente – o ódio, a discórdia e as lutas entre irmãos.

Lembre-se sempre do que dizia, e praticava, um santo dos nossos dias – São Josemaria -, que, por sinal, ficou cativado pelo nosso país (não é ufania, é verdade): <<Não esqueças que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes>> (Sulco, n. 57).

Que olhar amável, que sorriso, que gesto de bondade recebem de você os que o encontram todos os dias?

(Trecho retirado do livro: “Tornar a vida amável”, de Francisco Faus)

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