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Tecelãs da oração

Luana Barbosa
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A jovem aprendiz de jornalismo conta sua experiência de 29 horas no mosteiro

Este artigo foi enviado por Luana Aparecida Barbosa, de Belo Horizonte. Luana está no sexto período da faculdade de jornalismo, faz estágio na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e mora com a comunidade católica Caminho Novo. Na faculdade, ela construiu uma pauta sobre a aventura de passar um dia em um mosteiro. Levando em conta que este é o ano da vida consagrada e que a imagem das vocações religiosas se encontra deturpada, a sua matéria pretende desmitificar a ideia de convento e, colaborando com o Espírito Santo, contribuir para o despertar de novas vocações! Luana chegou ao mosteiro de Nossa Senhora das Graças em um sábado, às 8 horas, e saiu no domingo, às 13h. Acompanhe o relato!

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TECELÃS DA ORAÇÃO

Palco de revoluções e cercados por mitos, estes intrigantes lugares foram cenários de histórias como a do famoso romance Os miseráveis, de Victor Hugo. Aliás, como desconstruir as imagens criadas em nossas cabeças, também, a partir de filmes como A noviça rebelde ou Mudança de hábito? Mosteiros e conventos são habitados por seres humanos, e não por heróis ou protagonistas famosos. Amor ou loucura? Qual o sentido do chamado religioso?

Chego a meu destino final. Sem saber como seria esta experiência, decido, simplesmente, vivenciá-la, mas o frio na barriga é inevitável. Não é todo dia que se dorme em um convento. Deparo-me com a rua do Mosteiro, 138, no bairro Vila Paris, em Belo Horizonte. Por trás dos altos muros, o silêncio que temia parece se aproximar.

Na portaria, um morador de rua tocava a campainha. Uma freira o atendeu, depois me acompanhou à cela, o quarto. Uma cama, uma pequena mesa e um armário revelaram a simplicidade do ambiente. Trata-se de móveis suficientes para aquela proposta de hospedaria, de acolher pessoas comuns: leigos, padres e freiras para descanso, retiros ou pacientes em tratamento de saúde. Mara, 52, limpa as celas. Seria ela meu anjo durante este sábado.

Desfaço as malas minutos antes de começar a terceira oração do dia. As religiosas têm sete momentos de oração, com idas à igreja e à missa. Elas se dividem em vigílias (4h50), laudes (6h20), missas (7h), terças (9h), sextas (11h20), noas (15h), vésperas (17h25) e completas (19h40). O sino toca: passo a cumprir minha primeira atividade do dia. As freiras entram em silêncio e, em dupla, reverenciam a Deus e se cumprimentam. Com salmos, cantos gregorianos e a própria liturgia, louvam ao Senhor, clamam por misericórdia e intercedem pela humanidade.

Os nomes de cada tempo de oração vêm do tempo dos apóstolos, quando o dia era dividido de três em três horas. Minha inexperiência com a liturgia das horas, livro por meio do qual acompanham-se as orações, é compensada pela caridade de Mara, vocacionada da congregação. Participo de cada um destes momentos, e, após a hora terça, posso conversar com Irmã Felicidade, hoje com 83 anos, sendo 58 dedicados ao mosteiro. “Antes de conhecer a vida monástica, queria ir para o Amazonas trabalhar com os índios. Eu descobri, porém, que poderia atingir mais pessoas no mosteiro”, conta, ao lembrar que decidiu ir para o convento aos 18 anos, mas, como não havia vagas, fez o concurso dos Correios, onde trabalhou durante quatros anos.

Irmã Felicidade explica, também, que as primeiras regras monásticas sempre tiveram como base o Evangelho e a orientação de vivência no dia a dia. Porém, os monges viviam como eremitas, sozinhos e isolados. No século VI, na Itália, São Bento reuniu a vida monástica comunitária e escreveu sua Regra, que  prioriza o silêncio, a oração, o trabalho, o recolhimento, a caridade fraterna e a obediência. Assim nascia a Ordem dos Beneditinos – ou Ordem de São Bento.

Escolhas

O voto de estabilidade surgiu a partir da necessidade do monge de permanecer em sua comunidade e realizar a vocação recebida de Deus. Atualmente, se precisarem  ir a outro mosteiro para uma nova criação ou para ajudar alguém temporariamente, elas têm a permissão de sair. Sobre a obediência, Irmã Felicidade relata que se busca a imitação do Cristo, que obedeceu ao Pai até a morte. “Não quer dizer que a gente fique como bobo, ou que sejamos joguetes nas mãos de nossos superiores”, afirma, ao destacar que tudo, no convento, é fruto de consenso e inteligência. “Tudo é conversado”, completa.

Em relação ao voto de conversão de costumes, o que inclui pobreza e castidade, não se trata de simples mudança de hábito – ou decisão que se toma de um dia para o outro: “É uma continuidade, um aprofundamento à busca de Deus, uma maior consciência de nossa pobreza ontológica e um desejo de entrega total ao reino na castidade”, explica, ao completar: “Por isso, não nos casamos. Com o casamento, ficaríamos limitadas a um grupo pequeno: a família. Não se trata, porém, de desprezo. Pelo contrário: a família é o núcleo essencial não só da Igreja, mas da sociedade”.

Conforme destaca Irmã Felicidade, o sentido da castidade é estar disponível o tempo todo. “Toda nossa vida toda, 24 horas por dia, é ser de Deus como única razão de nosso ser, mas, ao mesmo tempo, com os olhos na humanidade”.

Sobre a situação do mundo, por vezes usada como argumento para contra-atacar a existência de Deus, Irmã Felicidade destaca que Ele não fez robôs, e que realiza suas funções conforme o planejado. “Deus fez pessoas humanas, com liberdade, consciência de si mesmas e capacidade de decisão. Então, Ele espera nossa adesão a seu plano, como nós somos”, conclui.

A vida de Mara

Após o bate-papo com Irmã Felicidade, almoço e participo das orações, no início da tarde, ao som da cítara, que, por sinal, eu só conhecia via Google. Ouço, ainda, os cantos em latim. Também tenho a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a vida de Mara, cujo caminho no noviciado é um pouco fora do comum.

Natural de Uberlândia (MG), ela se mudou para Brasília, onde se casou e teve três filhos. Hoje, é avó de sete netos e viúva. Uma vez por mês, Mara chega a Belo Horizonte para fazer acompanhamentos e não perder o contato com o mosteiro, até que regularize sua vida “aqui fora”. Formada em Moda, ela cuidou de empresas de vestuário em três shoppings no Distrito Federal, junto ao marido.

Após a trágica morte do companheiro, assumiu o controle das finanças, até que um de seus filhos, Júnior, pudesse cuidar da parte da empresa que ela não vendeu e das fazendas. “Meu esposo era rotariano e tinha uma vida social muito intensa, mas sempre o acompanhei mesmo não sendo o meu ideal de vida. Depois que ele faleceu, decidi que iria assumir a vida religiosa que eu sempre quis”, pontuou.

O “lugar” em que Mara mais sofre preconceito é na própria família. Seus filhos temem a distância e a escolha por uma ordem radical, de clausura: “Eles não acham ruim por eu estar velha, ou pelo fato de ser viúva. Sou uma pessoa com vida estabilizada lá fora, mas que deseja entrar para um convento. Eles gostariam que eu assumisse uma linha menos radical, mas é por esta que me encanto: o silêncio e a intimidade profunda me apaixonam”, ressalta.

O silêncio como alimento

Os horários no convento são bem diferentes, mas não dá tempo de ficar com fome. Para as freiras, o refeitório parece uma extensão da capela. Por isso, o silêncio é absoluto.  Impressionante como um pequenino barulho parece pisada de elefante. Esbarro no prato e consigo até ouvir os ecos. Na verdade, nunca havia percebido que fazia tanto barulho: a escova cai no chão e parece um terremoto. A porta – ixiiiii! – bate várias vezes… O copo na pia e o caderninho de anotações, que dá um salto dos meus braços e vai ao chão. Tento salvá-lo em câmera lenta, mas meus movimentos bruscos fazem um pouco mais de ruídos. Eis, em breves linhas, a descrição de minha falta de intimidade com o silêncio.

Noviças

Irmã Vera Lúcia, 35 anos – sendo dois de mosteiro e noviciado – é de Brasília e descobriu “o chamado” um pouco antes de completar 19 anos: “Mesmo no tempo de namoro, já sentia muito forte o convite à vida religiosa”, diz. Enquanto morava na capital federal, estudou Psicologia até o sétimo período, mas, ao mudar-se para BH, preferiu abandonar o curso. “Quando entrei, não tinha muita noção da diferença entre vida apostólica e monástica. Porém, carregava a certeza de minha vocação”. Após 13 anos nesta ordem religiosa e prestes a fazer votos perpétuos, com a ajuda de um diretor espiritual, decidiu sair. Dois meses depois, começou a conhecer o mosteiro pela internet e fez os primeiros contatos.

Já Isabela, 32, é natural de Ponte Nova (MG) e está em discernimento vocacional, quando as jovens têm a oportunidade de fazer experiência, dentro da clausura, de até três meses. Ela se sentiu apaixonada pela igreja e pela palavra de Deus. Seu caso, na verdade, deu-se pela internet. No espaço virtual, teve contato com a “Regra de São Bento”. Formada em Direito, ao final da faculdade, ela passou por um processo de nova conversão.

“Quando chegava em casa, após o estágio, lia a Bíblia e sentia arrepios. É um amor profundo, uma coisa tão maravilhosa! Deus é um amor que o ser humano precisa redescobrir”, exalta. Isabela, porém, achou que não daria conta da vida religiosa e deixou a ideia para depois. Em 2014, entrou em contato com o mosteiro, também pela internet, e começou sua nova história. “Espero contribuir cada vez mais com a Igreja, que me tocou, me chamou. Eu a amo muito”, completa, aos risos.

Ao final desta aventura, depois de 29 horas no mosteiro, posso concluir que dia após dia elas tecem a própria vida, a partir de suas escolhas, baseadas na oração e sem muito barulho, ou melhor, quase nada… E o sentido do chamado? A resposta a ele diz respeito a cada uma!