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Ser discípulo de Cristo é renunciar a tudo o que se tem

Maria recebe Jesus morto ao pé da cruz

Cena do filme A Paixão de Cristo

Gilberto Brito Passos - publicado em 20/07/15

Quando se resolve uma desavença, abre-se mão de alguns valores. Mas há valores que são irrenunciáveis.

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O leitor Gilberto Brito Passos compartilha conosco um contundente testemunho de determinação: viver com plena coerência a radicalidade da conversão cristã, com toda a autenticidade a que o cristão não pode renunciar. Gilberto também escreve no site ICatolica e nas redes sociais Facebook e Twitter.


SER DISCÍPULO DE CRISTO É RENUNCIAR A TUDO O QUE SE TEM

Gilberto Brito Passos


“Se alguém quer vir após mim,
negue
se a
si mesmo, e
tome cada dia a
sua cruz, e
siga-me”. (Lc 9,23).

Quando uma pessoa vai conversar com outra para resolver alguma desavença, ela sempre leva consigo alguns valores, valores renunciáveis que deve haver de ambas as partes para que o acordo seja feito, e também aqueles valores dos quais não abre mão: os valores irrenunciáveis.

Acredito que não é segredo para ninguém que um valor grandioso que carrego comigo é a fé católica que professo. E não sou católico que desconhece o significado da palavra “católico”, que não conhece Jesus Cristo nem a Sua Igreja e tampouco o evangelho. Sou católico por convicção, ou, como bem dizia o meu ex-pároco, frei Inocêncio Pacchioni: “Não sou tão leigo assim”. Não sou perfeito; só Deus é perfeito. Carrego comigo, como todas as pessoas falhas, pecados que precisam constantemente ser corrigidos ao longo da vida. E tenho essa convicção porque fui chamado “pessoalmente” pelo Senhor. Desde que me aproximei d’Ele, inicialmente por caminhos tortuosos, mas que serviram para fazer de mim quem hoje sou, Ele não me abandonou e a minha convicção é tão grande que considero preferível ser ateu a professar uma fé que não seja a fé católica.

No trecho de Lucas acima citado, Jesus coloca duas condições para segui-lo: “negar a si mesmo” e “carregar a sua cruz”. A primeira tem relação com a segunda. O que seria negar a si mesmo senão deixar de lado os próprios instintos puramente carnais? E que cruz seria essa senão a de ter que negar a si mesmo, as próprias vontades e desejos? De fato, “minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7,16). Por isso o verdadeiro discípulo de Cristo “não anuncia a si mesmo” (v.18), as suas convicções, os seus desejos e pensamentos, mas Aquele que o chamou e escolheu. Acontece, porém, que o sistema inteiro sob o qual vivemos é muito, muito afastado de Cristo. Pode não haver respostas, mas nós temos que fazer pelo menos as perguntas. A nossa inteligência, como católicos, não pode deixar de notar a violência satânica e cheia de segredos terríveis que é perpetrada pelo nosso governo!  

A fé católica nos convida à pobreza, à castidade e à obediência. E o que eu descobri é que estes três estados de vida são incrivelmente empolgantes e desafiadores! Eles nos dão um tipo de liberdade e de “consciência de ser” que é completamente inexistente no meio da nossa cultura entorpecente. O fato é que quanto mais nos aproximamos de Cristo, e consequentemente da Igreja Católica, que é o Seu Corpo, mais nos assemelhamos a Ele no agir, no pensar e no falar, e, por isso, recebemos em nosso corpo as marcas (chagas) do corpo de Jesus (cf. Gl 6,17). O que são estas feridas senão a oposição do mundo? De fato, se alguém se diz cristão e não possui em si as chagas do crucificado, é mentiroso. Se alguém se diz católico e não sofre quando vê a Igreja de Cristo sofrer ataques de todas as formas e não sente em si mesmo esta dor, é mentiroso; pois se a Igreja é o Corpo do Senhor e nós somos membros deste Corpo, e, conforme o apóstolo Paulo, “se um membro sofre, todo o corpo sofre com ele” (cf. 1Cor 12,26), como posso eu, membro do corpo, não sentir as dores do corpo ainda que a ferida não esteja diretamente em mim?

É hora de os filhos de Deus se revelarem ao mundo e é pelos frutos que os conhecemos. A fé acompanhada de obras mostra quem é verdadeiramente discípulo de Cristo! E Cristo não aceita titubeios: ou se “está com Ele ou não está” (cf. Mt 12,30). Não há meio termo: “Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Antes fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, eu te vomitarei” (Ap 3,15-16). É por isso que repito: se alguém não crê na mensagem de Jesus que nos é transmitida por meio da Sua Igreja Católica (cf. Lc 10,16), se alguém não está disposto a se tornar pequeno como uma criança (cf. Mt 18,3), a renunciar a tudo o que tem (cf. Lc 14,33), a negar a si mesmo, a carregar a sua cruz (cf. Lc 9,23) sem “olhar para trás” (cf. Lc 9,62), esse alguém não é digno do Senhor, não é digno do Seu Reino, não pertence à Sua Igreja e não possui a Deus por Pai. É neste sentido que aquilo que professamos com a boca deve corresponder ao nosso comportamento e também ao nosso pensamento. Examinemos, pois, as nossas verdadeiras intenções, os nossos pensamentos, e vejamos se correspondem ao nosso proceder.


Cristo veio para salvar os pecadores (cf. Lc 5,32) e Ele tem mais compaixão dos pecadores que se arrependem que dos hipócritas que fingem ser o que não são. Portanto, quem é joio se comporte como joio e quem é trigo se comporte como trigo. “O injusto faça ainda injustiças, o impuro pratique impurezas. Mas o justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais” (Ap 22,11). Pois, no dia do juízo, o Senhor terá mais misericórdia “daqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, no entanto procuram Deus com um coração sincero e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a sua vontade conhecida através do que a consciência lhes dita” (CIC 847) do que daquele que, estando fisicamente no Seu Corpo, não está espiritualmente ligado a ele por pensamentos, palavras e ações.

"Não combater o erro é corroborá-lo. Não defender a Verdade é suprimi-la" (Papa São Félix).


Se não estamos com Ele, estamos contra Ele. A mensagem de Jesus é para mim um valor irrenunciável, ainda que tenha de perder amigos preciosos, ainda que todos venham contra mim, ainda que o mundo se oponha, ainda que veja aqueles que amo se afastando de mim por causa da mensagem de Jesus, e, embora fique muito triste com isso, não abrirei mão destas verdades de fé, pois quem tem a Deus tem tudo. Como diz o apóstolo: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro” (Rm 8,35-36).

Ao Senhor peço apenas a graça de poder continuar em Seus caminhos e sabedoria, a fim de perseverar nesta caminhada cada vez mais difícil; afinal de contas, quem disse que seria fácil? Em Mateus, 10, Jesus disse que seus discípulos são enviados como “ovelhas no meio de lobos” (v.16) e pediu que tenham “cuidado com os homens” (v.17), pois “serão odiados por todos por causa do Seu nome” (v.22); disse ainda, porém, que não devem temer aqueles que “matam o corpo, mas não podem matar a alma” (v.28).

Quanto a mim, “não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14) a quem anuncio; sim, “meu zelo me consome, pois os meus adversários desdenham das Tuas palavras” (Sl 119,139), mas "o Senhor completará o que em meu auxílio começou. Senhor, eterna é a vossa bondade: não abandoneis a obra de vossas mãos" (Sl.137,8). Embora "os inimigos da Igreja sejam meus inimigos pessoais" (S. Jerônimo), “uma só coisa peço ao Senhor e só esta eu procuro: habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para ali admirar a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário” (Sl 26,4). Amém!

Tags:
CristãosHistória da Igreja
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