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A corrupção (dos outros)

© Mi.Ti./SHUTTERSTOCK

Catavento - publicado em 02/09/15

A agenda está muito clara: importa muito mais o que o outro está fazendo e pouco o que eu tenho feito (ou não tenho feito)

Não há dedo em riste o suficiente, apontado para a face que for, que não precise ser entortado um tanto. Não há nesse mundo, nesse tempo. Só o Eterno possui essa função e, vejam só, escolheu a outra margem do rio.

Ele escolheu a graça, mas continuamos na lei.

Contaminada pela agenda cívica contemporânea, uma parcela considerável da igreja brasileira está interessada em combater a corrupção. Para tal jornada, não há cruz ou espada nas mãos, mas açoites e megafones. Há gritaria, há teologia avançada para apologética , há crucificação em praça pública. E quando “os crucificados” se crucificam antes, a gente se ofende.

A agenda está muito clara: importa muito mais o que o outro está fazendo e pouco o que eu tenho feito (ou não tenho feito).

E o que o outro está fazendo, oras, está claramente errado.

Sempre mais errados que nós mesmos, os outros tornam-se o nosso melhor escape. Se há quem faz isso aí, então eu-tô-de-boa-a-caminho-do-céu.

Abandonados pelos que deveriam ser fonte de graça, esses malditos pecadores ainda não entenderam que precisam mudar o quanto antes, né?

O Brasil de hoje parece ser uma metáfora clara do que nos sucede há muito tempo. E, de alguma forma, esses processos se retroalimentam.

Sobre este Brasil e seu combate raivosa à corrupção, o historiador e professor da Unicamp Leandro Karnal, tem fala famosa que repercute nas mídias sociais há alguns meses. Segue abaixo a versão em vídeo e transcrita:

“As pessoas felizes no Brasil são aquelas pessoas que acreditam profundamente (e são muitas pessoas que acreditam), que a corrupção está a cargo de um partido; as pessoas que acham que a corrupção está a cargo de um partido e que bastaria tirar esse partido do poder para que o reino da justiça e da igualdade se instalasse no país, são pessoas muito felizes, são pessoas que substituíram cultos como o do Papai Noel e do coelhinho pelo culto da corrupção isolada.

E quando eu digo isso eu não estou dizendo que um ou outro partido não são notáveis pela corrupção, estou dizendo aquilo que venho dizendo seguidas vezes em muitas manifestações, na televisão ou em textos, que a corrupção que Hamlet nota, começa no leito da sua mãe na Dinamarca – a microfísica do poder.

A corrupção começa no andar pelo acostamento, a corrupção começa no recibo de dentista comprado pra entregar um imposto de renda, a corrupção continua no atestado médico falso entregue pelo pai para justificar o filho que apenas vagabundeou para a prova. A corrupção continua com o colega que na aula de ética, política e filosofia, assina a lista pelo colega, estudando Spinoza e a sua ética; a corrupção continua em todos os lugares e apenas numa ponta do iceberg como último elemento da corrupção ela chega a um partido, a um governo e a um poder, se a corrupção fosse de um grupo eu seria uma pessoa profundamente feliz, rejeitaria Hamlet, adotaria Paulo Coelho, seria uma pessoa absolutamente tranqüila, porque a partir deste momento eu teria consciência que eliminando aquelas pessoas, que são do mal, eu estaria livre.”

Existe algo de muito errado comigo se a minha agenda é muito mais ocupada pelos pecados do outro do que pelos meus pecados; se a minha preocupação é mudar o outro o quanto antes para que se adeque à práxis cristã de modo urgente; se antes de vê-lo crer, preciso vê-lo diferente, colocando o fazer antes de ser. Existe algo de muito errado comigo que eu ainda não parei para perceber. Do tamanho de uma trave.

Tags:
CorrupçãoPolítica
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