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Existe um propósito divino na evolução?

Alexandre Zabot - publicado em 30/09/15

Se as mutações genéticas são aleatórias, as leis físicas não são: e elas conduzem a natureza a um fim específico, em última análise desejado por Deus, que é o Criador dessas leis

A Igreja Católica não propõe uma teoria científica para a criação – não é papel dela. No entanto, a Igreja ensina, com base tanto nas Sagradas Escrituras quanto na filosofia e na ciência, que há propósito de Deus na criação e que esse propósito pode ser percebido pelo homem. A Igreja também ensina que a ciência verdadeira não se opõe à fé. A conclusão natural para qualquer católico, portanto, é que, se uma teoria científica sobre a criação é verdadeira, ela não terá conflito algum com a fé. É neste contexto que precisamos entender a oposição de muitas pessoas à teoria da evolução de Darwin: elas acreditam que a teoria de Darwin elimina o propósito de Deus na criação. Mas por que pensam assim? E será que isso é mesmo verdade?

Geralmente, o primeiro argumento contra qualquer evolução, não só a biológica, mas também a do universo, é o livro do Gênesis. Sabemos, entretanto, que, do ponto de vista católico, não há motivos para acreditar na interpretação literal de todo o relato da criação. Parte dele pode ser compreendida como metáfora. De fato, entre os que se opõem à teoria de Darwin, poucos se baseiam numa interpretação literal da Bíblia, mesmo porque, cientificamente, a evolução biológica é um fato mais do que comprovado. A evolução do universo também já foi provada depois que Edwin Hubble verificou observacionalmente a teoria do Big Bang, proposta pelo padre jesuíta Georges Lemaître. A física, hoje, não duvida dessa descoberta. A expressão de conservação das massas do católico Lavoisier –“na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” – deve ser entendida num sentido mais amplo, cientificamente, de que o paradigma da evolução faz parte da ciência moderna.

A evolução é um fato; a teoria é a explicação do fato. Embora as teorias possam estar erradas e mudar, os fatos experimentais não mudam! Do ponto de vista filosófico e teológico, o argumento realmente sério é se a teoria de Darwin se opõe ou não ao propósito de Deus na criação. Esta é a pergunta que realmente importa. A teoria de Darwin, muito aprimorada depois da descoberta da genética pelo monge agostiniano Gregor Mendel, está baseada no conceito de mutações genéticas aleatórias que acontecem na reprodução. Ao longo de milhares de anos, essas mudanças fariam que uma população se aprimorasse, evoluísse, através de vários mecanismos, dentre eles a sobrevivência do mais apto.

É justamente a ideia de aleatoriedade das mutações que gera a grande controvérsia, pois significa literalmente que as mudanças acontecem ao acaso, sem propósito. Isso implica (será?) que todas as espécies surgiram ao acaso, inclusive nós. Basicamente, existem três posturas frente a essa conclusão: nega-se a evolução, aceita-se a evolução mas não a “aleatoriedade” das mutações ou então aceita-se a evolução e a aleatoriedade mas nega-se a consequência de acaso devido às mutações aleatórias. Como visto antes, a primeira postura vai contra tudo o que a ciência moderna sabe e contra o que convém chamar de “paradigma evolutivo da ciência”. Para dizer pouco, pode-se falar que não é uma posição defensável com a razão. E como há séculos a Igreja defende que a fé e a razão se complementam, ir contra o fato (não a teoria) da evolução não é uma boa posição para os católicos. O frade franciscano Roger Bacon, um dos pais do método científico, que o diga!

A segunda posição é conhecida com “Design Inteligente”: ela diz que não há aleatoriedade nas mudanças que acontecem entre uma população e outra, mas que Deus controla tudo. Seus principais defensores tentam lançar mão de uma proposta científica, a complexidade irredutível, para justificar esta posição. Entretanto, argumenta-se muito, nos meios científicos, que esta teoria não é falsificável e que, portanto, não é científica. Particularmente, concordo com esta crítica. Não se pode esquecer que, mesmo do lado teológico, o Design Inteligente não é sempre bem visto. Muitos alegam, com propriedade, que ele apela a um “Deus das lacunas”, que vive remediando a sua criação. Os católicos creem que Deus cria e mantém a sua obra, mas “manter” não significa “consertar”, apesar do “ato criador” poder se estender no tempo. A ação de Deus no Design Inteligente, no entanto, estaria mais para “remendo” que para “criação”.

A terceira posição, que me parece mais correta, afirma que não há consequência lógica entre “aleatoriedade na mutação” e “aleatoriedade das espécies”. O propósito de Deus está em ter criado um mundo dotado de leis naturais que invariavelmente conduzem ao universo como o conhecemos hoje. Se as mutações genéticas são aleatórias, as leis físicas não são: e elas conduzem a natureza a um fim específico, em última análise desejado por Deus, que é o Criador dessas leis. Uma analogia pode ajudar a compreender esta visão. Imagine um estádio de futebol lotado onde explode uma bomba. As pessoas querem sair do estádio. Cada indivíduo é livre para correr na direção que quiser. De fato, uns correm para a saída e outros não; ou porque estão perdidos ou porque acham que podem ser pisoteados no tumulto. No final, a maioria das pessoas se salva. Foi o acaso ou foi porque as pessoas têm a tendência natural de procurar a saída e o engenheiro pensou nos possíveis canais de fuga quando construiu o estádio?

Seguindo esta analogia, todos os caminhos que levam da “aleatoriedade da mutação” para o surgimento de uma nova espécie podem ser compreendidos como o propósito de Deus na criação. Há inúmeros agentes biológicos, físicos, geológicos e climáticos que controlam todo o processo. Deus, que é onisciente, certamente sabe que fim levará a sua criação e não precisa interferir desnecessariamente criando olhos aqui, asas acolá. Precisamos refletir melhor sobre o significado da onipotência de Deus.

Tags:
CiênciaCriaçãoVirtudes
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