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A revista Playboy se rendeu. Será que estamos chegando à saturação da pornografia?

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Famosa publicação “adulta” concluiu que a única maneira de se destacar no mercado hoje é mostrar suas modelos vestidas

A revista Playboy chamou a atenção da mídia nesta semana ao anunciar que, a partir de 2016, a revista erótica mais famosa do mundo deixará de publicar fotos de mulheres nuas. O diretor da publicação, Scott Flanders, declarou que a revista foi “vítima do seu próprio trabalho muito bem feito” de tornar o consumo de pornografia “normal” e até “aspiracional” para os homens norte-americanos.

“O clima político e sexual de 1953, o ano em que Hugh Hefner apresentou a Playboy ao mundo, não tem quase nenhuma semelhança com os dias de hoje”, disse Flanders. “Isto se deve, em grande parte, à ‘missão heroica’ de Hef para expandir essas liberdades [de expressão sexual]”.

“A batalha [para popularizar a pornografia] foi travada e vencida”, acrescentou Flanders no New York Times. “Hoje estamos a um clique de distância de todo tipo imaginável de ato sexual, e gratuitamente. Assim, [a nudez] se tornou ‘passé’”.

É verdade que Hugh Hefner trouxe quase sozinho a pornografia para o grande público ao lançar a Playboy. Publicando fotos explícitas de mulheres juntamente com outros interesses cotidianos dos homens, como carros, resenhas de produtos tecnológicos, anúncios de bebidas e cigarro e entrevistas com celebridades e “formadores de opinião”, a Playboy conseguiu garantir o seu espaço nas bancas e nas casas de muitos homens. A qualidade considerada “alta” do estilo de seus artigos gerou uma espécie de meme: “Eu só leio os artigos”, diziam alguns homens, quase sempre em tom irônico. Em suma, a revista se tornou um “ícone cultural” que, no auge, se vangloriava de ter cinco milhões de assinantes, atraindo artistas e modelos “top” para posarem nuas em suas páginas, na esperança de impulsionar a carreira.

Apesar dessa reputação de ser uma “revista de classe”, a Playboy ainda era, basicamente, uma revista de pornografia, que, para um grande número de homens que chegaram à adolescência entre anos 1950 e 1990, serviu como o primeiro contato com o pornô.

Vinte anos depois, a média de idade do primeiro contato com a pornografia caiu para onze anos e o conteúdo acessível é muito mais explícito. Os adolescentes não precisam de uma Playboy roubada para ver mulheres nuas: eles próprios, hoje, têm pouco problema para tirar a roupa, fazer selfies pornográficas e distribuí-las diretamente aos smartphones dos seus amigos e colegas de classe – que as repassam para o mundo. Tão prevalente é hoje a pornografia bizarra ou extrema que não poucos jovens já não conseguem manter relações sexuais normais com mulheres normais: eles se tornaram tão dependentes de uma estimulação sexual extrema que não conseguem mais fazer sexo sem ela.

É claro que a Playboy não é a única fonte que ficou obsoleta pelo fácil e grátis acesso à pornografia na internet. Nos últimos dias, a rede de hotéis Hyatt anunciou que vai seguir o exemplo das redes Marriott e Hilton e retirar os canais pornográficos pay-per-view das suas suítes. Ativistas contrários à pornografia declararam vitória após a decisão da Hyatt, mas analistas dessa indústria consideram que a rede simplesmente avaliou que as vendas de material pornográfico via televisão não valiam a pena diante da alternativa de cobrar 10 dólares por noite para liberar wi-fi de alta velocidade. A rede não perde nada com esta decisão – e ainda ganha “publicidade positiva”.

Quanto à Playboy, sua estratégia de abandonar a nudez nas revistas impressas segue a decisão semelhante, já tomada no ano passado, de tornar seu site mais “amigável” para anunciantes e mídias sociais, eliminando as imagens explícitas. Depois da remoção das imagens de nudez, em agosto passado, o número de usuários do site quadruplicou e a média de idade dos visitantes caiu de 47 para “pouco mais de 30 anos”: finalmente, a revista atraiu a tão cobiçada “geração do milênio”, pela qual vinha lutando fazia tempo.

Será que estamos diante de uma reação à cultura hipersexualizada que vivemos nas últimas décadas? Será que os seres humanos autoconsiderados “livres” finalmente começaram a ver que não estava ali a resposta para os seus anseios de sentido na relação com a sexualidade?

Talvez ainda não. Mas é um marco interessante e digno de reflexões.

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