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Dia de Finados sem fim: a morte do menino de bruços na praia

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A própria morte daqueles que ninguém quer parece estar morta, enterrada e esquecida pela cultura do descarte - inclusive entre os cristãos

A imagem inerte do pequeno Alan Kurdi, com sua blusa vermelha, sua bermuda azul, seus três aninhos de idade e seu corpo de bruços na praia turca de Bodrum, chocou o mundo no dia 3 de setembro deste ano. O choque durou alguns dias, rendeu uma enxurrada de matérias na mídia e, como de costume, passou. Morreu e foi enterrado, junto com o próprio Alan.

Ele repousa em sua Síria natal, ao lado do túmulo em que estão enterrados Galib, seu irmãozinho de 5 anos, e Rihan, a mãe. Na semana passada, os três túmulos receberam a visita e a faxina de um sírio de 39 anos, cuja vida, no naufrágio do bote que levava a sua família refugiada da Turquia para a Grécia, em 2 de setembro, também naufragou. Ele também está morto. Mas não enterrado.

Abdullah Kurdi conversou recentemente com o fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim, que foi à Síria pela quinta vez para cobrir a guerra civil. O relato da conversa com Abdullah foi publicado pelo portal de notícias G1, do grupo Globo.

Abdullah agradeceu pelas mensagens de solidariedade dos brasileiros e contou que seus filhos eram fãs do futebol do país. Foi por isso que ele aceitou dar entrevista: ele tinha se fechado à imprensa mundial depois de ser acusado de estar no comando do barco que fazia a travessia ilegal. “Fiquei triste e com muita raiva. Isso é mentira. Por que um traficante de pessoas levaria a própria família no mesmo barco? Por que eu estaria morando em uma casa tão pobre em Istambul se estivesse ganhando dinheiro como traficante?”.

A família vivia pobremente em Istambul, na Turquia, desde que o sanguinário Estado Islâmico tinha conquistado e destruído Kobane, a cidade síria onde moravam antes. O custo de vida na metrópole turca, no entanto, era inviável para os refugiados, que tentaram, sem sucesso, migrar para o Canadá: o país lhes negou o visto.

Foi quando Abdullah procurou um “coiote” para levá-los de barco até a Grécia. “Éramos 13 pessoas [no barco]. Eu falei que era gente demais, mas ele disse que não porque a Grécia era bem perto. Depois de cinco minutos vieram ondas fortes, e, na segunda onda, o piloto fugiu nadando”. Foi quando Abdullah assumiu o comando do barco.

Galib se abraçou a ele; o pequeno Alan, à mãe. “Foi a primeira vez que eu os vi com cara de pavor”. É quando Abdullah interrompe o relato, emocionado. “Eu queria ter morrido com eles”.


Hoje o sírio sobrevive em Erbil, no Curdistão iraquiano, com ajuda de custo do governo local e da administração de Kobane, a cidade síria onde estão enterrados os filhos e a esposa.

Enquanto ele tenta reconstruir uma vida do meio da morte, não faltam aproveitadores lucrando com sua tragédia. É estarrecedor, mas uma canadense abriu uma fundação em nome de Alan Kurdi, embolsou as doações recebidas e nunca mandou um centavo para Kobane, denuncia Abdullah. “Pelo menos isso contribuiu para que o mundo olhe diferente para a situação dos refugiados. Todo dia tem vários Alans que morrem na praia tentando chegar à Europa”, consola-se.

Mas será mesmo que o mundo está olhando com mais consciência para a situação dos refugiados?

Mesmo aqui, no site da Aleteia, não são poucos os leitores autoproclamados “católicos” que reduzem sumariamente todos os refugiados a “terroristas” que devem ser rechaçados, rechançando, ipso facto, a própria fé cristã em nome de uma ideologia farisaica que eles consideram a “verdadeira” fé cristã. Por outro lado, tampouco faltam os que negam a existência de infiltrados terroristas em meio à onda de refugiados autênticos e de emigrantes que querem viver em países mais prósperos e seguros. Ainda falta um olhar livre de lentes redutoras.

Se é assim entre os cristãos, que dirá entre as autoridades europeias laicas, perdidas entre ideologias de todo tipo, medidas improvisadas, promessas não cumpridas e jogos de empurra-empurra entre países.

Enquanto isso, o Dia de Finados não finda para aqueles que ninguém quer. Sua própria morte parece morta, enterrada e esquecida pela cultura do descarte, que triunfa inclusive entre muitos que, dizendo-se cristãos, também dizem combatê-la.

Que Deus receba em seu abraço eterno de Pai tantas vítimas desse descarte diário.

Descansem em paz, Alans, Galibs e Rihans do mundo inteiro! Amém.

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finados