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Uma lição “marxista” para os católicos

David Mills - publicado em 06/11/15

Aquilo que é "romântico" para a classe média alta pode ser um grande fardo para os menos favorecidos

Só os mais ricos acham que ser abertos à vida é fácil.

Para nós, pessoas ricas, de classe média alta e sem grandes problemas econômicos, outro filho até pode significar um “ajuste para baixo”, mas não joga a família na pobreza. Pode significar abrir mão de algum feriado, ou de jantar fora na quinta-feira, mas a chegada de mais um filho não significa ficar sem comida, sem dinheiro para manter a casa ou sem poder pagar a escola.

Em parte considerável, os católicos que escrevem sobre o dom dos filhos podem se dar ao luxo de ser “românticos” a respeito do assunto, produzindo histórias elogiosas sobre a beleza da doutrina católica e esquecendo-se de que vivem em condições privilegiadas. Eu me incluo entre essas pessoas. Nós tendemos a nos esquecer que olhamos para o mundo de um lugar específico na sociedade e que, se não fizermos um esforço, nos manteremos cegos às perspectivas dos outros, especialmente dos pobres.

Em muitos escritos católicos sobre a sexualidade conjugal existe um reflexo dos chamados “sentimentos burgueses”; a doutrina católica é tratada como uma bênção pura, enquanto para outros, desprivilegiados, pode ser um fardo e uma ameaça. Os católicos que escrevem e falam sobre a sexualidade tendem a não levar em conta a perspectiva dos outros.

Admito isto pessoalmente. Eu fiquei tão entusiasmado ao descobrir a doutrina católica e ao constatar as mudanças positivas que ela trouxe para a minha vida de classe média alta que não parei sequer um momento para pensar sobre como se sentem as pessoas em condições mais difíceis do que as minhas.

A pobreza não é o único problema que complica a história feliz. A gravidez coloca algumas mulheres fisicamente em perigo. Um casal jovem que eu conheço queria se tornar católico, mas tinha sido avisado pelo médico de que outra gravidez mataria a esposa. Eles poderiam se tornar católicos se renunciassem para sempre a fazer amor. Eles não se juntaram à Igreja. E a maioria das pessoas consegue entender o porquê. Para eles, a doutrina católica não era um caminho rumo à felicidade, e sim um alto muro, erguido entre eles e as portas da Igreja. Eles eram pobres, mais física do que economicamente.

A confortável teoria burguesa distorce a realidade. Mais do que apenas vítimas, os pobres são agentes morais que podem ensinar algo aos indivíduos ricos, inclusive sobre a boa vida e sobre o lugar das crianças nessa vida. Como disse o papa Francisco, “para as pessoas mais pobres, um filho é um tesouro… (É preciso) olhar também para a generosidade daquele pai e daquela mãe que vê em cada filho um tesouro”.

A pessoa em melhores condições financeiras, para quem o ensino católico não é um grande fardo, pode cair nas tentações próprias da sua classe, uma das quais é a de pensar nos filhos como “acessórios” do seu estilo de vida. Os católicos, em especial nos países ricos, têm mais filhos do que os seus vizinhos laicos e protestantes. Alguns se sentem “orgulhosos” de ter filhos – não dos filhos em si, mas de si próprios, por terem tido vários. É fácil achar-se “recompensado” por Deus pela própria obediência, sacrifício e generosidade.

Aqui a Igreja pode ser a sociedade querida por Dorothy Day, a sociedade que torna mais fácil ser “bom” – e, para as pessoas casadas, uma das partes de “ser bom” é poder aproveitar o sexo.

Do ponto de vista católico, não pode ser aceitável que o ato conjugal seja tão intimamente influenciado pelo status econômico a ponto de maridos e esposas só poderem desfrutar do dom divino da união sexual se puderem pagar o resultado natural: os filhos. A doutrina católica não é só para a classe média e alta.

Nós, que temos menos ou nenhum problema econômico, falamos muito “romanticamente” sobre a generosidade de estar abertos à vida. Poderíamos – e deveríamos – encontrar maneiras de tornar essa abertura uma coisa “romântica”, e não uma fonte de espanto, também para os outros.

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