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Onde estava Deus na favela da Rocinha quando Raquel matou pela primeira vez, aos 15 anos?

Aleteia Brasil - publicado em 24/11/15

Ela se drogava desde os 6, foi vendida pela avó aos 9, ganhou a primeira arma aos 11, virou mulher do chefe do tráfico aos 25 e tentou recomeçar a vida aos 36

Naquele dia, Raquel de Oliveira foi fazer uma entrega de maconha a um comprador. O encontro estava marcado na favela da Rocinha, a maior do Rio de Janeiro. Subiram a um apartamento. O dinheiro estava lá, à vista. O homem trancou a porta, guardou a chave no bolso e convidou Raquel para fumar um baseado. E outro. E outro.

“Ele queria me deixar tonta e abusar de mim”, conta ela.

Mas Raquel se drogava desde os 6 anos de idade, com maconha e cola de sapateiro. Era conhecida na Rocinha, aliás, pela capacidade de fumar sem perder a consciência.

Quando o homem tentou atacá-la, Raquel não estava nada tonta. O que a salvou foi isto e um objeto que estava em cima de uma mesa velha. Era uma faca.

O corpo foi encontrado três dias depois, pelo odor da decomposição. Entrou para as estatísticas. Outro homicídio sem solução no Rio de Janeiro.

Raquel tinha 15 anos.

Hoje ela tem 54, está há dez em tratamento contra o vício em cocaína, deixou a criminalidade, completou o ensino médio, formou-se em pedagogia e lançou seu mais recente livro, “A Número Um”, mistura de autobiografia e ficção em que relata a infância, a juventude, os anos em que foi mulher de Naldo, o chefe do tráfico na Rocinha na década de 1980, e sua carreira como “patroa” depois da morte dele, em 1988.

Foi no Morro da Babilônia, durante o lançamento do livro, que Raquel recebeu a reportagem da BBC Brasil e declarou que “a literatura me liberou e me salvou da loucura”.

Ela conta que a mãe era empregada doméstica e o pai era “um pedófilo”. Pobreza e abuso. Aos 6 anos, fugiu do barraco em que passava dias trancada sozinha: conheceu outras crianças, bandidos armados e a droga. Solidão, repressão, abandono. Aos 9 anos foi vendida pela avó, viciada em jogo, ao seu futuro “padrinho”. Carência, desprezo. Teve certa “sorte”: ele não a forçou a prostituir-se. O “padrinho” a adotou como filha. Substitutivos. Aos 11 anos, ganhou dele a primeira arma. Influência, falta de orientação, indução. Aos 25 anos, já com dois filhos de outra união, se tornou a mulher do traficante Naldo, o homem que disparou para o alto, com um fuzil HK, para se anunciar como o novo dono da favela da Rocinha em 1988, enquanto o chefe anterior do tráfico era sepultado. A cena entrou para a história do Rio de Janeiro.

A relação com Naldo era marcada por sexo desenfreado, admiração, angústia. Enfrentou sua morte com cocaína para “anestesiar” a dor. Virou “patroa” num ambiente machista, assumindo o comando deixado pelo comparsa morto em confronto com a polícia.

“Claro que matei gente. Era o trabalho. Teve uma época em que eu só trabalhei ‘resolvendo problemas’”.

Ela não sabe quantos matou.

Quando abandonou o “negócio”, em 1997, começaram novos anos de pesadelo alimentados pelo vício em cocaína. Tudo o que tinha foi transformado em pó. Casas. Carro. Dinheiro. Joias.

Sua preocupação hoje é o risco de que o livro passe a “mensagem errada” e seja visto como “apologia ao tráfico”. Seu objetivo, diz ela, é o contrário.

A matéria da BBC sobre Raquel de Oliveira não toca no assunto “Deus”. Mas muitos leitores da matéria podem perguntar-se “onde estava Ele nesses anos todos”.

A pergunta é válida. Qual é a resposta católica para ela?

Talvez seja disso que o papa Francisco está falando quando nos exorta a sair do nosso conforto e acomodamento e ir até as “periferias da existência”, onde Deus é aguardado ansiosamente. Desesperadamente.

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