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Uma batalha evangélica pode explicar por que a Igreja Católica agem assim

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David Mills - publicado em 18/01/16

A Igreja insiste na necessidade de uma estrutura elaborada de doutrinas e de uma voz viva para interpretá-las

Ela é a “Harvard Evangélica”. E virou notícia nacional no episódio da demissão de uma professora de política que disse que cristãos e muçulmanos adoram o mesmo Deus. Pode ser difícil avaliar o que está realmente acontecendo entre a faculdade Wheaton e a professora Larcyia Hawkins, mas se vê que a polêmica indica evangélicos agindo como católicos, ou pelo menos descobrindo que viver no mundo requer agir como a Igreja Católica tem agido.

A faculdade acusa Hawkins de violar suas “posições teológicas”. Justo, pode-se dizer. A faculdade pode decidir quais crenças detêm e exigir do seu corpo docente o respeito mínimo a certas regras. Gostaria que mais faculdades católicas fossem tão cuidadosas com compromissos religiosos entre o seu corpo docente. Se um professor mudar de ideia, como as pessoas fazem, a faculdade pode pedir-lhe que propague suas crenças em outra instituição, ou pode até mesmo demiti-lo.

Mas a faculdade está enquadrando Hawkins em um tópico que não faz parte da “Declaração de Fé” que o corpo docente deve assinar todos os anos. Não é uma implicação óbvia dessa declaração, muito detalhada, que incorpora o Credo Niceno com distintivos Evangélicos. Um dos principais teólogos evangélicos do país, escrevendo na principal revista evangélica, Christianity Today, escreveu há 13 anos, “O Pai de Jesus é o Deus de Maomé? A resposta é certamente sim e não”. Hawkins parece ter dito mais ou menos a mesma coisa.

O evangelicalismo tem insistido em uma fé baseada no que a Bíblia diz claramente, que todos podem ver por si mesmos, quando avaliam e levam em consideração todas as questões importantes. É uma idéia encantadora. Mas simplesmente não funciona na prática. A Igreja insiste na necessidade de uma estrutura elaborada de doutrinas e de uma voz viva para interpretá-las. Ela também fica feliz em deixar muitas questões em aberto – não dizendo que elas não podem ser respondidas, mas que a Igreja ainda não tem uma resposta. O status do Islã, depois da Lumen Gentium – “conosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia” – parece ser um destes.

Esta é a maneira como as coisas funcionam, algo que Deus presumivelmente entendeu quando criou sua Igreja. Ele a criou para viver na história. As perguntas surgem, e as declarações já existentes muitas vezes não as abordam. Então alguém com autoridade deve respondê-las. Nesse ponto, a Igreja acrescenta as respostas aos documentos existentes, ou então a autoridade decide se tais questões ainda não são possíveis de receber resposta, e a discussão continua. Temos as Escrituras, é claro, como os nossos amigos evangélicos, mas também um Catecismo com 2865 pontos e uma voz Magisterial viva para examinar as muitas perguntas que os cristãos que vivem no mundo têm de enfrentar.

Eu vi a mesma coisa que está acontecendo em Wheaton anos atrás no encontro anual da Sociedade Evangélica Teológica, do qual participei. A liderança estava discutindo que vários membros tinham violado o conjunto de declaração mínima de fé.

Para argumentar que eles não estavam em conformidade com a declaração de fé, a liderança teve de insistir em crenças que a própria declaração de fé não cobria (um Catecismo da IgrejaEvangélica, na realidade) e sob a autoridade de certos membros mais velhos. Essa solução implicou que se deixasse de lado a simplicidade frequentemente alardeada pelo evangelicalismo, assumindo uma postura mais parecida com a católica.

Chesterton abordou isso em Ortodoxia. Ele estava falando de pessoas que divagam sobre o espírito do cristianismo, mas não gostam da prática do cristianismo – as pessoas que amam Jesus e desprezam São Paulo, por exemplo –, mas se aplica também aos nossos amigos que acreditam que o cristianismo é uma operação simples. É por isso que a fé tem a elaboração de doutrinas e detalhes que tanto angustiam aqueles que admiram o cristianismo sem acreditar nele, dizia o escritor.

Uma vez que se acredita em um Credo, orgulha-se de sua complexidade. Assim como os cientistas têm orgulho da complexidade da Ciência. Isso evidencia a riqueza das descobertas.

Vemos o olhar dos outros quando mostramos o Catecismo. É um livro grande. E agora imagine as expressões ao deparar com os documentos do Concílio Vaticano II, os documentos dos Concílios anteriores, as coleções de encíclicas papais, e ainda outras declarações significativas.

Esse episódio traz mais um argumento para ver a Igreja como a voz viva de Deus através da história. A Igreja lida com os problemas que aparecem e responde com autoridade (ou os deixam abertos com autoridade). É a única maneira que um corpo religioso pode permanecer fiel à sua fundação e manter a sua identidade. Como um dos mantras modernos afirma, pode-se dizer que o nosso Deus é um Deus prático. Daí a elaboração de doutrinas e detalhes.

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