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"Epidemia de cesáreas": uma causa da alta taxa de bebês nascidos mortos no Brasil?

Aleteia Brasil - publicado em 21/01/16

"A mulher está recebendo o melhor tratamento possível, com foco no bem-estar dela e do bebê? Com bebês nascendo em idade gestacional de 37 semanas em cesáreas marcadas, fica claro que não"

O Brasil passou de um índice de 12,1 natimortos por 1.000 nascimentos no ano 2000 para 8,6 em 2015. Apesar da melhora, o índice brasileiro ainda é quase três vezes pior que o do Chile (3,1), país com a melhor qualificação na América Latina. Na listagem global, o Brasil está em 78º entre 195 países.

O levantamento mundial sobre o número de bebês que morrem antes do nascimento, logo depois ou durante o parto é feito periodicamente pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, da Universidade de Londres. A última edição do detalhado estudo, que se chama Ending Preventable Stillbirths, foi publicada nesta semana pela revista científica Lancet.

São definidos como natimortos, neste estudo, os fetos que morrem com idade gestacional de 28 semanas (cerca de 7 meses) ou mais.

A rede BBC conversou com uma das responsáveis pelo estudo, a médica e pesquisadora Hannah Blencowe, para entender os porquês da posição ruim do Brasil no índice. Alguns destaques da reportagem:

  • A qualidade dos serviços de saúde no Brasil varia muito conforme a região do país e a classe social. O risco de um bebê natimorto se multiplica nas faixas de baixa renda.
  • Embora não seja uma causa direta do alto índice de natimortos, o Brasil apresenta altas taxas de cesáreas, um fenômeno que pode indicar um desvio preocupante de foco no acompanhamento da saúde das gestantes.
“Os dois problemas apontam para a mesma questão: ‘A mulher está recebendo o melhor tratamento possível, um tratamento cujo foco é o bem-estar dela e de seu bebê?’ Quando se vê bebês nascendo com idade gestacional de 37 semanas em cesáreas marcadas, fica claro que não”, afirma a Dra. Hannah.

Epidemia de cesáreas

Para a médica, a “epidemia de cesáreas” no Brasil se deve a muitos fatores, mas dois merecem destaque:

  • a pressão dos médicos para agendar o parto mesmo sem razões objetivas para isso;
  • a cultura de achar normal marcar a data do parto.

O foco na data do parto deixa em segundo plano o monitoramento do crescimento do bebê e o acompanhamento minucioso de problemas como o diabetes, que é controlável.

Boas práticas a ser adotadas pelo Brasil

A Dra. Hannah aponta alguns caminhos que o Brasil poderia seguir:

  • Manter um registro detalhado sobre os natimortos, o que ajudaria a estudar melhor o fenômeno e combatê-lo. O governo chileno tem feito isso com bons resultados.
  • Investir e insistir no atendimento médico pré-natal de qualidade e acessível a todos. Graças a esta medida, Cuba tem sido, na América Latina, o país que mais vem reduzindo o número de bebês mortos antes de nascer.
  • Aplicar programas efetivos para prevenir a gravidez entre adolescentes, bem como prestar atendimento específico às grávidas com mais de 40 anos: estas são as faixas etárias em que a gestação envolve mais riscos para mãe e bebê.
  • Atender melhor, psicologicamente, as mães e famílias com bebês natimortos. Estima-se que 4,2 milhões de mulheres, em todo o mundo, tenham depressão por causa da perda de um bebê. Elas sofrem estresse psicológico e isolamento, ficando mais vulneráveis a abusos, violência doméstica e problemas familiares. Além disso, o sofrimento do pai de um bebê natimorto também costuma ser subestimado. Metade dos pais entrevistados em países desenvolvidos afirma sentir que a sociedade os pressiona a “esquecer” o bebê natimorto e “tentar de novo”.
  • Prestar mais atenção ao impacto psicológico, social e até econômico nas famílias que perdem um bebê.

No mundo

  • 2,6 milhões de bebês natimortos por ano.
  • 7.200 bebês natimortos por dia.
  • Metade dessas mortes poderia ser evitada com melhorias no tratamento pré-natal e durante o parto.
  • 98% dos casos de bebês natimortos ocorrem nos países de renda média ou baixa.
  • Com o ritmo atual de progresso, as chances de ter um filho vivo por parte de uma grávida na África só igualarão as dos países ricos daqui a 160 anos.
Tags:
BebêsGravidezMaternidade
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