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O mundo está mesmo abandonando a religião?

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Em seu mais recente livro, “O Triunfo da Fé”, Rodney Stark responde à pergunta

Estamos em janeiro e os estudantes universitários estão retomando suas rotinas acadêmicas. A vida na universidade em geral constitui um momento de profundos questionamentos para estes jovens, que veem suas convicções e perspectivas do mundo serem desafiadas. Como docente, tenho testemunhado, ano após ano, o drama interior enfrentado por meus alunos em sua busca por novas respostas. Foi de grande valia, no sentido de iluminar meus pontos de vista sobre essa questão, a leitura do novo livro do professor Rodney Stark, intitulado The Triumph of Faith: Why the World Is More Religious than Ever (“O Triunfo da Fé: Porque o Mundo de Hoje está Mais Religioso do que Nunca”, em tradução livre). Em muitas escolas, tais questionamentos tendem a produzir um movimento em direção à secularização. No Benedictine College, porém – instituição onde leciono, ministrando a disciplina “Cristianismo e Mídia de Massa” – parece-me ser o movimento inverso a tendência usual.

Ao longo dos anos, o curso recebeu diversos ajustes, até tomar as feições de uma espécie de “análise SWOT” (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças) da aptidão dos católicos em se comunicarem com o mundo. Costumo começar abordando as “forças” – é aí que os estudantes têm suas concepções mais desafiadas. Muitos deles têm em mente a impressão de que o ocidental caminha a passos largos em direção a uma plena secularização – um abandono definitivo de todo tipo de “fé cega”. Ao longo do curso, entretanto, analisamos textos como God is Back, dos editores do The Economist, e The Last Christendom, de Philip Jenkins; trabalhos que apresentam fortes evidências de que, ao contrário, o fenômeno religioso tem ganhado força na história recente em todo o mundo.

Para Stark – que, a propósito, é colega de Jenkins em Baylor – esta crença num “secularismo triunfal” é que representa a grande “fé cega” de nossos tempos. Questionando as conclusões de uma pesquisa recentemente publicada pelo Pew Research Center sobre a religiosidade norte-americana, destaca que grande parte dos entrevistados que responderam “não ter religião”, afirmava todavia ter o hábito de rezar, como também “acreditar em anjos”. Talvez os diagnósticos sociológicos que alardeiam o abandono da religião estejam equivocados.

Esmiuçando a longa história deste fenômeno cultural a que chama de “culto à secularização”, cita pensadores que já anunciavam a “derrocada da religião” séculos atrás. E no entanto, como mostram os dados analisados por Stark – frutos de pesquisas envolvendo um total de mais de um milhão de pessoas de 163 diferentes países – a situação da religião no mundo parece ser bem diferente:

  • 81% dos entrevistados afirmou estar filiado a algum tipo de instituição religiosa organizada;
  • 74% afirma ser a religião um elemento importante de seu cotidiano;
  • Apenas em alguns poucos países a proporção de pessoas que se declaram ateus alcança a casa dos 5%; somente na China, Vietnã e Coréia do Sul esses números superam os 20%.

O livro, é claro, têm também suas fraquezas. O uso talvez excessivo de exclamações em suas argumentações dá, por vezes, ares sensacionalistas ao texto. Mas, não nos deixemos enganar: Stark é um acadêmico sério, e suas conclusões estão fundamentadas em dados de primeira qualidade e em uma primorosa análise conceitual. Demonstra com números algo que eu, intuitivamente, já suspeitava: a noção de que o catolicismo esteja em declínio é, ao menos em parte, falsa. Essa ideia parece ter origem num sentimento saudosista, por parte dos católicos, relativo a um passado idealizado – uma suposta “idade de ouro” do catolicismo – que, na verdade, não tem fundamentação histórica. Seus dados mostram que cerca de um terço dos norte-americanos frequenta a igreja semanalmente – número que tem se mantido aproximadamente estável ao longo dos últimos 40 anos. Na verdade, observa-se uma discreta tendência de aumento, com um máximo registrado no ano de 2010. Ele também analisa a aparente tendência de aumento no número de pessoas que se declaram “sem religião”: trata-se mais de uma mudança na forma como as pessoas descrevem seus próprios hábitos religiosos, do que de um real declínio da religiosidade popular.

Stark também pondera sobre as implicações das baixíssimas taxas de adesão observadas nas pesquisas sociológicas que investigam o fenômeno religioso. No estudo publicado pelo Pew Center em 2012, por exemplo, apenas 9 por cento do total de entrevistados completou os questionários. “Quando iniciei minha carreira de sociólogo, na Universidade da Califórnia, uma pesquisa que falhasse em coletar informações de ao menos 85% da amostra planejada seria descartada como não confiável”, lembra.

Qual a razão das pesquisas sobre religião terem tão baixa adesão? Não sabemos. Mas, ao analisar os dados, fica evidente que o grupo de pessoas que melhor coopera com as pesquisas, respondendo aos questionários, corresponde ao das pessoas de menor poder aquisitivo e de menor escolaridade. E – ao contrário do que se poderia esperar – estas pessoas são também aquelas que mantém menos vínculos com as instituições religiosas.

Ao oferecer um panorama preciso do fenômeno religioso pelo mundo – incluindo de países e regiões como Japão, China e o Oriente Médio – o trabalho de Stark possibilita desconstruir os tantos clichês que têm se multiplicado sobre o tema. Refuta teses como a de que a religiosidade estaria associada às parcelas menos instruídas da população – mostrando que, na verdade, praticantes de religiões tradicionais como o Catolicismo, o Islã e o Hinduísmo tendem a ter níveis médios de escolaridade superiores, quando comparados aos não praticantes em suas respectivas localidades. Esclarece que o suposto declínio do catolicismo na América Latina é – para alegria de nós católicos – superestimado; e nos lembra que, nestes tempos de “abandono da religião”, 4 em cada 5 habitantes do globo ainda é membro de alguma instituição religiosa organizada.

Convido os leitores a juntarem-se aos meus alunos e debruçarem-se também sobre este livro.

Tom Hoopes é docente convidado no Benedictine College em Atchison, Kansas.

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