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Histórias Inspiradoras

Em memória de Miriam Woldu: Papa entristecido “perde um membro da sua família”

VATICAN POPE

AFP

Robert Moynihan - publicado em 03/03/16

“O peso do mundo não é para os nossos ombros, Robert”, ela me disse

Há uma tristeza nas coisas, neste mundo onde todas as coisas passarão.

E assim escrevo este “in memoriam” – para uma memória.

Em memória de uma jovem mulher chamada Miriam.

Uma mulher de extraordinária beleza e graça, que encheu o espaço ao seu redor com uma luz especial.

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Ela foi uma das várias recepcionistas da Casa Santa Marta, a residência do Vaticano, onde o Papa Francisco vive desde sua eleição, há três anos. Trabalhou lá também por vários anos antes da chegada do Papa.

Por esta razão, Miriam era descrita na imprensa como “recepcionista do Papa”. Ela o cumprimentava todos os dias e, após o jantar, quando ela estava na mesa, Francisco ia cumprimentá-la e desejar-lhe boa noite, enquanto ele subia para o quarto. Neste sentido, ela era parte da “família do papa”.

Para os clientes da Santa Sé que permaneciam na Casa Santa Marta por um dia, ou três, ou cinco, Miriam era uma luz infalível, um recurso pronto, uma amiga de confiança.

Apesar de descendente da Eritreia – seus pais eram imigrantes – ela tinha vivido toda a sua vida na Itália e era italiana. Seu italiano era perfeito, e também falava muito bem inglês.

A simpatia de Miriam cativou o Papa Francisco.

De todos os recepcionistas da Casa Santa Marta, ela tinha o carinho do papa. Francisco balançava a cabeça e sorria para ela todos os dias que ela estava de plantão durante os últimos três anos. Ele a chamou de “a rainha da casa”. Ele gostava da sua amabilidade e seu sorriso.

Eu também conhecia Miriam. Para mim, era uma amável e boa amiga. Muitas vezes ela me pediu para não ser “tão sério” e não me preocupar tanto com as coisas. “O peso do mundo não é para os nossos ombros, Robert”, ela me disse.

Ela era uma pessoa honesta. Era franca em seus juízos, discernia o certo do errado, o bem do mal com precisão infalível.

Viveu muitos anos com seus pais. Algum tempo atrás, quando estava prestes a se casar, disse que estava “muito feliz” com a perspectiva do casamento e de ter uma família.

Ela casou em uma missa católica, e um monsenhor do Vaticano oficiou o casamento.

Recém-casada, ficou grávida e muito feliz. Mas perdeu o bebê durante os primeiros meses de gravidez e ficou muito triste.

Depois disso, por várias razões, que devem permanecer na privacidade de sua intimidade, ela e seu marido se separaram.

Começou a viver sozinha em um apartamento não muito longe do Vaticano.

Sua história ecoa a de muitos em nosso mundo. Ela teve sua parcela de solidão, de luta solitária no trabalho, o aluguel, as compras, cozinhar, viver a vida dia a dia.

Ela ainda trabalhava na Casa Santa Marta em dezembro, e eu a vi depois; mas em janeiro pediu para se ausentar por alguns dias de licença médica, e no início de fevereiro pediu afastamento do trabalho.

Isso foi cerca de três semanas atrás.

Por volta do dia 10 de fevereiro – o dia e hora exata de sua morte é incerta – ela passou deste mundo.

Durante vários dias, esteve deitada, completamente vestida, sem vida, na sua cama em seu apartamento.

Ela estava sozinha. As portas, como os investigadores concluiram mais tarde, estavam trancadas por dentro. Não havia nenhum sinal de crime, de qualquer intruso ou qualquer pessoa que pudesse ter lhe causado danos.

Ela não foi encontrada até que seu irmão, Simon, tentando, sem sucesso, falar com ela por telefone, percebeu que ela não respondia há muito tempo. Ele contatou as autoridades, que foram ao apartamento dela, encontraram a porta fechada e assim que conseguiram abrir, encontraram-na morta havia vários dias.

A investigação completa de sua morte concluiu que ela morreu de um coma induzido por diabetes, a partir do qual ela não acordou.

Também foi descoberto, em um detalhe final ainda mais triste nesta história triste, que ela estava grávida de sete meses de uma menina, que morreu em seu ventre. As duas foram enterradas juntas.

A Missa funeral aconteceu sábado, 27 de fevereiro, na Igreja de St. Stephen, a igreja dos peregrinos etíopes dentro da Cidade do Vaticano, logo atrás da Basílica de São Pedro, e, apropriadamente, no início dos pacíficos jardins do Vaticano.

O Papa Francisco passou 20 minutos em oração solitária ao lado de seu caixão, mostrando claramente seu profundo pesar pela sua morte.

Ironicamente o Papa Francisco, quando a notícia da morte de Miriam estava se tornando pública, em 22 de fevereiro, dirigiu uma homilia aos membros da Cúria Romana. A ocasião era a Missa do Ano Jubilar da Misericórdia da Cúria Romana.

“Que também nos nossos ambientes de trabalho possamos sentir, cultivar e praticar um forte sentido pastoral, antes de tudo em relação às pessoas que encontramos todos os dias”, disse Francisco. “Que ninguém se sinta ignorado nem maltratado, mas que cada um possa experimentar, antes de tudo aqui, a atenção carinhosa do Bom Pastor”.

A luz de Miriam foi extinta agora, neste mundo. Ela nos deixou sem dizer adeus.

E assim nós gostaríamos de dizer a Miriam: obrigado pela sua bondade e luz que brilhou durante a sua breve vida.

Que a sua alma encontre a paz no Senhor. Que a luz eterna brilhe sobre você, pelos séculos dos séculos. Amém.

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