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“Sonho com um Congresso que tenha medo de ir para o inferno”

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Se isso acontecer, país se transforma, diz padre Paulo Ricardo, um dos mais influentes do Brasil

A História do Brasil está tão intrinsecamente ligada à história da Igreja Católica no país, que uma não pode ser contada separadamente da outra.

São inumeráveis os exemplos de reis e rainhas, presidentes e até generais que, quando a política ia mal, procuravam na Igreja o exemplo, o conselho, ou mesmo o consolo necessário para o enfrentamento das crises.

Nas últimas décadas, a vida do Estado se distanciou profundamente da vida religiosa – numa separação que somente a história vai dizer se foi ou não benéfica.

De acordo com o padre Paulo Ricardo Azevedo Júnior, 48 anos, porém, a crise política e institucional pela qual atravessa o Brasil não é mera coincidência.

“As instituições políticas no Brasil não são só corruptas, mas corruptoras”, afirma, peremptoriamente.

Hoje, uma das maiores autoridades intelectuais da Igreja no Brasil, o Padre Paulo, como é conhecido, fala a mais de um milhão de famílias católicas todos os meses, através de seu site na internet.

Falando apenas de religião, seu site é um dos 500 mais acessados do Brasil e um dos cinco sites católicos mais acessados do mundo.

Padre Paulo nasceu em Recife (PE). Com 11 anos de idade, sua família se transferiu para Cuiabá.

Concluiu o ensino médio em Michigan, nos EUA. Ingressou no seminário em 1985 e foi ordenado sacerdote em 1992, por São João Paulo II.

É formado em Filosofia e Teologia (1991) e mestre em Direito Canônico (1993) pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Fala ou escreve em nove línguas.

Nesta entrevista exclusiva concedida ao MidiaNews, na Paróquia do Cristo Rei, em Várzea Grande, onde reza missas e atende a comunidade, o Padre Paulo, além de analisar a atual crise político-institucional brasileira, faz uma crítica à ideologia de gênero e à islamização da Europa.

E explica por que, em sua visão, os índices de criminalidade são tão altos, enquanto os índices educacionais são tão baixos no Brasil. Com a erudição e o entusiasmo costumeiros, ele também fala, é claro, de religião.

Confira os principais trechos da entrevista:

MidiaNews – O senhor é hoje um dos padres mais conhecidos e influentes do Brasil. Mas o senhor já foi mais polêmico. O que aconteceu?

Padre Paulo Ricardo – São os pedaços de juventude! (risos). Na verdade, o que havia era um vazio. Os brasileiros pareciam estar adormecidos, então eu, como padre, tive que fazer um papel que não é propriamente sacerdotal. Ou seja, me colocar numa posição de soar o alarme para acordar o país com relação aos perigos do marxismo e toda a ideologia que estava tomando conta de nossa cultura. Graças a Deus, o clima mudou muito e isso devido à contribuição de muitas pessoas atuando, tanto na mídia como em outras áreas. Não é raro hoje você encontrar pessoas que sabem o que é “cubanização” do Brasil ou bolivarianismo, por exemplo. Isto era impensável há dez anos atrás.

MidiaNews – Em 2010 o senhor sofreu uma perseguição dentro da própria Igreja. Algumas pessoas chegaram a escrever uma carta ao seu superior, pedindo que o senhor fosse afastado do sacerdócio. Isso também influenciou na sua mudança?

Padre Paulo Ricardo – Sim, também influenciou. É claro que no início eu fiquei irritado com a coisa. Eu me senti completamente injustiçado. Mas Deus me deu a graça de poder contar com o conselho de alguns bispos e amigos. Eu me lembro, por exemplo, de uma importante conversa com o meu grande amigo Reinaldo Alguz [deputado estadual em São Paulo]. Ele me disse: “Padre Paulo, o senhor combate o marxismo, mas, sem se dar conta, o senhor também tem atitudes marxistas! Alguma de suas falas provocam luta de classes dentro da Igreja”. Ele foi de uma sinceridade e de uma caridade brutal. Vi que ele tinha razão e resolvi mudar. Eu precisava aprender a ser pescador de homens. Talvez seja por isso que as pessoas estejam estranhando minha atuação assim meio “low profile”.

MidiaNews – Mas o senhor ainda continua a atuar na área política e social?

Padre Paulo Ricardo – Claro que sim. Neste campo social, tenho procurado atuar numa área igualmente urgente e que estava deixada de lado: a defesa da vida e da família. É claro que este trabalho deveria estar sendo realizado pelos leigos. Espero que também aqui as pessoas acordem. Quando este tema também pegar e as pessoas, os leigos, começarem a cumprir a sua missão própria, eu provavelmente também vou me retirar disso.

A Igreja Católica, ao contrário das igrejas evangélicas, tem uma visão muito clara daquilo que é a missão do sacerdote, que é uma missão propriamente espiritual. É o leigo quem deve exercer o seu “sacerdócio” no campo da política. A função do sacerdote nesta área é somente esclarecer o ensinamento da Igreja. A Igreja é um corpo e cada órgão desse corpo tem a sua função. Por exemplo, ao contrário das igrejas evangélicas, que veem com bons olhos pastores que lançam suas candidaturas, a Igreja Católica não. Quando um padre se lança na política, pode saber que é um padre que está indo contra o Direito Canônico.

O que temos no Brasil é uma situação política muito sui generis, em que os partidos políticos são legendas que não significam realmente uma ideologia, um pensamento político, mas são simplesmente legendas de aluguel. Um partido não é isto. Os partidos, ao contrário, deveriam ser um primeiro ensaio do consenso da sociedade. Pessoas com ideias semelhantes se unem em busca de propostas que promovam o bem comum. O que seria realmente necessário é haver uma transformação das instituições políticas do país para que a nossa democracia fosse mais robusta. A democracia brasileira está fragilizada exatamente porque as instituições não são somente corruptas, mas também corruptoras.

Para que você entenda o que quero dizer, posso fazer uma comparação. Suponhamos que na instituição “prostíbulo” se comece a reclamar que as prostitutas estão muito corrompidas. Então alguém sugere: vamos contratar prostitutas virgens para sanar tudo. Não é possível, pois se contratar prostitutas virgens, no primeiro dia de trabalho elas vão se corromper.

Neste caso você vê que o problema está na instituição e não nas pessoas. Assim é com a política no Brasil. Se se trouxer os políticos suíços ao Brasil e colocar os políticos brasileiros na Suíça, os políticos brasileiros naquelas instituições serão honestos, e os políticos suíços se corromperão no Brasil.

MidiaNews – Pode citar um exemplo de como as nossas instituições políticas fragilizam a democracia?

Padre Paulo Ricardo – Claro. Veja, por exemplo, a concentração de poder que nós temos no executivo. As pessoas acham que a democracia acontece magicamente com o simples fato de as pessoas irem às urnas. Mas não é assim. A democracia acontece quando o poder é partilhado. Sendo assim, toda concentração de poder fragiliza a democracia. O nosso sistema político é um prato cheio para os ditadores de plantão. Coloque o governo de nosso país nas mãos de uma ideologia totalitária e a nossa frágil democracia estará com os seus dias contados. O executivo onipotente poderá comprar a tudo e a todos. A crise pela qual o país está passando foi causada pelas pessoas, mas, se tivéssemos instituições diferentes estas pessoas teriam menos poder e teriam sido barradas há mais tempo.

MidiaNews – E o que dizer do combate à corrupção?

Padre Paulo Ricardo – O combate à corrupção no Brasil é como enxugar gelo. Ou você põe a coisa dentro da geladeira ou você está perdendo tempo. Como é possível que um deputado federal tenha que praticamente fazer uma campanha de governador do Estado, ou seja, tem que correr o estado inteiro para ser eleito? Ora, essa pessoa só vai ser eleita se ela encontrar o patrocínio de grupos de interesse. E, portanto, não vai ser eleito para representar os interesses dos seus eleitores, mas daqueles que pagaram sua campanha. Isso é uma fragilidade democrática muito grande, porque essa instituição deixa de ser democrática.

Ouvi outro dia o testemunho de um diplomata da Inglaterra que atua aqui no Brasil. Ele disse que na Inglaterra não há corrupção como aqui no Brasil, porque lá eles fazem campanha como há 300 anos. “Nós batemos na porta das casas das pessoas, um deputado tem que fazer campanha no seu bairro, naquele distrito, e o seu povo sabe onde ele mora”. Há corpo a corpo, ele sabe que está representando seus eleitores, isso é que fortalece a democracia.

Para resolver a situação do Brasil é necessário, retomando a comparação do prostíbulo, fazer com que pessoas entrem na instituição e, quando elas forem procuradas para se prostituir, que elas tenham a força moral para se opor à prostituição com um “voto de castidade”. Vamos então colocar tanta gente com voto de castidade no prostíbulo que um belo dia possamos transformar o prostíbulo num Carmelo, ou seja, mudar a instituição a partir de dentro. Este é o desafio dos cidadãos honestos.

MidiaNews – Mas não é somente a instituição política que parece ter se corrompido. Como o senhor vê o alto índice de criminalidade no Brasil?

Padre Paulo Ricardo – Também aqui podemos falar de crise institucional. As nossas instituições educadoras não estão cumprindo o seu papel: a família, a Igreja e a escola.

Partamos do princípio de que não é possível colocar um guarda para cada cidadão. George Orwell escreveu um livro chamado “1984”, em que ele desmascara a a situação intolerável de um estado que queira controlar os seus cidadãos com um “Big Brother”. Não há outro caminho para resolver o grave problema da segurança pública a não ser educando as pessoas para a virtude. O rigor da lei punitiva, por definição, só pode ser aplicado a uma parte minoritária da população: os malfeitores. Caso contrário, estaremos transformando o país num presídio.

MidiaNews – Pelo que o senhor aponta a corrupção institucional é generalizada. Existe uma razão para isto?

Padre Paulo Ricardo – A base de nossa sociedade está na família onde todos nós nos sentimos verdadeiramente valorizados como pessoas. Nas outras instituições, como numa fábrica ou numa empresa, por exemplo, somos tratados como uma realidade descartável. Se eu não faço o meu trabalho, sou jogado fora e contratam outro no meu lugar. Na família não é assim, pois não somos descartáveis. Um pai de família continua sendo pai até depois de morto. No mundo atual o relacionamento familiar está desaparecendo para dar lugar aos relacionamentos descartáveis. As razões que explicam esta transformação são muito complexas, mas, curiosamente, encontram suas raízes tanto no marxismo como no capitalismo. Parece que os dois adversários históricos se abraçaram numa aliança maléfica contra a família.

MidiaNews – Mas a Igreja também não contribuiu para esta crise institucional? Refiro-me especificamente à crise brasileira. Por exemplo, a Igreja católica não está ligada à fundação do PT e ao petismo?

Padre Paulo Ricardo – A Igreja é uma destas instituições que deveriam funcionar como uma família, onde as pessoas não seriam descartáveis. Mas, infelizmente, a crise também tem deixado suas marcas entre os membros da Igreja. Quanto à relação da Igreja com o PT, a coisa tem uma explicação histórica um pouco mais complexa. Na época do regime militar, a Igreja católica era uma das poucas instituições a oferecer um refúgio aos dissidentes políticos. É claro que ali muitos encontraram um espaço de liberdade. Além do mais, na década de 70, houve um movimento chamado Teologia da Libertação, que promovia uma releitura de toda a teologia num prisma sociológico, muitas vezes de índole marxista. Esta vertente teológica teve o seu auge nas décadas de 1980 e 1990 – e depois perdeu sua “mordência” um pouco com a queda dos regimes comunistas no Leste Europeu. E, como todos os movimentos relacionados ao marxismo no mundo inteiro, se transformou em outras coisas. Hoje, esse jeito de pensar, dentro da Igreja Católica, se metamorfoseou em ecologismo, feminismo ideológico e companhia limitada.

MidiaNews – Segundo São Pio XII, todo católico que apoiar o comunismo ou o marxismo está excomungado automaticamente. O que dizer de alguém que votou e apoiou o PT no passado, mas que se arrependeu? Essa pessoa está verdadeiramente excomungada?

Padre Paulo Ricardo – Veja, sou canonista, portanto entendo bastante dessa coisa de excomunhão automática, que se chama canonicamente excomunhão latae sententiae, ou seja, uma sentença escondida, em que o juiz emite a sentença mesmo sem que ninguém saiba, mas se a pessoa tem consciência disso, ela sabe que há um juiz escondido que a excomungou. Para que haja essa excomunhão é necessário que a matéria dessa excomunhão seja muito clara e delimitada. Na época de Pio XII, o movimento comunista era uma realidade bastante clara e identificável.

Hoje, o marxismo é um pouco o clima cultural no qual vivemos. Então, para que uma pessoa seja excomungada por opiniões ou atitudes marxistas, ela precisa estar muito consciente de duas coisas: primeiro, que aquilo que ela está fazendo está claramente condenado pela Igreja. Segundo: mesmo assim ela tem que querer continuar na mesma atitude. Se não houver essas duas coisas, ou seja, plena consciência e pleno envolvimento, não se dá a excomunhão. Então, é muito difícil que no clima cultural atual, aconteça realmente essa excomunhão exatamente porque o objeto tornou-se bastante difuso. Seria necessária uma manifestação mais clara do magistério, adaptada à situação cultural atual, em que os papas dissessem com clareza quais são as atitudes passíveis de excomunhão. Seria desejável que houvesse pronunciamentos do magistério que esclarecessem como agir no atual clima cultural, pois há muitos elementos marxistas em tudo que as pessoas fazem, porque é a água na qual nós nadamos: o peixe nem nota mais a água.

MidiaNews – A Igreja não deve intervir na política?

Padre Paulo Ricardo – A forma de a Igreja atuar na política é através do cristão leigo. O clero tem a missão de iluminá-los com os princípios do Evangelho. Mas, ao contrário do islamismo, por exemplo, a Igreja não tem um projeto político. Ela tem princípios que iluminam a vida política. Mas a política é uma realidade eminentemente prática. Cabe a ela propor soluções a problemas concretos e com isto promover o bem comum. É exatamente porque a Igreja não tem uma fórmula universal para resolver os problemas políticos que a democracia só se tornou possível no Ocidente cristão. Foi onde o cristianismo se estabeleceu há séculos, que desapareceu o cabresto que atrelava a religião a um sistema político específico. Quando Jesus disse: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, ele inventou a desobediência civil e derrubou o totalitarismo do Império Romano.

Então, para ser um católico de verdade, temos que fazer aquilo que Jesus disse: “Buscai primeiro o reino de Deus, o reino dos céus, e tudo o mais vai ser acrescentado”. Isso quer dizer que, uma vez que busco o reinado de Deus no coração das pessoas, isso terá tremendas consequências políticas. Sonho com o dia em que teremos um Congresso Nacional com homens e mulheres tementes a Deus, com um profundo medo de ir para o inferno. Se isso acontecer, o país estará transformado. Não é necessário que eles tenham uma orientação política de direita ou esquerda, pois, iluminados pela luz do Evangelho, dentro daquilo que é a liberdade democrática, onde necessariamente haverá uma tendência para a direita e uma tendência para a esquerda, teremos instituições que, fortalecidas, aumentem nossa liberdade.

Para ler a entrevista completa, clique aqui.

 

 

(via MidiaNews)