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De Borges a Paz, o influxo latino-americano na Amoris laetitia

Vatican Insider - publicado em 14/04/16

Esta multiplicidade de citações já é uma marca registrada de Francisco

Uma homenagem a três grandes da literatura latino-americana: Octavio Paz, Mario Benedetti e Jorge Luis Borges. Francisco apelou às obras destes famosos autores para ilustrar a Amoris laetitia, sua mais recente exortação apostólica sobre a família. Recorreu à poesia e, com isso, dotou de realismo um documento eclesiástico destinado a ultrapassar as fronteiras da Igreja.

Nos 325 números e quase 270 páginas de sua edição em espanhol, A alegria do amor tem 391 notas. Referências previsíveis aos Padres da Igreja, teólogos medievais e modernos. Aos santos Leão Magno, Agostinho, Domingo, Roberto Bellarmino, João da Cruz e Inácio de Loyola. E Santo Tomás de Aquino, citado 19 vezes no total.

Também não são poucas as referências a documentos do magistério da Igreja, como a Familiaris consortio, de João Paulo II, a Deus caritas est, de Bento XVI, a Humanae vitae, de Paulo VI, Casti connubi, de Pio XI, e Mystici corpori, de Pio XII. Além do Catecismo da Igreja Católica e diversos escritos de Conferências Episcopais. Assim como aos religiosos Teresa de Lisieux e Antonin Sertillanges.

Mas algumas citações foram em outra direção. Com a presença de personagens inesperados como o ativista estadunidense Martin Luther King, o dramaturgo francês Gabriel Marcel, o filósofo de origem judaico-alemã Erich Fromm, além do pastor protestante e teólogo luterano inscrito na resistência antinazista Dietrich Bonhoeffer.

E um espaço especial tiveram as citações dos artistas latino-americanos. O Pontífice mencionou Borges no início do capítulo I intitulado “À luz da Palavra”. Aí tomou uma passagem do poema “Rua desconhecida”, parte do livro Fervor de Buenos Aires.

“As duas casas descritas por Jesus, construídas ora sobre a rocha, ora sobre a areia, representam muitas situações familiares, criadas pelas liberdades de seus membros, porque, como escrevia o poeta, ‘toda casa é um candelabro’”, indicou.

No capítulo quatro, dedicado ao “amor no matrimônio”, referenciou o ensaio “A dupla chama” do autor mexicano Octavio Paz. Abordando o tema da educação dos filhos, precisou: “A cortesia ‘é uma escola de sensibilidade e desinteresse’, que exige à pessoa ‘cultivar sua mente e seus sentidos, aprender a sentir, falar e, em certos momentos’, a calar”.

Ao passo que do poeta e dramaturgo uruguaio, Mario Benedetti, Bergoglio tomou diretamente uma passagem de sua famosa poesia “Te quero”: “Tuas mãos são minha carícia, meus acordes cotidianos, te quero porque tuas mãos trabalham pela justiça. Se te quero é porque és meu amor, meu cúmplice e tudo e na rua lado a lado somos muito mais que dois”.

O impacto latino-americano também se notou em alguns documentos de conferências episcopais citados na exortação. Embora o Papa também tenha tomado reflexões de bispos da Espanha, Coreia, Austrália, Itália e Quênia. Mas outras tantas notas vieram de textos latino-americanos. O mais importante deles é o documento final da assembleia continental de Aparecida, em 2007.

“Notamos graves consequências desta ruptura em famílias destroçadas, filhos desarraigados, idosos abandonados, crianças órfãs de pais vivos, adolescentes e jovens desorientados e sem regras”, indicaram os bispos argentinos em sua “Navega mar adentro”, de 2003. “A violência intrafamiliar é escola de ressentimento e ódio nas relações humanas básicas”, disseram os prelados do México com seu “Em Cristo, a nossa paz, o México tenha vida digna”, de 2009. E “libertar em nós as energias da esperança traduzindo-as em sonhos proféticos, ações transformadoras e imaginação da caridade”, indicaram os colombianos, em um texto de 2003. Também houve lugar para a citação de “A vida e a família: dádivas de Deus para cada um de nós”, da Conferência Episcopal do Chile (2014).

Esta multiplicidade de citações já é uma marca registrada de Francisco. Incluiu-as na exortação Evangelii gaudium e na encíclica Laudato si’. Agora, em Amoris laetitia também falou de uma cena do filme “A festa de Babette”, que ele mesmo disse várias vezes que recorda com apreço.

O Papa ficou impactado com o personagem da generosa cozinheira que recebe um abraço agradecido e um elogio: “Como deleitarás os anjos”! Diante desta frase, o líder católico não duvidou em escrever: “É doce e reconfortante a alegria de provocar deleite nos outros, de vê-los desfrutar. Esse gozo, efeito do amor fraterno, não é o da vaidade de quem se olha a si mesmo, mas o do amante que se compraz no bem do ser amado, que se derrama no outro e se torna fecundo nele”.

Por Andrés Beltramo Álvarez, de Vatican Insider

(Vatican Insider)

(IHU)

Tags:
FamíliaLiteraturaPapa Francisco

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