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O papa Francisco fez bem ao trazer da Grécia aquelas famílias muçulmanas?

Ary Waldir Ramos Díaz - Aleteia Brasil - publicado em 20/04/16

Após a visita do papa aos refugiados na ilha de Lesbos, um sacerdote responde a um jovem voluntário da sua paróquia que estava furioso…

Muitos criticaram o gesto do papa Francisco de trazer consigo no avião, ao voltar da viagem à ilha grega de Lesbos, três famílias muçulmanas.

Houve, como tem sido frequente, quem considerasse o gesto uma profunda ofensa e tachasse de insensível o apoio do Vaticano a essas famílias islâmicas diante da abominável situação de perseguição e martírio sofrida pelos cristãos iraquianos e sírios.

Não deveria ser preciso recordar que o mesmo papa já deu abrigo, dentro do Vaticano, a duas famílias cristãs refugiadas – sem contar as inúmeras que têm sido acolhidas em conventos, mosteiros, paróquias e colégios católicos de dezenas de países e centenas de cidades. Nem deveria ser preciso lembrar que a Santa Sé ajuda continuamente os cristãos do Oriente Médio com recursos materiais e espirituais, fornecidos por meio de freiras, religiosos, padres, bispos e leigos que arriscam a vida, todos os dias, nos locais em guerra, para ajudar de todas as formas possíveis as vítimas de tanta e tão irracional violência – sejam vítimas cristãs ou não.

Este novo gesto profético do papa Francisco se volta principalmente a um Ocidente cada vez mais insensível e mais covarde ao se escorar em diferenças étnicas e religiosas para tentar justificar o fechamento das suas fronteiras diante de uma horda de refugiados de guerra. Se o próprio líder humano da Igreja católica alberga refugiados de outra religião, que desculpa o Ocidente ainda pode dar?

Os mais velhos, muito cristãmente, cunharam o adágio “fazer o bem sem olhar a quem”. E os refugiados, muito além de números em relatórios ou dados estatísticos em listas de religiões do mundo, são pessoas. Eles têm nome, história, alma e, neste momento preciso, urgente necessidade de socorro.

Um jovem voluntário, católico, muito comprometido na Igreja em levantar fundos para ajudar os cristãos perseguidos no mundo todo, perguntou indignado ao seu pároco, o padre Damián:

“Padre, o papa Francisco fez bem ao trazer da Grécia aquelas famílias muçulmanas? E os cristãos perseguidos, como é que ficam? Será que eles não mereciam muito mais ajuda dos outros cristãos?”.

O sacerdote lhe narrou então uma história como resposta:

Contam que uma tempestade descomunal atingiu certa vez um arquipélago de pescadores. As famílias, de várias religiões, ficaram gritando desesperadas por ajuda em cima dos tetos frágeis de suas cabanas e casebres, que, feitos de bambu e cobertos de palha, resistiriam muito pouco à inclemência da natureza.

Um pescador cristão resolveu pegar o seu barco e desafiar a tormenta para tentar salvar seus irmãos nas ilhas próximas. Ele sabia que não poderia salvar a todos, mas queria salvar todos os que pudesse.

Encontrou assim uma família arrastada pelas ondas e agarrada a destroços, e perguntou ao pai, que lutava contra as forças do mar para manter sobre a superfície um menino de colo:

“Irmão, és cristão?”

Com o ímpeto retumbante do mar que mal deixava ouvir qualquer outro som, voltou a levantar a voz:

“És cristão?”

O pai, desesperado, mal podia balbuciar resposta enquanto a água já invadia a sua garganta. Suas forças desfaleciam na tentativa sobre-humana de salvar o bebê. Em poucos segundos, ambos desapareceram, tragados pela tragédia.

O pescador viu então que uma mulher, agarrada a outros pedaços de madeira, mergulhou sem pensar duas vezes na tentativa louca de salvar o seu pequeno e o marido, para não voltar mais a emergir.

De repente, uma onda surpreendeu o pescador, virou o seu barco e os remos o atingiram na cabeça. O pescador começava a se afogar quando uma luz vinda dos céus se abriu e uma voz de trovão lhe perguntou:

“És cristão?”

Aturdido pelo golpe dos remos e pelo terror em forma de ondas gigantescas, o pescador gritou com todas as forças:

“Sim, Senhor, sou cristão! Sou cristão, Senhor!”

E a voz do céu retumbou sobre a sua cabeça:

“Por que não salvaste os teus irmãos e deixaste que eles se afogassem?”

Outra pequena embarcação rompeu então as ondas para livrar o pobre homem do perigo iminente. A mão calejada de um marujo o puxou quase pelos cabelos para salvá-lo da morte certa.

“És um bom cristão! Foi nosso Senhor quem te mandou”, disse-lhe o pescador, ofegante, assim que pôde falar. O homem de barba espessa olhou com surpresa para ele: “Eu não sou cristão”.

E acrescentou:

“Mas tenho certeza de que qualquer cristão teria feito o mesmo por mim”.

O jovem voluntário da paróquia tinha na ponta da língua uma sofisticada gama de argumentos muito “racionais” para retrucar ao padre Damián, mas, no fundo, bem no fundo, ele sabia que nenhuma daquelas elaboradas tentativas de negar o cristianismo real em nome de um cristianismo meramente “cultural” poderia jamais justificar nenhuma ideologia sócio-política disfarçada de cristianismo.

As palavras do próprio Cristo sobre o amor aos inimigos e sobre o Pai que faz chover para justos e injustos estavam acima dos discursos ideológicos de quem é “cristão” apenas da boca para fora – assim como as palavras do mesmo Cristo sobre os fariseus hipócritas, sepulcros caiados repletos de podridão, que pregam o que não vivem e apontam seus dedos condenatórios para aqueles que vivem uma fé que eles apenas aparentam; assim como as palavras de Cristo sobre aqueles que dizem “Senhor, Senhor”, mas não cumprem os seus mandamentos; ou como as palavras de Cristo sobre aqueles que, no dia do juízo, ouvirão da sua própria boca: “Tive fome e não me destes de comer… Estive nu e não me vestistes… No cárcere, e não me visitastes…”.

O jovem ficou mudo. O Evangelho estava acima dos textos “sócio-político-culturais” de tantos e tantos “advogados do cristianismo” que, na prática, encarnavam a negação da própria essência do cristianismo: o amor até a morte, e morte de cruz.

O pe. Damián o abraçou e lhe disse baixinho:

“Lembra-te sempre do bom samaritano”.

Afinal, se de fato estamos tão preocupados com o futuro do cristianismo quanto dizemos estar, SEJAMOS cristãos. E, a exemplo dos primeiros cristãos, que davam a vida neste mundo para ser dignos da vida eterna com Deus, convertamos os inimigos não com discursos – mas com ORAÇÃO E TESTEMUNHO.

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CristianismohipocrisiaIgrejaMuçulmanosPapa FranciscoValores
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