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Liberar os jogos de azar no Brasil? O impacto social seria desastroso

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Começa a levantar-se a hipótese de liberar cassinos no país. Veja por que esta ideia é péssima.

Quando a crise é longa e a falta de competência para superá-la é maior que a própria crise, surgem na cartola dos “magos do governo” as mais desvairadas “ideias salvadoras”. Ainda pelas beiradas, sem muito alarde, começam a surgir cá e lá, mídia afora, breves notinhas sobre a “possibilidade” de se liberar o jogo de azar no Brasil.

A tentação dos governos de adotar essa medida se baseia na perspectiva de lucrar com os impostos do setor, além de gerar empregos e incentivar investimentos. Fantasia-se que o resultado serão exuberantes avenidas repletas de luzes piscantes, como em Las Vegas, mas não se pensa que, muito possivelmente, poderá haver um retorno incomparavelmente mais modesto, mais semelhante ao colhido em Puerto Iguazú – até porque a economia da diversão adulta em Las Vegas vai muito além de apenas liberar cassinos.

Aposta perdida

Pode haver, de qualquer forma, benefícios econômicos locais no curto prazo quando se abre um cassino. Mas eles não tardam a ceder espaço a impactantes custos sociais difíceis de quantificar. Na também americana Atlantic City, por exemplo, a publicidade anunciava os cassinos, quando eles foram autorizados, como “investimentos que melhorariam a economia local”. Quase 50 anos depois, mesmo com subsídios do governo federal, Atlantic City “continua sendo uma cidade economicamente atrasada”, como destacam relatórios dos anos mais recentes. Pequeno exemplo: os 242 restaurantes e bares que existiam na cidade em 1977 se reduziram a 142 em apenas vinte anos a partir da liberação dos cassinos. Atlantic City se tornou muito mais famosa pela decadência e pela criminalidade do que pela exuberância de um suposto paraíso adulto.

A tendência geral é que o impacto social negativo do jogo exceda em muito os lucros esperados pelo fisco.

Os dados mais recentes não alteraram os que já tinham sido apresentados na abrangente pesquisa “Por que os cassinos são um problema: 31 provas embasadas nas ciências sociais e da saúde”, publicada no final de 2013 pelo Conselho de Cassinos dos Estados Unidos, um grupo independente de especialistas consultados pelo nova-iorquino Instituto de Valores Americanos.

A liberação dos cassinos nos EUA e a mudança no perfil do público

Até 1990, só Las Vegas e Atlantic City possuíam cassinos legais nos Estados Unidos. De lá para cá, já existem cassinos em 23 dos 50 Estados da federação.

Seu “estilo” também mudou: se antes os cassinos dependiam de grandes apostadores, agora eles estão de olho nos jogadores pequenos e médios, que apostam em máquinas caça-níqueis. Trata-se de jogadores valiosos: eles tendem a voltar a jogar muitas vezes. Não é à toa que, entre 1991 e 2010, o número de máquinas caça-níqueis nos EUA passou de 184.000 para 947.000, respondendo hoje por 62% a 80% de toda a receita dos cassinos no país.

Acontece que, segundo o relatório-referência do final de 2013, os caça-níqueis “são programados para apostas contínuas, rápidas e repetidas”. Um servidor central recolhe informações sobre as preferências do jogador e programa cada máquina para um determinado estilo de jogo, voltado a “fazer os apostadores jogarem mais – e perderem mais”.

O relatório destaca ainda que as pessoas cuja primeira experiência com os jogos de azar é nas máquinas caça-níqueis apresentam chances maiores de cair na dependência: cerca de metade das pessoas que apostam em caça-níqueis apresentam sintomas de vício na jogatina.

Consequências do vício

Além dos problemas financeiros, os cônjuges de jogadores patológicos correm alto risco de sofrer violência doméstica, afirma o relatório, ressaltando ainda que os viciados em jogo são altamente propensos a se divorciar. Seus filhos também sofrem, inclusive financeiramente, porque a instabilidade econômica da família os priva com frequência das chances de fazer uma faculdade ou mesmo de tirar férias.

Os defensores dos cassinos costumam alegar que promovem lazer e entretenimento para cidadãos que gostam de jogar “apenas ocasionalmente”. Entretanto, as pesquisas demonstram, reiteradamente, que a receita dos cassinos vem muito mais dos jogadores patológicos, com quem a indústria do jogo “lucra de modo desproporcional”. As fontes variam, mas, na média, indicam que de 33% a mais de 50% das receitas totais dos cassinos são geradas pelos jogadores patológicos, enquanto os jogadores casuais, que formam 75% do total de apostadores, fornecem apenas 4% do lucro final do setor.

Da ilusão à tragédia

O jogo se baseia, em resumidas contas, numa ilusão que seduz em especial os mais desesperados: a da “solução rápida” para os problemas financeiros.

O problema é que, quando já se está com a corda no pescoço por causa de decisões financeiras equivocadas, deixar que a “sorte” tome as próximas decisões equivale, com alta probabilidade, a terminar de apertar o nó.

Que o digam os inveterados adeptos semanais da “fezinha” nas loterias e no clandestino jogo do bicho. Será mesmo que é de cassino que eles precisam?

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