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Atração turística inusitada ganha força na badalada Florianópolis: uma casa de retiros!

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Aleteia Brasil - publicado em 17/05/16

E ela está completando 60 anos de intensa atividade entre a comunidade local

A partir desta matéria, Aleteia vai apresentar obras materiais da Igreja que se tornaram altamente relevantes tanto para a vida espiritual dos fiéis quanto para o progresso humano das comunidades ao seu redor. Por estar de aniversário (60 anos!), a primeira obra desta série é a Casa de Retiros Vila Fátima, em Florianópolis.

Com mais de quarenta praias que variam entre o urbano e o selvagem, além de laguna, lagoa, mangue, mata, dunas, morros, trilhas e mirantes de tirar o fôlego, charmosos bairros históricos, gastronomia típica e casas noturnas badaladas, Florianópolis ainda oferece entre as suas muitas atrações uma que é um tanto inusitada para um contexto praiano e festivo: uma casa de retiros, que acaba de completar 60 anos de atividade.

Também chamada carinhosamente de “convento” ou “seminário” pelos locais, a Casa de Retiros Vila Fátima se ergue no topo do Morro das Pedras, entre o mar e a Lagoa do Peri, no sul da Ilha de Santa Catarina.

A obra é iniciativa da Companhia de Jesus. Os padres jesuítas chegaram por volta de 1748 a Florianópolis, que, na época, ainda se chamava Desterro. Além de missionários e catequistas, os padres foram alfabetizadores e educadores da comunidade, tarefa para a qual estabeleceram, ainda no século XVIII, a primeira instituição de ensino de Santa Catarina: o Colégio de Nossa Senhora do Desterro.

As instalações, no centro da vila que já começava a crescer consideravelmente no começo dos anos 1900, passaram a ser pouco propícias para o recolhimento espiritual. Os jesuítas trataram de procurar outro local, mas foi só em 1946 que o então reitor do colégio, pe. Alfredo Rohr, encontrou um lugar que considerou adequado para construir uma nova casa de retiros: “…um sítio que tem muitas vantagens (…) Fica entre o mar grosso e a Lagoa do Peri (…) Abrange parte de planície e parte de morro (…) Tem estrada, linha de ônibus, água suficiente, porque a Lagoa do Peri é de água doce”.

A compra do terreno abriu um novo capítulo não só na história dos jesuítas em Santa Catarina, mas na da própria comunidade local, já que a construção da casa de retiros começou a impulsionar o crescimento do bairro e a boa relação entre os moradores e os padres, que perdura até hoje.

O antigo aglomerado de casinhas que havia então no local era habitado principalmente por moradores muito pobres: alguns pescadores, outros pequenos agricultores de subsistência. As obras da grande casa de pedra no alto do morro trouxeram mestres, pedreiros e serventes que, em sua maioria, descendiam de italianos estabelecidos em Nova Trento, no Sul do Estado. Eles dominavam as técnicas da edificação e ensinavam o ofício aos trabalhadores locais, levando assim a pequena vila a progredir. E o trabalho não era pouco: além de terem que despedaçar com pólvora as pedras do próprio morro, eles precisaram transportar pelo mar mais de 100 mil tijolos – apenas para começar a construção.

A comunidade na época não tinha água encanada, nem energia elétrica, nem escola. Um ônibus de transporte público passava uma vez por semana. A estrada de acesso ao casario era precária. Durante a construção da casa de retiros, foi aberta pelos operários uma nova estrada, que, elevada a rodovia, é usada até hoje, entre o morro e o mar. Um dos operários, José Lino, criou e implantou o sistema de encanamento que leva a água doce da Lagoa do Peri até o alto do morro – sistema que, passadas seis décadas, continua funcionando perfeitamente. Aliás, “seu” José Lino é um célebre personagem do agora bairro Morro das Pedras, comunidade da qual ele nunca mais quis sair. Foi ali que ele criou, com a esposa, os nove filhos e o primeiro dos 18 netos, além de ver nascerem e crescerem os 15 bisnetos e estar agora à espera do primeiro tataraneto. “Já estou fazendo hora extra na terra”, diz ele, “mas, enquanto Deus me permitir, fico por aqui”.

José Lino recorda com grande carinho a Irmã Pulchéria, hoje com 97 anos e retirada em outra casa, no bairro da Trindade. Ela foi uma das freiras mais envolvidas com o serviço à população local: tanto ela visitava e ajudava as famílias em seus casebres quanto as famílias subiam o morro para buscar ajuda material e espiritual junto às freiras e aos padres.

Nas primeiras décadas após a fundação da casa de retiros, eram as freiras da Ordem da Divina Providência que cuidavam da casa e da comunidade. E cuidavam na prática e nas coisas do dia-a-dia, o que incluía desde ensinar as mulheres a fazerem chás medicinais e pão até aplicar injeções nos doentes. Além dessas irmãs, também passaram pela casa de pedra as religiosas Franciscanas de São José e as Pequenas Missionárias, dividindo com os jesuítas a missão da assistência social e os cuidados da casa.

Inicialmente construída para os retiros de estudantes, professores e padres do Colégio Catarinense, antigo Colégio de Nossa Senhora do Desterro, a casa de pedra foi estendendo o seu “leque de atividades” ao público em geral. O contato permanente com o cotidiano real das pessoas fez com que a Vila Fátima não apenas abrisse as suas portas para a comunidade assistir à missa dominical, mas também para que empresas, atualmente, usem suas instalações para dar cursos e capacitações a seus funcionários. A casa funciona ainda como hotel familiar na temporada de verão e, atenta ao diálogo entre as diferentes crenças e religiões, abriga também retiros de grupos não católicos, promovendo a aproximação em vez do afastamento das pessoas com outras filosofias de vida.

É uma casa, enfim, construída sobre rocha e aberta a todos os que queiram conhecer a sua história de transformação – interna e externa.

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