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Propaganda do EI estimula ação de pessoas 'desajustadas'

AFP

<p>Supostos cristãos etíopes capturados pelo grupo Estado Islâmico, em captura de tela de vídeo divulgado por mídias jihadistas, no dia 19 de abril de 2015</p>

Agências de Notícias - publicado em 23/05/16

O número crescente de pessoas com transtornos mentais e diferentes tipos de desequilíbrios cometendo ações violentas aos gritos de “Allah Akbar!” se deve, em parte, ao fato de esses indivíduos se deixarem influenciar, facilmente, pela atualidade e pelo contexto social – consideram especialistas consultados pela AFP.

Em 10 de maio passado, um alemão de 27 anos esfaqueou quatro pessoas perto de Munique, causando a morte de uma delas. Depois do interrogatório, as autoridades disseram se tratar de um “desequilibrado”, que não agiu movido por objetivos extremistas.

Nos últimos meses, esse tipo de ataque isolado se multiplicou na Europa.

Nesses indivíduos, “os delírios sempre se adaptaram. Cada vez que a sociedade evolui, os delírios evoluem”, explica à AFP o especialista em Psiquiatria Daniel Zagury.

“Delírios místicos sempre existiram. Com frequência, são os mais perigosos (…) É gente que moldou seus delírios à atualidade. Hoje, ‘Allah é grande’ é o que dá um sentido místico e messiânico a seus atos”, acrescentou.

“Por isso, há tipos que investem seu carro contra a multidão, ou esfaqueiam desconhecidos, porque a atualidade alimenta sua esquizofrenia, seus ataques delirantes…”, completa o especialista.

É preciso evitar, porém, o abuso do termo “desequilibrado”. Nos casos de ações extremistas, há poucos doentes mentais, apenas cerca de 10%, estima Zagury.

Os outros são “pequenos delinquentes de cabeça vazia, com uma primeira vida de drogas, de contrabando e, na segunda, lavam a primeira com um Islã radical; ou ainda, os mais perigosos, gente estritamente normal com um compromisso ideológico, sem passado na criminalidade, às vezes com estudo, muito determinados”.

‘Um Allah mais vingativo'”Um delírio é algo que dá sentido à existência, quando você já não tem”, comentou Zagury, que analisou vários desses radicais.

Para a psicóloga clínica Amélie Boukhobza, o problema está “em chegar a um acordo sobre o termo ‘desequilibrado’, porque uma pessoa pode ser próxima do movimento islamita radical e também ter problemas psiquiátricos”.

“Atualmente, a onipresença do Daesh [acrônimo em árabe do EI] nos meios de comunicação pode influir nos mais desequilibrados. De forma geral, nos delírios psiquiátricos, Deus costuma estar presente. Um Deus bom, ou mau. Com a amplitude que o fenômeno Daesh adquire, Deus pode ser substituído por Allah. Um Allah mais presente e vingativo”, acrescentou Boukhobza.

“Seria interessante lançar um estudo científico, com um registro de todos os casos. Com frequência, tendemos a dizer que se trata de desequilibrados, mas teria de fazer um estudo de verdade. Cada caso é particular”, reforçou.

O grupo EI já entendeu muito bem que pode tirar proveito de seus incessantes apelos à ação contra os “ímpios”, afirma o psicólogo Patrick Amoyel.

“Sabem que, quanto mais ocuparem o espaço midiático, mais eco terão entre a população de fácil radicalização, ou entre os psicopáticos. Representam a antissociedade, o anti-Ocidente. Isso pode canalizar uma radicalidade social sem passar, necessariamente, por uma [radicalidade] política e religiosa”, disse Amoyel.

“Estão os que sabem o que fazem, que o fazem com conhecimento de causa. São os verdadeiros terroristas”, alegou.

Também há “os que têm psicopatologias de passagem para a ação” e, nesses casos, as palavras de ordem do EI podem fazê-los agir, advertiu o psicólogo.

(AFP)

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