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Observar, rezar, esperar

Agências de Notícias - publicado em 27/06/16

As Igrejas ortodoxas já tinham organizado muitos sínodos desde que se separaram da Igreja Católica, mas nunca tinham realizado um concílio pan-ortodoxo

Para muitos cristãos ocidentais, o concílio pan-ortodoxo realizado em Creta ao longo da última semana é uma dessas reviravoltas da história que nos leva a pensar nos “sinais dos tempos”.

Um concílio é algo relativamente raro. A Igreja Católica já realizou 21 concílios ecumênicos, desde Niceia, em 325, ao Vaticano II, em 1962. Os primeiros sete ocorreram durante o primeiro milênio e estabeleceram a “fé ortodoxa” acerca de Jesus Cristo, Deus verdadeiro e homem verdadeiro, na unidade da pessoa do Verbo. Algumas Igrejas antigas não participaram de todos esses encontros, ou não aceitaram as decisões conciliares, sendo por isso consideradas “heterodoxas”. No entanto, uma parcela significativa de Igrejas “ortodoxas” do Oriente se afastou do Papa em 1054. Mesmo sendo Igrejas “apostólicas”, isto é, que conservam a tradição dos Apóstolos, perderam sua “catolicidade”, romperam com a cabeça da Igreja universal, isolando-se em seus territórios. Diferentemente da Igreja Católica, cuja jurisdição global cabe ao bispo de Roma, as Igrejas ortodoxas são Igrejas nacionais lideradas por patriarcas, bispos primazes, cujo poder se estende às fronteiras de seus países. Assim, os bispos locais geralmente dependem de algum Patriarca (de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla, Moscou, etc.), embora também existam Igrejas independentes (autocéfalas).

As Igrejas ortodoxas já tinham organizado muitos sínodos desde que se separaram da Igreja Católica, mas nunca tinham realizado um concílio pan-ortodoxo. O projeto durou mais de 50 anos, e o sonho tão acalentado pelo Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, veio a se concretizar apenas em 2016. Os trabalhos conciliares contemplaram temas importantes, tanto para a organização interna das Igrejas ortodoxas (autonomia e diáspora, ecumenismo e missão), quanto para os seus fiéis (a prática do jejum e as leis do matrimônio). Infelizmente, o Concílio ocorreu com a ausência de importantes Igrejas, entre elas a Russa. Apesar de o Patriarca de Constantinopla ser tradicionalmente considerado o mais importante do Oriente, o Patriarca de Moscou, Kirill, acaba sendo o mais influente, pois sua autoridade abrange não só a Rússia, mas os antigos países da União Soviética, a China e o Japão. Os motivos da falta de adesão são diversos, mas evidenciam um grande racha no seio das próprias Igrejas ortodoxas, que têm grande dificuldade em reconhecer a autoridade de uma sobre as outras.

A questão da primazia pode ser explicada a partir da velha expressão latina primus inter pares (“o primeiro entre os iguais”). Um bispo é igual a outro bispo, mas um pode ter mais autoridade do que outro. Quem frisa o primeiro membro da expressão (primus) tende a transformar o Patriarca em um todo-poderoso; quem frisa o segundo membro (pares) tende a diluir qualquer hierarquia. Se os ortodoxos conseguirem equacionar esse dilema, terão mais facilidade para entender a missão do sucessor de Pedro, o bispo de Roma, titular da primeira entre todas as Igrejas. A unidade dos cristãos, mais do que depender de uma coalização política, depende de que cada um saiba abrir mão do próprio espírito de preservação. É inútil caminhar como autossuficientes nas estradas da história. Faz falta trabalhar juntos para sermos mais fortes. Muitas Igrejas orientais perceberam isso e o Concílio pan-ortodoxo foi um laboratório de unidade, uma tentativa de criar um diálogo mais robusto. Mesmo com as ausências, o movimento ecumênico produzido foi importantíssimo, pois ajuda essas Igrejas a superarem o perigo do partidarismo: o de se transformarem em uma “denominação” ou em uma “seita”. “Denominação” é a falsa ideia de que o cristianismo admite modalidades alternativas; “seita” é a satisfação do isolamento, da separação e do complexo de superioridade.

A verdadeira ortodoxia reclama a catolicidade, ou seja, abertura, diálogo, universalidade. Como dizia Santo Ireneu, “onde está a Igreja, ali está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus, ali estão a Igreja e toda a graça, pois o Espírito é a verdade” (Adversus hæreses III, 24, 1). Por isso, cabe aos católicos não apenas observar de fora, mas também rezar e esperar, sabendo que a unidade, grande desejo do Coração Misericordioso de Jesus, é um dom que só o Espírito pode dar à Igreja.

João Carlos Nara Júnior é arquiteto e urbanista, arqueólogo e historiador.
Trabalha na Coordenação de Preservação de Imóveis Tombados do Escritório Técnico da UFRJ
e é membro do Laboratório de História das Experiências Religiosas do Instituto de História da UFRJ

(Via: Projeto Comunicação Aberta – Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP)

Tags:
EcumenismoIgrejaReligião
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