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Ou viva intensamente ou morra: o problema do filme “Me Before You” (‘Como Eu Era Antes de Você’)

Actress Emilia Clarke playing Louisa Clark and actor Sam Clafin playing William Traynor in Me Before You, 2016. Photo courtesy of Warner Bros. Pictures
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Depois de assistir à adaptação cinematográfica do livro de Jojo Moyes, Como Eu Era Antes de Você, eu deixei o cinema profundamente perturbada

 

ALERTA DE SPOILER: Se você planeja ler o romance Como Eu Era Antes de Você ou ver o filme recém-lançado baseado no livro, advirto aqui que este artigo está cheio de estraga prazeres. (Além disso, também fala dos filmes The Fault in Our Stars – A Culpa É das Estrelas e The Diving Bell and the Butterfly – O Escafandro e a Borboleta).

Na semana passada, eu levei a minha filha de 16 anos para comemorar o fim do período escolar. Fomos ao cinema, e eu não tinha ouvido falar do filme que ela tinha escolhido, mas achava que seria uma comédia romântica. Quase duas horas mais tarde, depois de ficar encantada com as atuações dos atores e grande parte da história, eu deixei o cinema profundamente perturbada com o filme Como Eu Era Antes de Você.

O enredo é algo assim:

Era uma vez em uma terra distante (hoje em dia na Inglaterra), um jovem príncipe rico (ok, ele é um homem de negócios), chamado Will Traynor, é atingido por uma motocicleta enquanto atravessava a rua. O ex-atleta e grande realizador (interpretado pelo galã adolescente Sam Claflin, do famoso The Hunger Games – Jogos Vorazes) fica tetraplégico. Nós o encontramos dois anos depois do acidente morando no castelo de sua família (sim, um verdadeiro castelo) em um belo anexo equipado com portas largas, rampas, equipamentos médicos e outras tecnologias adequadas às suas necessidades. Sua família é excepcionalmente rica e não poupa gastos com seus cuidados. Desde o acidente, o nosso belo príncipe Will deixa sua amargura (assim como seu cabelo) crescer de forma selvagem. Ele passa a maior parte do seu tempo sozinho em uma sala, falando apenas com uma enfermeira e com seus pais.

ME BEFORE YOU
Actress Emilia Clarke playing Louisa Clark in Me Before You. Photo courtesy of Warner Bros. Pictures

Nós, então, conhecemos Louisa Clark (interpretada pela atriz Emilia Clarke, de Game of Thrones), contratada pela mãe de Will para lhe fazer companhia e trazer um pouco de alegria. Quando Louisa entra no castelo, meu cérebro recordou o conto de fadas A Bela e a Fera – ela sendo a Bela e Will a Fera. A Fera, com cabelo comprido e barba, que meditava solitário e maltratava as pessoas que o serviam.

Claflin e Clarke têm uma encantadora química juntos

Louisa Clark é encantadora. Ela é maravilhosamente infantil não só na sua transparência emocional, mas nas escolhas de suas roupas, que incluem macacões, mini-saias e blusas enfeitadas com corações e borboletas. Clark, como é no caso da Bela do conto de fadas, vem de uma família pobre, mas amorosa, que vive na aldeia abaixo do castelo. Seu trabalho de cuidar da Fera proporciona uma renda muito necessária para a família, por isso, apesar da rejeição inicial de Will e seu rancor com tudo, ela fielmente – e agradavelmente – aparece para trabalhar todos os dias.

Você sabe o que acontece a seguir, certo?

Sim, eles se apaixonam. A Fera permite que a Bela faça sua barba e corte seu cabelo. O cinismo de Will começa a amolecer. Eles dançam em um baile (na verdade, um casamento). Louisa mostra-se forte e resistente. O ator e a atriz têm uma encantadora química juntos e tudo é redenção e luz – até que descobrirmos que Will tem a intenção de acabar com a sua vida em um centro de suicídio assistido na Suíça.

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In Me Before You Louisa Clark tends to William Traynor (actor Sam Clafin). Photo courtesy of Warner Bros. Pictures

Seus pais sabem de seus planos; a contratação de Louisa foi um último esforço para mostrar a Will que realmente vale a pena viver. No entanto, após umas bem-aventuradas férias tropicais, Will diz a Louisa que ninguém o convencerá de não cometer suicídio. Mesmo Louisa proclamando seu amor por ele, dizendo que preferia estar com ele do que com qualquer outra pessoa no mundo, Will explica que ele não pode aceitar “o novo eu”. Os pais de Will são sombrios, mas respeitam sua escolha.

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The final scene of Me Before You is set in Paris. Photo courtesy of Warner Bros. Pictures

Após sua morte, Louisa se senta em um café em Paris, lendo a carta que Will (que perdeu a vontade de viver) deixou para ela. Na carta ele diz para ela “viver intensamente” e que lhe deixou uma quantidade substancial de dinheiro. Ao ler a carta, Louisa parece nobre e triste, mas, em seguida – vestindo as calças que ela ganhou dele de presente de aniversário – ela se levanta e marcha para seu futuro.

Fim.

Sair do cinema após ‘Como Eu Era Antes de Você’, cercada por meninas adolescentes limpando seus olhos, me deixou profundamente perturbada”

Desde o filme A Culpa É das Estrelas – um filme muito diferente sobre amor e incapacidade – eu havia visto tanta emoção numa sala de cinema. Os jovens apaixonados na história de John Green fizeram tudo para viver, apesar das intervenções médicas invasivas e da dor que experimentaram. E quando Hazel descobre que está perdendo seu amado Augustus, há cenas dolorosas. Ela não simplesmente dobra uma carta e olha para frente. Ela desaba. Ela chora. Ela luta contra esta tragédia. Sair do cinema após Como Eu Era Antes de Você, cercada por meninas adolescentes limpando os olhos, discutindo sobre a boa aparência de Sam Claflin e como o filme era triste, me deixou profundamente perturbada.

Será que um romance bonito como este tem o direito de mergulhar em águas tão complicadas sobre a ética?

O que este filme realmente quer dizer?

É a mensagem de que é melhor morrer do que viver com a dor física e a limitação?

Will diz a Louisa para “viver imensamente” – Espere? Então, as pessoas sem deficiência deveriam viver uma vida plena, mas as pessoas com deficiência deveriam se matar?

Viver com uma deficiência é uma tragédia?

Eu me perguntava se estava pensando demais sobre o filme, mas, dias mais tarde, eu ainda não conseguia acalmar as perguntas que o filme levantou em minha mente. Estendi a mão para Ellen Dollar Painter, uma amiga que tem deficiência e dor crônica e escreve eloquentemente sobre fé, deficiência e ética. Embora ela tenha escolhido não ver o filme, Ellen leu o romance no qual ele se baseia.

Ellen, também, estava profundamente preocupada com a história de Como Eu Era Antes de Você e me disse que muitos defensores da deficiência falaram sobre o romance e o filme. Ela me dirigiu a um vídeo chamado “Live On: Disabled Lives are Worth Living, um anúncio de serviço público feito em resposta ao filme Como Eu Era Antes de Você e a outros filmes que retratam a vida das pessoas com deficiência. O vídeo termina com uma amorosa mensagem para as pessoas com deficiência e depressão: chame a prevenção do suicídio. Obtenha ajuda.

“Ninguém está negando que o tipo de deficiência que o personagem principal de Como Eu Era Antes de Você tem é devastadora e difícil”, Ellen me disse. “É natural e humano lamentar a perda da independência, o aumento da dor, o isolamento e o desafio físico de viver com uma condição debilitante. Mas a mensagem desta história vai muito além da normal resposta humana à dor e à perda. Esta história nos diz que um tetraplégico não é mais uma pessoa real, uma pessoa completa”.

E Ellen não é a única a falar sobre mensagens perturbadoras do filme. O autor Francesco Clark, que escreveu Walking Papers, um livro de memórias sobre sua vida após uma lesão medular grave, também tem desprezo pelo filme – é que seu livro foi referenciado no filme sem o seu consentimento. “Eu tenho trabalhado incansavelmente para mostrar às pessoas que ser tetraplégico não é o fim de sua vida, é um novo começo”, disse ele. “Enquanto eu sou contra a questão do suicídio assistido, sinto-me compelido a expressar que eu estou com raiva de ser involuntariamente associado a um enredo que sugere que a única opção para aqueles que sofrem traumatismos e lesões como a minha é a morte”.

ME BEFORE YOU
Me Before You, 2016. Photo courtesy of Warner Bros. Pictures

Outro problema chave com Como Eu Era Antes de Você é que todos os momentos mais dolorosos ocorrem “fora da tela”. A enfermeira de Will menciona apenas brevemente episódios de dor excruciante de seu paciente. Nós não vemos ninguém dando banho em Will. Não sabemos se ele usa fraldas ou talvez tenha feito um procedimento cirúrgico e usa algo como uma bolsa de urostomia. E, significativamente, nós não o vemos morrer. A memória e a função cognitiva de Will estão intactas. Ele aprecia filmes estrangeiros e a beleza natural da vista do castelo. Ele pode viajar. Ele é excepcionalmente bonito e rico. Ele se apaixona. Mas nenhuma das coisas boas da vida é o suficiente para ele.

“A saúde física pode realmente trazer alegria às pessoas e nos permitir fazer coisas boas”, Ellen me disse. “Mas nós cometemos o erro de acreditar que o suicídio de alguém com uma doença grave ou incapacidade seria racional e compreensível. Doença e invalidez não fazem do suicídio uma decisão racional e boa. Idealizar o suicídio é uma patologia cerebral que precisa ser tratada com compaixão, terapia e medicação, não com encorajamento, pois assim assumiremos que a vida com um corpo prejudicado claramente não vale a pena ser vivida”.

Por outro lado, se você quiser ver um filme que aborda o valor de uma pessoa vivendo com deficiência profunda, assista ao excepcional O Escafandro e a Borboleta. Baseado no livro de memórias de Jean-Dominic Bauby, o filme francês conta a história de como era a vida de Bauby depois que ele teve um derrame aos 43 anos que o deixou com uma rara paralisia.

Ao contrário do ficcional Will, Bauby não só não podia falar depois do acidente vascular cerebral, mas não podia mover qualquer parte de seu corpo, exceto sua pálpebra esquerda. Ele deixou de ser o editor-chefe da francesa Elle e passou a viver em um hospital, exigindo cuidados constantes. Com o tempo ele aprendeu a se comunicar e até mesmo escreveu um livro de memórias, através do piscar de sua única pálpebra funcional para indicar letras do alfabeto. Bauby não andou, falou, riu ou comeu novamente depois de seu acidente vascular cerebral, mas seu livro de memórias e o filme lindo e extremamente doloroso baseado nele demonstra o valor de cada vida humana e do poder crescente da imaginação.

Agora, quem é o homem que tem o direito de nos dizer para #viverintensamente.

Jennifer Grant é escritora e palestrante. Mora em Chicago, é mãe de quatro adolescentes, esposa de David e autora de quatro livros: Love You More, MOMumental, Disquiet Time e Wholehearted Living. Encontre-a online em jennifergrant.com.