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Mistério da dor: mãe e pai mortos na tragédia da BR-277 tinham só 22 e 26 anos

Aleteia Brasil - publicado em 06/07/16

Como é que a fé se atreve a tentar explicar o imperscrutável absurdo de tamanho e tão injusto sofrimento?

Ainda sob o choque da tragédia evitável que ceifou a vida de ao menos seis pessoas na rodovia federal BR-277, no último domingo, os brasileiros vão conhecendo aos poucos, emocionados, as vítimas e suas histórias.

Leia aqui – Pai herói: ardendo em meio às chamas, ele morreu salvando a filha de 17 dias

A BEBÊ, O PAI E A MÃE

Maria Fernanda é o nome da bebezinha que, aos 17 dias de vida, sobreviveu à explosão provocada por um caminhão-tanque carregado com 44 mil litros de álcool.

Ela foi salva graças ao heroísmo de seu pai, Luiz Carlos Silva, que, mesmo com o próprio corpo envolto em chamas, correu com a filha “embrulhada” em seus braços para deixá-la em algum local seguro, às margens da rodovia. Luiz Carlos conseguiu entregar a bebê ao dentista Sérgio Schacht, que, por sua vez, a entregou a um dos bombeiros que trabalhavam no local do desastre. Foi o próprio Sérgio quem narrou ao país o episódio estremecedor:

Quando eu caí no buraco, tinha um senhor ali, com uma ‘coisa’ no colo. Quando eu vi, era uma criança. Ele só falava assim: ‘Filho, pega a criança’. Eu peguei. Quando eu fui pegar, ele esmoreceu e desceu”.

Luiz Carlos tentou então, correndo para um córrego próximo, apagar o fogo que lhe consumia as roupas – o córrego, porém, já estava tomado de combustível líquido. Seu corpo só foi encontrado na manhã de segunda-feira.

O que ainda não sabíamos era que o pai herói era um jovem cheio de vida, de apenas 26 anos de idade.

A mãe de Maria Fernanda era ainda mais jovem que Luiz: Caroline Fernanda Grassmann Martins tinha só 22 anos. Mamãe de primeira viagem, ela ainda estava enfaixada devido à cesariana – e teve por isso ainda menos chances de se defender do fogo.

O casal, que optou por salvar a filha antes de se lembrar de si mesmo, estava voltando para casa depois de uma viagem até Morretes, no litoral do Paraná. Eles tinham viajado justamente para apresentar sua pequena Maria Fernanda aos familiares.

A BISAVÓ E A AVÓ DA BEBÊ

Zenilda Cordeiro Grassmann é a bisavó materna de Maria Fernanda. Mesmo em meio ao sofrimento indescritível que assola a família, ela consegue dar graças a Deus pela sobrevivência da bisneta e pela bravura de Luiz Carlos. Zenilda conta que o jovem casal estava radiante com a chegada de Maria Fernanda:

“Estavam tão felizes os dois, tão felizes com essa criancinha, meu Deus! Misericórdia! A gente não entende, não entende o que aconteceu”.

Maria Fernanda está agora com sua avó materna, filha de Zenilda. Embora muito abalada “e revoltada” com a tragédia, nas palavras de Zenilda, a avó pedirá a guarda definitiva da pequena. “Ela vai cuidar. O pessoal está dando bastante apoio, bastante carinho para a gente. Ela tem muito amor”.

MAS POR QUE, DEUS, O ABSURDO DE TANTO SOFRIMENTO?

A dor dos inocentes, especialmente dos mais jovens, é um dos mais assombrosos mistérios da existência. Diante do absurdo do sofrimento e do mal que se abate sobre quem julgamos não merecê-lo, é comum que o espírito humano se revolte, inclusive contra Deus – um Deus que, se é Pai e é Bondade Pura, como queremos crer, não poderia permiti-lo jamais.

Ao mesmo tempo, no entanto, outras pessoas se convencem precisamente do contrário: de que tem de existir uma vida eterna em que serão recompensados todos os sofrimentos vividos nesta terra e se conhecerá, finalmente, a plenitude da felicidade sem fim.

Para o beato Carlo Gnochi, um capelão italiano que atendeu centenas ou talvez milhares de crianças feridas durante a Segunda Guerra Mundial, “quando se chega a compreender o significado da dor das crianças, tem-se nas mãos a chave para compreender toda a dor humana; e quem consegue sublimar o sofrimento dos inocentes está em condições de consolar a pena de todo homem ferido e humilhado pela dor“. É somente a partir da perspectiva da vida eterna que se pode vislumbrar o sentido dos sofrimentos dos inocentes, reitera ele.

É uma perspectiva de fé. A razão, por si só, não oferece nenhuma explicação plausível para mistérios da existência como o mal e o sofrimento. A razão sozinha, aliás, não oferece explicação plausível sequer para a própria existência.

Nos alicerces da fé cristã está a convicção sobrenatural de que Deus mesmo, ao encarnar-se, sujeitou-se à Cruz para nos merecer a vida eterna. E a fé ressalta algo de grande importância para se tentar penetrar neste mistério: não foi o sofrimento de Cristo o que nos redimiu do mal, e sim o seu Amor por nós; um amor capaz de dar a vida até a morte – e morte de cruz.

Deus amou tanto o mundo que entregou seu próprio Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Jesus Cristo, Filho de Deus, por desígnios incompreensíveis à razão sozinha, se uniu misteriosamente ao sofrimento do ser humano. Toda vez que um irmão sofre, podemos reconhecer nele a presença de Cristo e nos esforçar para aliviar a sua dor e curar as suas feridas, como o bom samaritano da parábola narrada pelo mesmo Cristo. As experiências do amor em meio à dor nos humanizam e preparam para a vida plena, aquela em que, livres da finitude da matéria, não mais sofreremos nem morreremos.

Para a fé cristã, Deus não quer o mal nem o sofrimento: Ele quer que em nossa vida se manifeste o seu Amor, que é capaz de superar até mesmo todo o mal e todo o sofrimento.

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