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A cidade que há 7 séculos integra pessoas com transtornos mentais

John Burger - publicado em 11/07/16

As famílias de Geel, na Bélgica, as hospedam nas próprias casas

Imagine que você está fazendo um churrasco em casa e, de repente, o seu hóspede começa a abraçar a sua mulher e a dar-lhe beijos no rosto. Nenhum dos seus amigos estranha a cena.

Ou então que a pessoa que mora no andar de cima tem problemas para dormir à noite porque tem medo dos leões que saem das paredes. Você sobe até o apartamento vizinho e, ostensivamente, afugenta os leões.

Ou ainda que o seu hóspede se fecha no banheiro para passar nada menos que horas lavando as mãos.

Pois bem, assim são as coisas em Geel, uma cidade da Bélgica que, por inspiração de uma santa católica, vem se esforçando há séculos para integrar na vida cotidiana as pessoas com deficiências mentais.

Situada a quarenta quilômetros de Amberes, Geel tem como padroeira Santa Dimpna, cujo corpo, sepultado em um antigo sarcófago de mármore, foi descoberto no século XIII. A descoberta das relíquias de Santa Dimpna se fez acompanhar pela restauração milagrosa da saúde de vários epiléticos e pessoas com transtornos mentais. Desde então, além de venerar a santa como protetora das pessoas com essas doenças, os habitantes de Geel passaram a se destacar pela amabilidade e pelos cuidados para com quem padecem de tais transtornos.

No final do século XIII, a cidade construiu uma clínica esses enfermos que, hoje, se transformou num hospital público de referência mundial. A maioria dos pacientes vive o dia-a-dia de forma satisfatória e produtiva, como hóspedes internos em casas de moradores locais, a quem ajudam nas tarefas cotidianas e com quem compartilham a vida familiar.

Sob a guarda centenária do campanário medieval da igreja de Santa Dimpna, os habitantes de Geel mantêm uma tradição de sete séculos ao receberem e cuidarem, dentro dos próprios lares, de pessoas com transtornos mentais. Essas pessoas não são chamadas de pacientes, mas sim de hóspedes. Além disso, elas trabalham em troca da moradia e do alimento. Em Geel, elas se unem a uma família para compartilhar a vida e os cuidados, ajudando-se mutuamente.

Luc Ennekans é um dos cerca de 250 hóspedes que vivem hoje em Geel. Tem 51 anos, é da região de Flandres e mora com a Sra. Toni Smit e seu esposo Arthur Shouten. Luc é muito amigável. É ele o homem que mencionamos no primeiro parágrafo, aquele que inunda de afeto a senhora Smit, lhe compra flores, a beija no rosto e caminha com ela de braços dados.

Pela residência do casal, já passaram, ao longo dos anos, seis hóspedes, cada um com suas particularidades. Assim como os muitos outros anfitriões de Geel, eles aceitam que é esta a realidade dos seus hóspedes. Não é algo “anormal” ou que deva cambiar. “A vida é assim”, observa Arthur.

A aceitação das diferenças mentais se transformou numa espécie de tradição em Geel. É a essência do programa de hóspedes – e vários observadores acham que é também a causa do sucesso deste sistema.

Durante séculos, foram testados mundo afora muitos e diferentes experimentos para oferecer atenção a pessoas com doenças mentais. O caso de Geel é um dos que há mais tempo dão bons resultados.

O programa de hóspedes é gerido por um hospital psiquiátrico público da cidade. Depois que os profissionais médicos fazem sua avaliação, o hóspede é confiado a uma família que, por sua vez, recebe do governo formação e apoio financeiro para o programa.

Pessoas que previamente manifestaram comportamentos violentos não costumam ser admitidas no programa. Nos casos necessários, também acontecem internações.

Há uma série de critérios importantes para se entrar no programa Geel, que, no geral, seleciona pacientes com graves enfermidades mentais ou deficiências cognitivas e para os quais é muito difícil viver de forma independente.

Em 2003, quase a metade dos 516 hóspedes da cidade padecia de algum transtorno cognitivo. Cerca de 20% tinha diagnóstico de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico. Alguns também manifestaram condições como transtornos da aprendizagem ou autismo.

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