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Alergia ao Papa Francisco: o sintoma da incoerência de alguns círculos católicos

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Getty Images

Louis Charles - publicado em 15/07/16

Alguns católicos não suportam que o Papa lhes recorde que Jesus Cristo não exige defensores, mas testemunhas – e não é a mesma coisa

Quando o Papa Francisco declarou que a maioria dos matrimônios católicos não é válida, ele fez um diagnóstico que em nada modifica uma vírgula que seja da doutrina católica. No entanto, o comentário se tornou mais um dos vários que provocaram reações histéricas entre certo número de fiéis.

O fenômeno é no mínimo curioso. Quem se der ao trabalho de ler a declaração completa – em vez de citações tiradas de contexto ou francamente truncadas – constatará que a afirmação do pontífice está em consonância com a doutrina da Igreja sobre o sacramento do matrimônio: o matrimônio é indissolúvel desde que seja válido sacramentalmente, o que exige condições bastante claras.

É por isso, aliás, que, em alguns casos, a Igreja reconhece a posteriori que certos casamentos que se supunham válidos não o eram na realidade. Trata-se do reconhecimento de nulidade do matrimônio – e não da “anulação do matrimônio”, coisa que não existe na Igreja.

A declaração do papa sobre o estado de imaturidade afetiva, psicológica e espiritual de numerosos católicos não é, infelizmente, nem um pouco surpreendente para quem abre os olhos à realidade. E se isto não fosse verdade, não teríamos tantos debates sobre a situação dos divorciados em segunda união.

No entanto, quando o papa diz em alto e bom som aquilo que todo o mundo já sabia (e que poucos se atreviam a manifestar com clareza), certos católicos se ofendem e outros expressam desaprovação com expedita “surpresa”.

Mas será que não é ainda mais surpreendente essa “alergia” que certo número de católicos tem à sinceridade do Papa Francisco?

Quando ele declara que “a Igreja tem que pedir perdão às pessoas gays a quem ofendeu”, ele não está fazendo nada além de recordar o Evangelho: está convidando à conversão aqueles que não se comportaram de forma caridosa para com as pessoas homossexuais – e ele mesmo se inclui no lote.

Por outro lado, nada muda na posição da Igreja a propósito das práticas homossexuais. Mesmo assim, certos católicos se dizem “desestabilizados”. Ora, mas não é precisamente a reação deles o que desestabiliza?

O que há de “desestabilizador” em pregar aos católicos a conversão do coração? O que há de “desestabilizador” em dizer a eles que, se ofenderam um irmão ou irmã, devem pedir-lhes perdão?

As palavras do Papa Francisco correspondem ao espírito e ao sentido do Evangelho. Recriminá-lo, quando se é supostamente adepto da religião do amor, é uma contradição patente e grotesca – mas, acima disso, é indício de que algo que não anda bem, pelo menos em certos ambientes, já que o ceticismo contra o Papa Francisco está longe de ser generalizado.

As reações histéricas de alguns setores católicos

Certos círculos católicos se empenham em criticar o papa em nome de uma suposta identidade católica que eles confundem com a soma de maus hábitos, visões parciais e preconceitos herdados da família ou do entorno. Esta herança eles confundem com o depósito da fé – e acusam o papa de querer liquidá-la.

Não lhe perdoam o fato de nos recordar que a única identidade do cristão é a de seguir a Cristo e que isto exige, com muita frequência, mudar muita coisa em nós mesmos e ao redor de nós mesmos, rompendo, inclusive, com a “lealdade” a certos entornos.

Há católicos que se recusam, “por herança”, a transformar-se em cristãos por escolha. Insistem em fazer sua rigidez e dureza de coração se passar por fidelidade ao magistério da Igreja.

Daí o fenômeno de que tais católicos se remetam mais ao pensamento de Charles Maurras e Pierre Gattaz, por exemplo, do que ao pensamento dos Padres da Igreja. Daí o absurdo de que tais católicos se achem mais católicos que o próprio Papa, a ponto de pretenderem dar ao Papa lições de catolicismo.

Com o pretexto de denunciar erros bem reais da parcela do clero e do episcopado que usou o Vaticano II para justificar suas próprias fantasias pastorais, teológicas, litúrgicas e morais – em suma, sua própria apostasia –, certos círculos católicos querem jogar responsabilidades sobre os ombros de um Papa que de nada disso tem culpa.

Salta aos olhos de todos, menos deles mesmos, a contradição patente entre o que dizem ser e o seu real comportamento de protestantes que negam a autoridade intelectual, espiritual e moral do Papa.

Mas o mais absurdo desse tipo de comportamento é que eles são deliberadamente ferinos e não se abstêm sequer de procedimentos desonestos e maliciosos como insultos, calúnias, insinuações, citações tergiversadas ou descontextualizadas, acusações sem provas e toda a gama de recursos típicos do manipulador criminoso.

Todos esses comportamentos são o contrário do que Cristo nos pediu: amar o próximo como a nós mesmos.

Quem se serve desses meios desonestos não rejeita apenas a pressuposição de inocência do Papa Francisco, mas, acima de tudo, a própria pressuposição da sua bondade.

São o perfeito contratestemunho para os não cristãos: desalentam os bem intencionados e afugentam todo o resto.

Essa atitude traduz naqueles que a adotam uma profunda malícia, indissociável de uma forma de orgulho que consiste em considerar-se uma espécie de “conselho de administração” da Igreja – e ao Papa Francisco uma espécie de “diretor de empresa”, que deve não só prestar contas regularmente diante deles como, principalmente, satisfazê-los em tudo.

Acontece que a Igreja é fruto da vontade e do desígnio expresso de Cristo e que o Papa é escolhido pelo Espírito Santo.

Como não podem destituí-lo, tentam consolar-se questionando-o, como o fez o político francês conservador Alain Juppé ao dizer, de Bento XVI, que ele “começava a ser um verdadeiro problema” e que vivia “em situação de autismo total”.

A oposição ao Papa e o desprezo pelo Evangelho

O que o Papa pede aos católicos é que sejam fiéis ao Evangelho. Francisco nos põe em guarda contra o risco, ou contra a tentação, de preferir defender o continente (a cultura cristã) a viver o conteúdo (Cristo).

O que alguns católicos não suportam é que o Papa lhes recorde que Jesus Cristo não exige defensores, mas testemunhas – e não, não é a mesma coisa.

O que esses “ateus piedosos” não suportam é que o Papa diga em voz alta que a missão dos católicos não é recordar às massas ignorantes as belezas da arte romana, mas anunciar-lhes a Boa Nova da Redenção por Jesus Cristo, começando por viver eles mesmos em consonância com essa Boa Nova.

Outros o detestam porque ele recorda que a sua missão é dar testemunho, através da vida e da palavra, de que Deus é o Deus do amor e que só Ele pode satisfazer a aspiração do ser humano a ser amado.

E o que detestam acima de tudo é que o Papa Francisco lhes recorde que esta responsabilidade cabe também a eles como batizados: eles têm o dever da exemplaridade porque a santidade não é uma alternativa que possam optar por não seguir; a santidade é a sua única vocação, a sua única razão de ser e a condição para a sua salvação.

Há quem o odeie porque não querem entender que a fé cristã é a fé em um Deus onipotente que decidiu operar a salvação da humanidade tornando-se homem junto conosco. Prefeririam um Deus muçulmano, que lhes ordenasse usar a força.

Aliás, a sua obsessão com o islã é o reflexo da sua inveja e a expressão do seu pesar por não poderem exaltar a própria vontade de poder, tal como aqueles muçulmanos que justificam a própria vontade de dominar invocando a jihad.

Do mesmo modo que o amor nos torna inteligentes, a maldade nos torna cegos. De tanto atribuir ao Papa o que ele nunca disse, os inimigos do Papa Francisco se condenam a não entender nada.

Ao fazer um diagnóstico sem complacências sobre a realidade de certos matrimônios celebrados meramente na forma, o Papa destacou as consequências da apostasia e da frouxidão dos responsáveis do clero que renunciaram a iluminar consciências quando as condições de validade para um matrimônio sacramental não eram cumpridas.

Negando-se a escutar o que o Papa realmente diz e dando preferência à calúnia, os católicos que desfrutam do próprio ódio ao Papa se condenam a uma cegueira voluntária.

A histeria que o Papa Francisco desencadeia em alguns não nos diz nada sobre o que o Papa de fato pensa e fala, mas nos ensina muito sobre o estado interior dos seus detratores.

Deste ponto de vista, a alergia ao Papa Francisco é um sintoma revelador de incoerências e infâmias em alguns círculos católicos e, por isso mesmo, é uma boa notícia: as máscaras caem!

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