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Jornalista narra o caos que presenciou em Nice

FRANCE ATTACK

AFP

Agências de Notícias - publicado em 15/07/16

Centenas de pessoas corriam em todas as direções. Algumas choravam. Outras gritavam. "Terroristas! São terroristas!"

O jornalista da AFP Valery Hache foi um dos primeiros a chegar ao local do atentado de quinta-feira à noite em Nice, e capturou imagens do caos e do caminhão com seu pará-brisa crivado de tiros.

Ele deu seu testemunho sobre o pesadelo que foi a experiência.

“O horror começou a me invadir quando ouvi as sirenes. Muito estridentes. Então eu vi filas de caminhões de bombeiros. Muitos, inúmeros. Pensei comigo mesmo que algo estava errado.

Depois da Eurocopa, todos nós demos um suspiro de alívio.

Durante o campeonato de futebol e, em particular, para a final em que eu cobri Paris, todos temiam um ataque, todos viveram esse tipo de espera tensa.

Mas tudo correu bem. Os enviados especiais deixaram Paris, foram para casa, felizes por iniciarem em breve as suas férias de verão. E o presidente da República nos tranquilizou, em 14 de julho, dia do feriado nacional, quando ele anunciou que o estado de emergência declarado após os atentados de novembro em Paris em breve seria levantado, no final de julho.

Por isso, nesta noite festiva, estava relaxado e alegre, fotografando os fogos de artifício anuais de Nice.

Todo mundo gosta de assistir a fogos de artifício. Especialmente as famílias com crianças. Especialmente em Nice, resort ultra-turístico. E ainda mais no calor do verão. A famosa Promenade des Anglais estava lotada de pessoas.

Tirei dezenas de fotos, mas, sabendo que a demanda seria sobretudo da queima de fogos em Paris enviei apenas uma fotografia ao nosso “desk” de edição em Paris: uma imagem dos fogos com raios ao fundo. Então voltei para casa.

– Alguma coisa grave aconteceu – Dez minutos depois de cruzar a porta do meu apartamento, ouvi as sirenes. Peguei minhas câmeras e pulei na minha moto. Meu telefone tocou: era um amigo jornalista. “Alguma coisa grave aconteceu na Promenade des Anglais”, disse meu interlocutor.

Eu telefonei para o escritório da AFP em Marselha. Peguei minha moto e corri, chegando o mais próximo que pude da Promenade. Então eu continuei a pé.

Centenas de pessoas corriam em todas as direções. Algumas choravam. Outras gritavam. “Terroristas! São terroristas! Eles estão atirando! Há terroristas em Nice”, pude ouvir no meio da multidão.

Então, ouvi disparos. Mas eu não sabia de onde vinham.

Continuei andando, tentando decifrar a situação. A polícia começou a fechar o bairro.

Eu vi um caminhão grande, com o parabrisa crivado de impactos de bala, cercado por policiais. Parei e tirei algumas fotos.

Fiquei parado por dez segundos. Ninguém prestava atenção em mim. As pessoas corriam desorientadas. Então me indicaram que um pouco mais longe havia pessoas caídas no chão. Comecei a me aproximar e percebi que tinha que enviar o mais rápido possível as fotos que tirei. Ainda não sabia o que tinha acontecido, muito menos o número de vítimas, mais de 80.

A rede estava saturada. Enviar minhas fotos levou de 15 a 20 minutos. A imagem do caminhão está nas manchetes dos jornais de hoje. Foi este caminhão que foi conduzido contra a multidão por quase dois quilômetros, passando por cima de todos aqueles que tiveram a infelicidade de cruzar seu caminho louco.

Então eu continuei a andar. Toda a área estava isolada. As pessoas estavam em pânico. Algumas se abraçavam. Sobreviventes.

Finalmente cheguei ao trecho mortal percorrido pelo caminhão branco. Havia corpos por toda parte. Cobertos com bandeiras, brancas e azuis. Eu tiro fotos sem realmente acreditar no que vejo no meu visor. Corpos caídos ao longo de toda a principal avenida de Nice.

“Há terroristas nas ruas de Nice”, me diz um policial.

Sou jornalista e nós, os jornalistas, sabíamos que havia um risco. Mas aqui estou eu de volta da Euro e estou em Nice, Nice! Uma cidade turística, de praias, descontraída. E corpos deitados em todos os lugares na minha frente.

Nice é como um imã para os turistas estrangeiros, mas também para os franceses. Alguns corpos são tão pequenos. De crianças. Seus pais deveriam estar tão contentes em poder levá-los para assistir à queima de fogos. Mas, após toda a alegria, se encontraram com a morte”.

Valery Hache, Fotojornalista da AFP em Nice, no sul da França

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