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O legado de Dom Paulo Evaristo Arns em defesa da liberdade

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Arns quis que as próximas gerações tivessem acesso ao que aconteceu e marcou a vida de tantas pessoas no período ditatorial

 

A participação de Dom Paulo Arns é fundamental durante a ditadura e no processo de redemocratização do Brasil. Além de arcebispo, ele foi Grão Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e defendeu os direitos humanos junto a muitos outros envolvidos pela causa. Sua preocupação diante do cenário de mortes, repressão e tortura, vivido intensamente durante a ditadura militar, se tornou concreta a partir de ações promovidas por ele.

Em janeiro de 1971, o arcebispo denunciou a prisão e a tortura de agentes de pastoral, apoiando aqueles que estavam sendo pressionados pelo regime militar. Dom Paulo celebrou o histórico culto ecumênico (com a participação de católicos, judeus, protestantes e adeptos de outras religiões) em 1975, em memória ao jornalista Vladimir Herzog, que foi torturado até a morte pelo regime militar brasileiro. Antes do sepultamento de Herzog, o arcebispo declarou: “A liberdade – repito – a liberdade humana nos foi confiada como tarefa fundamental, para preservarmos, todos juntos, a vida do nosso irmão, pela qual somos responsáveis, tanto individual quanto coletivamente”.

Entre ações, documentos e relatos de Dom Paulo a favor da liberdade e contra a ditadura, alguns se destacam, como a declaração “Não oprimas teu irmão”, que reiterava a denúncia e condenação da tortura; e o documento “Repressão na Igreja do Brasil: reflexo de uma situação de opressão”, pedido pelo arcebispo ao Centro Ecumênico de Documentação e Informação e amplamente divulgado.

Além de apoiar a Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados em sua ajuda à greve dos metalúrgicos do ABC, defendeu líderes sindicais operários nas greves de 1980. Dom Paulo também orientava as comunidades no movimento pelas eleições diretas através de cartilhas e slides sobre fé e política.

O projeto Brasil: Nunca Mais

O dia 15 de janeiro de 1985 foi marcado pela última eleição indireta, que elegeu Tancredo Neves como presidente da República. Pouco depois da eleição, Tancredo faleceu e seu vice, José Sarney, assumiu o cargo e tornou-se o primeiro presidente da República após o governo ditatorial.

Quatro meses após a retomada do regime democrático, Dom Paulo Evaristo Arns lançou (juntamente com o reverendo Jaime Wright) um projeto desenvolvido nos anos oitenta pela Arquidiocese de São Paulo e pelo Conselho Mundial de Igrejas (que tornou mais fácil a tarefa de arrecadação de fundos) e que marcou o processo de redemocratização do país, o Brasil: Nunca Mais.

Os principais objetivos da obra eram obter informações sobre as torturas praticadas pela repressão política, divulgar essas informações para a sociedade brasileira e evitar que os processos judiciais por crimes políticos fossem destruídos com o fim da ditadura.

No início de 1980, os primeiros integrantes da equipe começaram a desenvolvê-la.

“Tudo transcorreu em segredo. […] Três anos depois de iniciados os trabalhos, praticamente o arquivo inteiro havia sido processado. Foram catalogadas mais de um milhão de páginas, cópias da quase totalidade dos processos políticos (707 completos e dezenas de outros incompletos) que transitaram pela Justiça Militar entre abril de 1964 e março de 1979.” (MEZAROBBA, 2006, p 66).

A publicação da obra recebeu destaque nacional e internacional. O livro permaneceu na lista dos dez mais vendidos por 91 semanas consecutivas e foi, na época, o livro brasileiro de não-ficção mais vendido de todos os tempos. Idealizada por Dom Paulo, uma versão reduzida – para facilitar a compreensão dos leitores – foi publicada pela Editora Vozes. Atualmente, é possível encontrar Brasil: Nunca Mais também em forma digital, com um acervo disponível para o público.

De acordo com Glenda Mezarobba (2006), o Projeto Brasil: Nunca Mais havia sido a primeira e mais importante tentativa de se revelar as atrocidades cometidas pela repressão durante o regime militar.

A trajetória e a contribuição de Dom Paulo Evaristo Arns foram essenciais durante o período da ditadura. Mais do que contribuir para o processo de redemocratização, Arns quis que as próximas gerações tivessem acesso ao que aconteceu e marcou a vida de tantas pessoas no período ditatorial.

Ele desejava que a divulgação da obra Brasil: Nunca Mais cumprisse um papel educativo junto à sociedade. O projeto, assim como a busca por justiça e o papel social desempenhado por ele durante seus (até então) 94 anos de vida, são reflexos de seu próprio lema: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

 

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