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Francisco: revitalizar os mosteiros sem a tentação dos números

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A vida de oração e a vida contemplativa, recomenda o papa, "não podem ser vividas como curvamento sobre vocês mesmas"

Por Iacopo Scaramuzzi

O papa convida os mosteiros de freiras contemplativas a “não se deixaram tomar pela tentação do números e da eficiência”, na constituição apostólica Vultum Dei quaerere (A busca do rosto de Deus) publicada nessa sexta-feira, escolhendo com cuidado as vocações, evitando recrutar candidatas de outros países “com o único fim de salvaguardar a sobrevivência do mosteiro”, fortalecendo as federações (que podem envolver “a troca de freiras e a partilha de bens”) e a autonomia jurídica (que implica “um número até mesmo mínimo de irmãs, desde que a maioria não seja de idade avançada” e prevê um “processo de acompanhamento para uma revitalização do mosteiro, ou para iniciar o seu fechamento”).

“A 50 anos do Concílio Vaticano II, depois das devidas consultas e atento discernimento”, escreve Francisco nos documentos de 38 páginas assinado no último dia 29 de junho, que revoga normas precedentes sobre o assunto, “considerei necessário oferecer à Igreja, com particular referência aos mosteiros de rito latino, a presente Constituição Apostólica, que levasse em conta tanto o intenso e fecundo caminho percorrido pela própria Igreja nas últimas décadas, à luz dos ensinamentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, quanto das condições socioculturais em mudança. Esse tempo viu um rápido progresso da história humana: é oportuno tecer um diálogo com ela, mas que salvaguarde os valores fundamentais sobre os quais a vida contemplativa está fundamentada, que, através das suas reivindicações de silêncio, de escuta, de chamado à interioridade, de estabilidade, pode e deve ser um desafio para a mentalidade de hoje”.

Ao documento, apresentado na Sala de Imprensa vaticana pelo secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, o franciscano Dom José Rodríguez Carballo, seguirá uma Instrução que o próprio departamento vaticano emitirá em breve sobre os mesmos temas.

Com a constituição apostólica, Francisco convida a “refletir e discernir sobre os seguintes 12 temas da vida consagrada em geral e, em particular, da tradição monástica: formação, oração, Palavra de Deus, Eucaristia e Reconciliação, vida fraterna em comunidade, autonomia, federações, clausura, trabalho, silêncio, meios de comunicação e ascese”. O texto conclui com uma “conclusão dispositiva” mais operacional em 14 artigos.

No que diz respeito à formação, “dado o atual contexto sociocultural e religioso, que os mosteiros prestem uma grande atenção ao discernimento vocacional e espiritual, sem se deixarem tomar pela tentação do número e da eficiência”, escreve o papa, “assegurem um acompanhamento personalizado das candidatas e promovam para elas percursos formativos adequados”. À necessária autonomia jurídica dos mosteiros de vida contemplativa (freiras de clausura, mas não só), além disso, “deve corresponder uma real autonomia de vida, o que significa: um número até mesmo mínimo de irmãs, desde que a maioria não seja de idade avançada; a necessária vitalidade em viver e transmitir o carisma; a real capacidade formativa e de governo; a dignidade e a qualidade da vida litúrgica, fraterna e espiritual; o significado e a inserção na Igreja local; a possibilidade de subsistência; uma adequada estrutura do edifício monástico”.

Onde “não existam os requisitos para uma real autonomia de um mosteiro”, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica “avaliará a possibilidade de criar uma comissão ad hoc” e, de todos os modos, “tal intervenção tem como objetivo pôr em curso um processo de acompanhamento para uma revitalização do mosteiro ou para iniciar o seu fechamento”.

“Inicialmente – estabelece o documento, que também se dirige tanto aos mosteiros já federados quanto aos ainda não federados – todos os mosteiros deverão fazer parte de uma federação. Se, por razões especiais, um mosteiro não poderá ser federado, com o voto do Capítulo, peça-se a permissão da Santa Sé, à qual compete fazer o adequado discernimento, para consentir que o mosteiro não pertença a uma federação”. Nesse sentido, será “garantida a ajuda na formação e nas necessidades concretas através da troca de freiras e a partilha de bens materiais”, afirma o texto, que salienta, além disso, que “se favorecerá a associação, também jurídica, dos mosteiros à Ordem masculina correspondente”.

A Constituição Apostólica assinala, além disso, que, “embora algumas comunidades monásticas podem ter rendas, de acordo com o direito próprio, que elas não se eximam, no entanto, do dever de trabalhar” e, “para as comunidades dedicadas à contemplação, o fruto do trabalho não tenha apenas o escopo de assegurar um sustento digno, mas também, quando possível, prover às necessidades dos pobres e dos mosteiros necessitados”. Pede-se que o trabalho, em geral, “seja cumprido com devoção e fidelidade, sem se deixar condicionar pela mentalidade eficientista e pelo ativismo da cultura contemporânea”.

Em um plano mais especificamente espiritual, o papa adverte as contemplativas contra algumas tentações e ressalta, em particular, que, “entre as tentações mais insidiosas para um contemplativo, recordamos aquela chamada pelos padres do deserto de ‘demônio meridiano’: é a tentação que desemboca na apatia, na rotina, na desmotivação, na preguiça paralisante. Como escrevi na exortação apostólica Evangelii gaudium, isso leva lentamente à ‘psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como «o mais precioso elixir do demônio’”.

A vida de oração e a vida contemplativa, recomenda o papa, “não podem ser vividas como curvamento sobre vocês mesmas, mas deve, alargar o coração para abraçar a humanidade inteira, particularmente aquela que sofre. Através da oração de intercessão, vocês têm um papel fundamental na vida da Igreja. Rezem e intercedam por tantos irmãos e irmãs que são presos, migrantes, refugiados e perseguidos, por tantas famílias feridas, pelas pessoas sem trabalho, pelos pobres, pelos doentes, pelas vítimas das dependências, para citar algumas situações que são cada dia mais urgentes”.

O papa convida a usar os meios de comunicação com “prudente discernimento” e reitera o valor do silêncio e da ascese. Que vida religiosa, ainda, seja “testemunho de verdadeira comunhão fraterna que, com força, manifeste na sociedade marcada por divisões e desigualdades que é possível e bonito viver juntos, apesar das diferenças geracionais, de formação e, às vezes, culturais. Que as suas comunidades sejam sinais credíveis de que essas diferenças, longe de constituírem um impedimento à vida fraterna, enriquecem-na”.

“A Igreja precisa de vocês!”, escreve o papa às freiras contemplativas. “Não é fácil que este mundo, pelo menos aquela grande parte dele que obedece a lógicas de poder, econômicas e consumistas, compreenda a especial vocação e a missão escondida de vocês, embora precise imensamente delas. Assim como o marinheiro em alto mar precisa do farol que indica a rota para chegar ao porto, assim também o mundo precisa de vocês. Sejam faróis, para os próximos e, sobretudo, para os distantes. Sejam tochas que acompanham o caminho dos homens e das mulheres na noite escura do tempo. Sejam sentinelas da manhã que anunciam o surgimento do sol. Com a sua vida transfigurada e com palavras simples, ruminem no silêncio, indiquem-nos Aquele que é caminho, verdade e vida, o único Senhor que oferece plenitude para a nossa existência e dá vida em abundância. Gritem-nos como André a Simão: ‘Encontramos o Senhor’; anunciem, como Maria de Magdala na manhã da ressurreição: ‘Vi o Senhor!’. Mantenham viva a profecia da sua existência doada. Não tenham medo de viver a alegria da vida evangélica de acordo com o seu carisma”.

Dom José Rodríguez Carballo, na coletiva de imprensa, forneceu os dados atualizados das freiras contemplativas no mundo: hoje, há 44 mil, e quatro mil vivem em mosteiros. Neste momento, disse o arcebispo espanhol, na África, há 1.172 professas solenes, 372 temporais, 230 noviças. Na Ásia, respectivamente, 3.100, 379 e 271. Na América do Norte, 3.519, 303 e 206. Na América do Sul, 4.242, 443 e 315. Na Oceania, 188, 16 e 5. Na Europa, 22.315, 1.167 e 628.

“Em todo o mundo, são 43.500, quase 44 mil, mais ou menos”, disse o secretário do dicastério vaticano responsável pelos religiosos. A queda é consistente: de 2000 a 2014, as solenes caíram de 48.834 para 38.773; as simples, de 3.819 para 2.817; e as noviças, de 2.426 para 1.758.

Os mosteiros são “cerca de quatro mil em todo o mundo”. A metade das freiras contemplativas encontram-se na Europa(850 na Espanha, 523 na Itália, 257 na França e 119 na Alemanha). A família mais ampla, “desculpem a publicidade”, brincou com humor o franciscano, são as clarissas, seguidas pelas carmelitas. As menos numerosas são as cartuxas e as batistinas.

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