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Como interpretar a frase de Jesus: "Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo" (Mt 18,15)?

Lembrei-me de você, paciente leitor, ao escutar do Pe. João Wilkes [1] a melhor homilia que já ouvi sobre um dos textos mais desafiantes do Evangelho. Pensei logo em transformá-la em texto para que você tivesse acesso a essa preciosidade. Diz o Evangelho: Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não te ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público (Mt .18,15-17).

Essa passagem, como se vê, trata da correção fraterna, também chamada de “exortação”. Se a lemos de forma superficial, corremos o risco de pensar que, nela, Jesus nos dá direito de fazer como o servo de Mt 18 que, mesmo tendo sido perdoado de uma grande dívida, agarra um homem que lhe devia muito menos e, agressivo, exige que lhe pague o que lhe deve. Em outras palavras, corremos o risco de julgar que nesta passagem Jesus nos confere o direito de cobrar de alguém, de corrigir quem nos ofendeu tendo o direito de ser agressivos, de julgar e acusar nosso irmão. Nada mais distante do que quis dizer Jesus.

“Exortar”, em grego, significa “interceder”. A consequência é que, para termos o direito de corrigir um irmão, é preciso, antes, interceder por ele, abençoá-lo como manda Jesus em Mt 5 e suplicar ao Senhor, com toda a sinceridade, sua santificação e felicidade. Depois de interceder por ele com orações, penitência e coração livre, aí, então, teremos recebido de Deus e “armazenado” misericórdia suficiente para corrigi-lo, exortá-lo.

No texto, há, entretanto, um detalhe de enorme importância. Diz Jesus: “Se teu irmão pecar contra ti…” No contexto do Evangelho, onde a lei do amor é colocada acima de toda razão humana e sabendo que o amor tudo perdoa, como diz São Paulo, o primeiro dever que tenho para com quem pecou contra mim é perdoá-lo. Desta forma, se meu irmão errou, preciso interceder por ele antes de corrigi-lo. No entanto, se meu irmão pecou contra mim, é necessário primeiramente perdoá-lo, em seguida interceder por ele e só depois corrigi-lo. Somente após o perdão sincero e generoso seguido da intercessão que suplica a Deus todo o bem e santidade para o irmão, somente, então, estarei em condições de corrigi-lo.

Parece exigente? Pois saiba que a caridade é tão exigente com relação à nossa natureza egoísta, que ainda tem mais. Além de perdoar, além de interceder, ao corrigir é preciso fazê-lo com toda humildade e discrição, sabendo que nunca alguém erra sozinho e fazendo tudo para que o irmão se sinta completamente à vontade para expor suas razões e sentimentos. De forma nenhuma o irmão deverá sentir-se acusado ou cobrado por nós. Ao corrigi-lo, seremos, para ele, profetas e a profecia sempre exorta, ou anima, ou consola, ou os três ao mesmo tempo. Jamais uma verdadeira profecia deixa o irmão pior do que antes da conversa.

A razão para Jesus pedir que esta correção seja feita após o perdão e a intercessão e a sós, é exatamente porque quando outras pessoas sabem do erro do irmão, fica muito mais difícil corrigi-lo, pois ele poderá fechar-se em autodefesa e ressentimento, sentindo-se injustiçado. Caso o irmão não se corrija, Jesus orienta que se volte a conversar com ele na presença de uma ou duas outras pessoas amigas, dispostas a ajudá-lo, mas sempre com toda discrição, humildade, sem acusação ou cobrança e lhe dando toda a chance de expressar-se com liberdade e confiança. Não quebrar a confiança é um dos maiores frutos desta “técnica” de Jesus.

Infelizmente, poucas vezes nos lembramos deste ensinamento de Jesus e apressamo-nos em fazer o contrário: falamos mal do irmão, acusamo-lo, cobramos dele – implícita ou explicitamente – a atitude que consideramos “correta”. É o pecado do falatório e da fofoca, que, além de difamar e expor o irmão, faz-nos incorrer em pecado contra o quinto e o sétimo mandamentos, pois roubamos a boa imagem que os outros podem ter dele e assim o matamos dentro e fora de nós, tirando-lhe cada dia mais a chance de recuperar-se. Além de não solucionar a situação, criamos uma situação mil vezes pior.

Este ensinamento de Jesus inclui a necessária correção dos pais quanto aos filhos, de um cônjuge com relação ao outro e das autoridades quanto às pessoas a elas confiadas. Não corrigir alguém quando temos autoridade e responsabilidade sobre ele é grave pecado de omissão. É dever dos pais corrigir os filhos e das autoridades os seus subalternos. Muitas das desordens que hoje fazem sofrer tantas pessoas têm origem na omissão ou na correção dos filhos feita na frente de outras pessoas, a humilhá-los. Isso sem falar na correção de um cônjuge ao outro feita diante dos filhos ou amigos. Em qualquer que seja o caso, mesmo dentro de uma mesma família ou comunidade, é necessário chamar o irmão à parte e, em segredo, depois do perdão e da intercessão, corrigi-lo.

Há-de se colocar, também, a situação inversa: quando somos nós os corrigidos. Neste caso, o que se levanta dentro de nós não é a tentação da indignação, da vingança, da humilhação pública do irmão ou da fofoca. Explode dentro de nós o orgulho, a autojustificativa, a mentira, a agressividade. É preciso toda uma caminhada espiritual, muita contemplação e adoração de Jesus em Sua Paixão e uma grande união a Maria, Mãe do Senhor, para responder com humildade à correção que nos fazem, especialmente quando o irmão que nos exorta, que nos corrige, foi envenenado contra nós. Não se trata, aqui, de defender as próprias razões, pois sempre teremos errado em algum aspecto. Trata-se, antes, de expor com humildade e tranquilidade o próprio ponto de vista, sabendo que o irmão que nos corrige nem sempre acreditará em nós. Quando o erro for nosso, cabe a nós admitir nosso erro com humildade e mansidão e pedir perdão.

Para coroar esta situação, tão comum no nosso dia-a-dia, há ainda o fato de que tanto nossa correção poderá ser ineficaz para emendar o irmão quanto nosso esclarecimento pode não ser acatado por quem nos corrige. O efeito positivo está na abertura de cada um à graça de Deus através da oração. Somente a graça nos pode dar as virtudes necessárias para ultrapassar esta situação: perdão, intercessão, caridade, humildade, fortaleza, esperança, confiança na misericórdia de Deus, paciência e fé. A nós cabe ser fiéis ao que Deus espera de nós. O resultado palpável é imprevisível. Quanto ao fruto invisível, porém, tanto como benefício para quem corrige e como para quem é corrigido, a este podemos ter como certo.

[1] Padre João Wilkes Rebouças Chagas Júnior é membro da Comunidade de Vida da Comunidade Católica Shalom. Atualmente, está em missão em Roma e é responsável pelo Setor Jovem do Pontifício Conselho para os Leigos

 

 

(via Shalom)

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evangelho