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O livro que me ajuda a passar pelas más notícias

Tara Moore | Getty Images
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“Para tudo há um momento”, diz o Eclesiastes

Todos os dias nós recebemos muitas notícias ruins. Logo que acordamos já ouvimos nos noticiários que houve um atentado no Iêmen. Ou que o Zika vírus está se espalhando. Ou que há bizarros – e sinistros – relatos de pessoas vestidas como palhaços, escondidas atrás de árvores, intimidando crianças. É tentador pensar que a vida nunca foi tão sem esperança… e que as coisas nunca foram tão ruins.

Alguns amigos meus me disseram que iriam se “desconectar”. Como tentativa de não desanimar completamente, esses amigos iriam silenciar as notificações em seus telefones e deixar a TV desligada.

Coletivamente, todo mundo parece ter uma leve depressão – ou talvez não seja tão leve. Nossos corações ficam devastados com a situação dos refugiados sírios. Estamos chocados com as consequências do furacão Matthew. Lamentamos que nossos filhos tenham de aprender a se defender por causa da ameaça da violência – mesmo no santuário de suas escolas –, algo que se tornou tão comum. O medo de ataques vive conosco.

Mas, como o escritor do Eclesiastes diz, não há nada de novo na opressão aos pobres, nos “líderes” corruptos motivados pela ganância e na aparente falta de sentido da violência e da tragédia. “Não pergunte: ‘Por que os tempos passados eram melhores que os de agora?’”, o escritor adverte. “Essa não é pergunta de sábio” (Eclesiastes 7,10).

Nas páginas do Eclesiastes eu tenho encontrado uma mensagem calma e reconfortante que me guia, segurando meus medos, minhas decepções e os meus pesares. Ele me incentiva a entregar a Deus toda a minha indignação, medo e tristeza, pois “tudo que Deus fez é apropriado para cada tempo. Também pôs a eternidade no coração do homem” (Eclesiastes 3,11).

Mas, nas 24 horas dos nossos noticiários, todo o tempo é agora. Nós não vemos quase nada que seja corajoso, forte ou bonito ao nosso redor. As histórias são transmitidas como se fossem representantes da natureza ou do comportamento humano. Longe de nos encorajar a ficar quietos ou contemplativos, a notícia fala, grita sobre tudo que é triste na humanidade.

Raramente ouvimos sobre os esforços para tornar o mundo um lugar melhor. Atos de bondade. Festivais que unem as comunidades e estão cheios de risos e música – lugares onde as pessoas se divertem. Projetos que ajudam a tirar as pessoas da pobreza, fornecendo-lhes remédios, alimentos e oportunidades econômicas. A frequência com que ouvimos as histórias desastrosas nos leva a acreditar que a vida é muito desagradável.

Mas não há como negar, existem boas notícias. A pobreza extrema global, por exemplo, caiu de 36% para 18% desde 1990. Em todo o mundo, as taxas de educação continuam a subir. Vacinas para doenças como varíola, sarampo e poliomielite salvam milhões de vidas todos os anos.

O Eclesiastes me ajuda a lembrar que tudo o que é muito certo ou muito errado no mundo não está sob meu controle; “para tudo há um momento”, diz o texto.

 

“Tempo para nascer, e tempo para morrer;

tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;

tempo para matar, e tempo para sarar;

tempo para demolir, e tempo para construir;

tempo para chorar, e tempo para rir;

tempo para gemer, e tempo para dançar;

tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las;

tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se.

Tempo para procurar, e tempo para perder;

tempo para guardar, e tempo para jogar fora;

tempo para rasgar, e tempo para costurar;

tempo para calar, e tempo para falar”

Aceitar que há um tempo para tudo, no entanto, não é um convite a fechar os olhos perante o sofrimento dos outros. Sabemos que sempre que acolhemos o estrangeiro, alimentamos os famintos, visitamos aqueles que estão sozinhos, ou de outra forma satisfazemos as necessidades das pessoas mais vulneráveis entre nós, estamos servindo Cristo – de maneira mística e real.

“Todas as vezes que vocês fizeram isso a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram”, Jesus diz em Mateus 25, 40. Então, devemos ajudar a aliviar o sofrimento físico, a solidão, ou questões de injustiça.

Mas manter os olhos abertos não significa render-se desespero. O Eclesiastes me lembra que Deus é um mistério, um criador amoroso em quem eu posso confiar.

“Assim como você não conhece o caminho por onde o sopro da vida entra nos ossos ainda no ventre da mulher grávida, do mesmo modo você não conhece a Deus que faz todas as coisas”, diz Eclesiastes 11,5.

Ao liberar meus ressentimentos, medos e tristezas, eu me abro para ver a graça que está ao meu redor. A beleza das folhas do outono, o riso animado de crianças pisando em poças de chuva. Quando eu mantenho meus olhos abertos para o mundo ao meu redor, eu valorizo a beleza da vida.

E, sim, às vezes é necessário desligar os noticiários ruins, para poder respirar profundamente e restabelecer a confiança na humanidade.

 

 

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